sábado, 4 de janeiro de 2014

O histórico Corinthians x Real Madrid de 1965 em São Paulo

Texto escrito por Fábio Sormani, complementado por matéria do portal Basketeria com citações do jornalista Juca Kfouri.

Wlamir Marques jogou muito com a camisa 5 do Corinthians. Muitos foram os jogos inesquecíveis do nosso ala, mas um deles é considerado pelo próprio Wlamir como o jogo de sua vida com o fardamento alvinegro.

Ele aconteceu no dia 5 de julho de 1965. Local: Parque São Jorge. Adversário: Real Madrid. Foi um amistoso e no final deu Corinthians: 118-109.

O Real Madrid tinha acabado de conquistar o bicampeonato europeu, que na época era chamado de Copa dos Campeões, hoje em dia batizado de Euroliga. Os merengues venceram o CSKA de Moscou na decisão.

Na primeira partida, realizada no dia 8 de abril, na capital da então União Soviética, o time da casa fez 88-81. Nada menos do que 15 mil pessoas compareceram ao Palácio dos Esportes de Moscou.

Cinco dias depois, os dois times voltaram a se enfrentar. O palco foi o acanhado Frontón “Fiesta Alegre” de Madrid, com capacidade para apenas três mil pessoas.

Pequenino, mas um caldeirão. Empurrado por três mil inflamados madrilenhos, o Real venceu facilmente por 76-62 e ganhou o campeonato pelo resultado agregado: 157-150.

Emiliano Rodriguez, um ala de 1,87m de altura, foi o grande destaque do Real no jogo decisivo. Marcou 24 pontos e foi o cestinha da peleja.

Mas muito contribuiu também para o título o desempenho do pivô norte-americano naturalizado espanhol Clifford Luyk. Na primeira partida, em Moscou, Luyk, do alto de seus 2,02m de altura, cravou nada menos do que 30 pontos e foi o cestinha do confronto.

Moncho Monsalve, que dirigiu a seleção brasileira antes de Rubén Magnano asumir o comando, fazia parte do Real Madrid. Mas, lesionado, não entrou em quadra em nenhuma das duas partidas.

Depois de conquistar o bicampeonato europeu, o Real Madrid presenteou seus jogadores com uma excursão pela América do Sul. Chegou a São Paulo para apenas uma partida, esta contra o Corinthians, em São Paulo.


Antes de desembarcar em terras tupiniquins, os madrilenhos fizeram três jogos na Argentina, dois no Chile e um no Uruguai. Trouxeram na bagagem, além de todo o fardamento de jogo, o pivô Bob Burgess contundido. Burgess tinha se machucado na vitória diante do União Espanhola do Chile.

O Corinthians acabara de conquistar o Campeonato Paulista. Manteve-se invicto durante todo o segundo turno. Era considerado pelos espanhóis como o maior adversário desta excursão pela América meridional.

Os espanhóis, no entanto, chegaram ao Brasil com a faixa carimbada. Isso porque perderam o primeiro jogo da excursão (mostrando nítido cansaço da viagem) para o Obras Sanitárias da Argentina.

Wlamir Marques era dúvida para a partida contra o Real Madrid. Estava com uma alergia nos olhos fruto de um remédio que tomara um dia antes do jogo para combater um resfriado.

No dia da partida, à tarde, o médico do Corinthians foi até a casa de Wlamir e aplicou-lhe uma injeção antialérgica. Pra azar dos espanhóis, o medicamento foi eficaz: o inchaço desapareceu e Wlamir pôde jogar.

Entrou em quadra e barbarizou: marcou nada menos do que 40 pontos. Isso mesmo, 40 pontos no bicampeão europeu numa época em que não havia a linha dos três pontos.

Sua pontuação foi fundamental para que o Corinthians vencesse por 118-109.

Mas o jogo não foi eletrizante apenas por conta da atuação de Wlamir. Emiliano Rodriguez, considerado o melhor jogador europeu e que foi decisivo na final diante do CSKA, lembram-se?, foi um feroz adversário.

Rodriguez se destacou não apenas pelos 30 pontos anotados, mas principalmente por ter anulado um de nossos maiores jogadores: Rosa Branca. O brasileiro, em noite não muito feliz, não pontuava e nem conseguia conter o espanhol.

Apesar da grande atuação de Rodriguez, o cestinha do Real Madrid foi Clifford Luyk, a outra estrela do time merengue, que também foi decisivo na final europeia. Luyk anotou 33 pontos.

Moncho, recuperado da contusão, desta vez jogou. Terminou a partida com 15 pontos.

Até hoje, quando se conversa com Wlamir e o enredo se envereda pelo passado, ele faz questão de mencionar esse confronto. “Foi o maior jogo de minha carreira com a camisa do Corinthians”, diz Wlamir.


O basquete do Corinthians dos anos 60 mudou a história do esporte no país. Não houve nenhum time dominante e representativo na história do basquete brasileiro como este Corinthians nos Anos Dourados. 

Nenhuma outra equipe conseguiu reunir tantos medalhistas olímpicos e campeões mundiais e fazer frente com as principais forças do esporte no planeta, acumulando, não só conquistas, mas façanhas absolutamente notáveis.

Juca Kfouri, corintiano e basketeiro, conta alguns dos momentos que ele se recorda com mais saudade daquela equipe: "A torcida soltando rojão em ginásio fechado, como o do Ibirapuera lotado; o time perfilado diante da charanga, ouvindo o hino... do Corinthians; a vitória contra os campeões europeus do Real Madrid, no ginásio do Corinthians, no primeiro jogo disputado no Brasil em que os dois times passaram de 100, 118 a 109 para o Corinthians, na primeira vez, também, que vi uma ponte-aérea, com Wlamir batendo o lateral para cesta e o Bira subindo para enterrar; as vitórias seguidas contra os três times universitários dos EUA que vieram a São Paulo. Tanta coisa... Os jogaços contra o Palmeiras e o Sírio nos campeonatos metropolitanos e estaduais".

O grande arquiteto dessa máquina de jogar basquete foi Wadih Helu, polêmico e conservador presidente do Corinthians de 1961-1971, anos duríssimos para o alvinegro no gramado. Sua decisão de montar um esquadrão poderoso tem sido atribuído a dois motivos bastante convincentes: o primeiro, mais personalista, é o fato de ele ser um grande fã da modalidade da bola laranja; o segundo, mais estratégico, era compensar o fracasso dos campos com o sucesso nas quadras.

FICHA TÉCNICA
CORINTHIANS 118 x 109 REAL MADRID
Corinthians: Wlamir Marques (40), Rosa Branca (15), Renê Salomón (14), Pedro Yves (12) e Ubiratan Maciel (32). Téc: Moacyr Daiuto. Banco: Edward (5).
Real Madrid: Lolo Sainz (13), Emiliano Rodríguez (30), Carlos Sevillano (13), Clifford Luyk (33) e Moncho Monsalve (16). Téc: Robert Busnel. Banco: Miguel "Che" González (4).


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