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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Liga Adriática: o basquete unindo o que a política e o ódio racial fragmentaram

Adriatic League - Yugoslavia

A Iugoslávia tinha um dos maiores times de basquete masculino do mundo quando o país se dissolveu, após o fim da Guerra Fria, o fim do Comunismo, a Dissolução da União Soviética, e a Guerra Civil iniciada entre Croácia e Sérvia que levou à dissolução da Iugoslávia em 6 repúblicas: Sérvia, Croácia, Bósnia Herzegovina, Eslovênia, Macedônia e Montenegro.

A enorme tradição do basquete iugoslavo, com quintetos históricos que assombraram as quadras de basquete mundial, como o time da virada dos Anos 1960 para os Anos 1970, que tinha Ivo Daneu, Radivoj "Zucko" Korac, Zoran Slavnic e Ratko Radovanovic, ou o fantástico quiteto da virada dos Anos 1970 para os Anos 1980 com Delibasic, Kicanovic, Jerkov, Dalipagic e Cosic, e por fim, o último grande time antes da dissolução da república iugoslava, que encantou o mundo na virada dos Anos 1980 para os Anos 1990, com Drazen Petrovic, Kukoc, Divac, Dino Radja e Paspalj.

O Campeonato Nacional de Basquete Masculino da Iugoslávia foi disputado de 1945 até a temporada 1991-92. Teve 48 edições, nas quais o Estrela Vermelha (Crvena Zvevda) de Belgrado, na Sérvia, foi 12 vezes campeão, enquanto Olimpia Ljubljana, da Eslovênia, e o KK Zadar e o KK Split, ambos da Croácia, ficaram com 6 títulos cada uma das três agremiações. O Partizan Belgrado, também da Sérvia, foi 5 vezes campeão. O OKK Beograd, de Belgrado, na Sérvia, foi 4 vezes campeão. Duas agremiações foram três vezes campeães, o Bosna Royal, da Bósnia, e o Cibona Zagreb, da Croácia. E três equipes conquistaram 1 título: o Proleter Zrenjanin e o Radnicki Belgrado, ambos da Sérvia, e o Yugoslav Army, do exército iugoslavo, com base também na Sérvia. No total, das 48 edições, a metade, 24 títulos, ficaram com agremiações sérvias. Da outra metade, 15 títulos ficaram com times da Croácia, 6 títulos na Eslovênia e 3 títulos na Bósnia.

Até que o basquete da Iugoslávia acabou! Veja aqui: História do Basquete da Iugoslávia. Os problemas políticos romperam a tradição do basquete iugoslavo, como contado no histórico documentário Once Brothers.

A tradição e a força do basquete da Iugoslávia não foram capazes de superar as diferenças políticas e reunificar as seis repúblicas independentes numa única Iugoslávia. Mas a força e a tradição do basquete iugoslavo voltaram a unir as 6 repúblicas independentes, 10 anos após a dissolução, num mesmo campeonato, para de alguma forma manter a força técnica do basquetebol jogado naquela região. Em 2001 foi criada a Liga Adriática, reunindo agremiações das 6 repúblicas que um dia compuseram a Iugoslávia.

Esta liga regional de basquete cresceu e se tornou um dos maiores casos de ligas de sucesso dentro da Europa. Uma "sub-liga" dentro do universo maior composto pela Euroliga. Inicialmente o torneio recebeu o nome de Nova Ljubljanska banka - NLB League, que de 2001 a 2006 foi chamada, em função do patrocinador que a financiou, de Goodyear League. A partir da temporada 2011-12 passou a ter um novo nome: Adriatic Basketball Association - ABA League. A liga, nasceu por ações da iniciativa privada, impulsionada pela empresa eslovena Sidro, e sempre tendo direito a voto no Conselho da Euroliga, e sendo uma competição complementar a todos os campeonatos nacionais das 6 repúblicas que a compõem, as mesmas que no passado formavam a Iugoslávia. 

Agremiações que não foram partes das repúblicas que compuseram a Iugoslávia chegaram a participar do torneio: o Maccabi Tel Aviv, de Israel, disputou as edições de 2002-03 e de 2011-12, da qual inclusive se sagrou o campeão, o Nymburk, da República Tcheca, também jogou a edição de 2011-12, o Szolnoki Olaj, da Hungria, disputou três edições seguidas, de 2012-13 a 2014-15, e o Levski Sofia, da Bulgária, disputou a edição de 2014-15. A partir da temporada 2015-16 foi proibida a participação de outras agremiações que não fizessem parte de uma das 6 ex-repúblicas que formavam a Iugoslávia.

A competição no início tinha 12 clubes, depois passando a ter 14 agremiações. As equipes jogam em turno e returno, com classificação para uma fase final em play-off, equilibrando a participação de seus membros seus compromissos nos Campeonatos Nacionais e nas Competições Européias. Seu sucesso inspirou a formação de outras ligas similares, como a Liga Báltica, disputada a partir da temporada 2004-05, reunindo principalmente clubes de Lituânia, Letônia e Estônia.

Os resultados da Liga Adriática tiveram uma distribuição de títulos muito similar à observada no Campeonato Iugoslavo de Basquete Masculino. Nas 17 primeiras edições da Liga Adriática um dos títulos foi erguido por um dos convidados, o Maccabi Tel Aviv, de Israel. Nas demais 16 edições, no acumulado até o título da temporada 2017-18, 6 títulos foram do Partizan Belgrado, 3 títulos do Estrela Vermelha (Crvena Zvezda) e 2 títulos do FMP Belgrado, todas três equipes sérvias. Os sérvios ainda venceram uma edição com o KK Vrsac. Dos 16 títulos, 12 deles (três quartos) foram para a Sérvia. Nas demais quatro edições, quatro clubes com uma conquista cada: Cibona Zagreb e KK Zadar, ambos da Croácia, mais Olimpia Ljubljana, da Eslovênia, e Buducnost, de Montenegro. Quem mais bateu perto mas não venceu foi o Cedevita Zagreb, da Croácia, 4 vezes vice-campeã.

O basquete uniu o que a política separou. Como já provocado aqui: E se a Iugoslávia não tivesse se dividido?, no EuroBasket 2017 seu time teria Goran Dragic, Luka Doncic, Bogdan Bogdanovic, Nikola Vucevic e Boban Marjanovic, com um banco de luxo, com Milos Teodosic, Bojan Bogdanovic, Dario Saric, Bojan Dubljevic e Dragan Bender, além de poder estar fechando o elenco com Pero Antic e Ante Tomic. Um time que ninguém viu nem verá jogar junto. Para este milagre, o basquete não conseguiu passar por cima da política e dos ódios raciais.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Documentários de basquete imperdíveis: ONCE BROTHERS

O documentário "Once Brothers" (Uma vez irmãos) é uma co-produção da ESPN Films e da NBA Entertainment que fez parte da série "30 for 30", filme dirigido por Michael Tolajian e narrado por seu protagonista Vlade Divac.


Os fatos narrados contam a relação de dois jogadores de basquete da extinta Iugoslávia: o sérvio Vlade Divac e o croata Drazen Petrovic, que jogaram juntos na seleção da Iugoslávia de 1986 a 1990 e eram amigos próximos, porém, acabaram tendo a amizade rompida após ficarem de lados opostos pela Guerra Civil que segregou a Iugoslávia após o fim do comunismo.

Divac, em 1986, tinha apenas 18 anos quando chamou a atenção no cenário basquetebolístico de seu país, quando o Partizan, de Belgrado, investiu pesado em sua contratação. Logo depois, ele já era pela primeira vez convocado à seleção nacional. Ele tinha 18 anos quando assinou seu primeiro contrato profissional e quando foi chamado a defender a seleção de basquete da Iugoslávia. Já Petrovic, quatro anos mais velho, já era a principal estrela do basquete iugoslavo neste momento, sendo uma referência para Divac, ainda que os dois atuassem em posições distintas. Juntos, eles brilharam nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, classificando a Iugoslávia para a final diante da União Soviética, que para surpresa geral havia vencido aos Estados Unidos na semi-final. Juntos, eles conquistaram a Medalha de Prata e chamaram atenção do mundo. Em 1989 vingaram-se dos soviéticos e se sagraram campeões do Eurobasket, alcançando o topo do continente. Pelas palavras de Divac: "parecia que ninguém poderia nos parar". Foi mais do que suficiente para que abrissem as portas da NBA para jogadores europeus, numa época na qual o basquete profissional dos EUA vivia um momento de abertura para a Globalização, buscando expandir seus mercados. Conquistada a Europa, ambos foram para a América onde se tornaram os dois primeiros jogadores estrangeiros a conquistar o estrelato da NBA: Vlade Divac foi selecionado no Draft pelo Los Angeles Lakers, chegando para jogar ao lado de Magic Johnson e Kareem Abdul Jabbar, e Drazen Petrovic foi contratado pelo Portland Trail Blazers, onde a estrela era Clyde Drexler; ambos ingressavam na NBA para a temporada 1989-90.


A aventura em terras estrangeiras aproximou ainda mais os dois. Especialmente para Divac, a adaptação à NBA exigiu exercícios específicos para a intensificação do trabalho defensivo e de um jogo mais físico na marcação dentro do garrafão. Ele não falava uma palavra em inglês, e isto gerou as tradicionais piadas com estrangeiros que não falam o idioma local, mas sua adaptação e integração foi rápida. Divac tinha fragilidade no jogo defensivo, seus companheiros de Lakers o achavam desengonçado na marcação, mas em compensação ele tinha um controle de bola e uma habilidade para assistências que o fizeram ganhar bastante minutos de quadra no time do Lakers. Em Portland, o jogo de Petrovic - cadenciado, com muita infiltração e com um grande diferencial no tiro de três, que o faziam ser um jogador de 30 a 40 pontos por jogo na Europa - teve mais dificuldade para encontrar espaço numa equipe que estava cheia de armadores no elenco. No Trail Blazers, durante sua primeira temporada, Drazen Petrovic teve pouquíssimos minutos de quadra. A angústia por não jogar e as experiências de choque cultural por chegar a outro país faziam com que os dois, Petrovic e Divac, falassem diariamente por telefone durante horas. Como Divac disse no documentário, era duro ver um jogador que pontuava tanto ao lado dele na Iugoslávia comemorar quando tinha conseguido fazer dois pontos num jogo. Levaria algumas temporadas para Petrovic conseguir seu espaço na NBA, e ele só conseguiu mesmo quando migrou para o New Jersey Nets, onde voltou a ser um grande pontuador, resgatando seu basquete dos tempos dos clubes europeus, e provando aos norte-americanos que tinha valor.

Com a queda da União Soviética, emergiram movimentos separatistas na Iugoslávia, especialmente na Croácia e na Bósnia. As tensões étnicas enterradas por longas décadas voltaram a emergir. Como depõem no documentário os croatas Toni Kukoc e Dino Radja, companheiros de Seleção da Iugoslávia de Divac e Petrovic, as divergências étnicas no país sempre existiram, mas eles jamais acreditaram que pudessem ser algo sério a ponto de levar a um separatismo. Quando os movimentos separatistas começaram a fazer "mais barulho", o time da Iugoslávia seguia jogando junto, sem dar margem à origem de cada jogador, não era um tema que era colocado em debate entre eles, embora todos soubessem quem tinha nascido onde, soubessem de qual região cada um era. Mas forças poderosas, além do controle deles - político e pessoal - impediram a realização de alguns dos sonhos daquela magnífica geração de jogadores que atuava junto com a camisa da Iugoslávia.

Pelas palavras de Vlade Divac: "Once Brothers é a minha jornada para entender uma sensação de perda duradoura - da minha equipe, do nosso futuro compartilhado e das pessoas que uma vez considerava meus irmãos". O documentário, além de Vlade Divac, traz depoimentos daqueles que conviveram no time da Iugoslávia - Toni Kukoc, Dino Radja e Zarko Paspalj - de ex-jogadores que vivenciaram a chegada de Divac e Petrovic na NBA - Magic Johnson, Larry Bird, Jan Hubbard, Jerry West, Clyde Drexler, Danny Ainge, Rick Adelman, Kenny Anderson, Derrick Coleman, Bill Fitch - e também os depoimentos de Aleksandar Petrovic, irmão de Drazen, e de sua mãe, Biserka Petrovic. É uma história de amizade, guerra, encontros, desencontros, sucessos, fracassos, sorrisos e lágrimas. É uma grande história de erros e acertos, de escolhas pessoais e impessoais, histórias de vida. O basquete está ali, servindo de pano de fundo, mas passa desapercebido em tantas e tantas vezes nas quais "Once Brothers" faz o expectador esquecer que é uma história que tem a ver com uma bola laranja e cestas. É o tipo de história que te deixa pensando na vida por horas, por dias: como relações podem ser destruídas por causa do ponto geográfico onde um ou outro nasceu. E como tudo que pode ser dito pode acabar se perdendo no silêncio. Pelas palavras de Vlade Divac: "Construir uma amizade leva anos. Mas, para destruí-la, leva um segundo".

Em 1990, Drazen Petrovic e Vlade Divac levaram a equipe nacional iugoslava para o topo do basquete mundial, conquistando o título do Campeonato Mundial disputado naquele ano em Buenos Aires, na Argentina. E foi lá, após a final e a conquista do título, que a relação entre os dois mudaria para sempre. Ao fim daquele jogo, a final do Campeonato Mundial, com o título conquistado pela Iugoslávia, um fã com uma bandeira da Croácia entrou na quadra. Vlade Divac o afastou, tomando a bandeira de suas mãos e a jogando para fora de quadra. Divac fala no documentário que ele se sentiu obrigado a expulsar o fã porque a seleção nacional representava a nação inteira, ele queria uma única Iugoslávia, não queria se manifestar contra a Croácia. Talvez por ingenuidade, talvez por conveniência, o único que ele queria era continuar tendo para sempre a nação na qual cresceu, à qual conhecia e defendia como sendo seu país. Ele garante que teria retirado uma bandeira da Sérvia da mesma forma que tirou das mãos do torcedor e jogou para fora de quadra a bandeira da Croácia. O fato é que nesta época a Guerra Civil já estava em marcha, e as tropas do governo já atacavam cidades da Croácia e da Bósnia onde se levantavam vozes separatistas. Uma sangrenta luta que levou à condenação pelos tribunais internacionais, por crimes de guerra cometidos, ao então presidente iugoslavo, o sérvio Slobodan Milosevic. Neste contexto, o ato de Divac ao fim do jogo foi amplamente repercutido e rejeitado pela imprensa croata: como todo grande ato histórico, foi ampliado, transformado numa ação na qual Divac cuspiu na bandeira da Croácia. De lados opostos de uma guerra civil mortal, ali, naquele ato, rompia-se - silenciosamente, sem palavras - a relação entre os jogadores sérvios e croatas, que nunca mais atuariam juntos defendendo a mesma equipe. Enquanto Petrovic e Divac continuavam se enfrentando nas quadras de basquete da NBA, nenhuma palavra voltou a ser trocada entre os dois. Drazen Petrovic simplesmente se afastou e passou a ignorá-lo e a deixar de falar com Divac, que tinha dificuldade em entender a atitude, a qual, porém, não era isolada, pois Kukoc e Radja também passaram a não falar mais com ele, ainda que eles jamais tenham tido a mesma proximidade e amizade que Petrovic tinha com Divac.

O habilidoso Drazen Petrovic em seus tempos no Real Madrid

A separação da Iugoslávia acabou consumada, e a Croácia ganhou o direito de ter sua própria seleção, afinal tornara-se uma nação independente. Nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona, foi o time de Petrovic, Kukoc e Radja quem chegou à final para enfrentar o Dream Team dos EUA, com Magic Johnson, Michael Jordan e Larry Bird, o maior time de basquete de todos os tempos. A Croácia ficou com a Medalha de Prata, e Vlade Divac teve que se contentar em ver pela televisão, já que o que sobrou como Iugoslávia sofreu uma sanção em função da guerra, sendo excluída das Olimpíadas.

Na noite de 7 de junho de 1993, a seleção da Croácia havia enfrentado a Polônia. Drazen Petrovic fez questão de viajar dos EUA à Europa para representar seu país, ainda que numa partida que era certo que seu time não teria dificuldades para vencer. Após o jogo, ele não entrou no avião junto ao resto da equipe, decidiu voltar de carro junto à namorada. Naquela fatídica noite, Drazen Petrovic e a namorada morreram num acidente automobilístico na Alemanha. Ele dormia no carona; a namorada, ao volante, perdeu o controle do carro sob chuva e bateu num caminhão. Vlade Divac recebeu a notícia pela TV. Quis ir ao enterro do amigo, mas não pode, pois certamente não seria bem recebido. Um clima de comoção tomou a Croácia.

Pelas palavras de Divac: "Em minha mente, eu sempre pensei que a guerra acabaria um dia e Drazen e eu conversaríamos. Mas esse dia nunca chegou". Com o tempo, Divac volrou a falar com Dino e com Toni, os quais parecem também ter sentido que aquela história precisava ser contada em Once Brothers.

Vlade Divac no Sacramento Kings, onde teve a camisa aposentada

O documentário não é uma história do esporte, é muito maior. É uma história sobre dois esportistas e sobre a amizade, sobre as divergências de opinião, sobre as complexidades da vida. Para Divac, foi definitivamente um processo de cura. Ele diz no filme que era um fardo que ele carregava durante muitos anos. Once Brothers permitiu que ele fizesse algo que ele sempre quis fazer, forçou-o a falar com as pessoas que ele não falava havia muitos anos. Tornou-se um processo de cura para ele. Ele visitou Zagreb na gravação como uma forma de se reconectar com a Croácia e com o amigo morto. As imagens dele andando pelas ruas da capital croata mostram o quanto havia rancor no olhas das pessoas que, mais de duas décadas depois, mostravam a profundidade da ferida que ficou aberta. Um único croata o pára para falar com ele. Divac visitou a família de Drazen Petrovic para compartilhar a experiência dos dois e as conquistas juntos. Para fechar, ele, enfim, visitou o túmulo do amigo, sobre o qual deixou uma foto dos dois abraçados, com a camisa da Iugoslávia, comemorando uma vitória conjunta.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

As melhores seleções do basquete europeu no século XX

Queremos revisitar o passado e relembrar as grandes seleções que dominaram o basquete europeu, numa viagem nostálgica ao passado mais brilhante do basquete do Velho Continente.

1. A URSS de Belov: o fim da hegemonia dos EUA
(época de domínio: de 1967 a 1974)

A URSS foi a grande dominadora do basquete europeu de 1957 a 1971 ao ganhar nada menos do que oito Eurobaskets seguidos. Mas o time que podemos considerar o melhor de todos eles foi aquele liderado pelo mítico Sergei Belov, o primeiro jogador não norte-americano a ser eleito para o Hall da Fama de Indiana. Belov era um ala-armador de 1,90 metros que unia um grande físico a uma tremenda elegância em sua forma de jogar basquete. Foi um "homem a frente de seu tempo", um jogador em nada egoísta e que sabia aparecer no momento certo para decidir os jogos. Sua história com a seleção começou em 1967 com um duplo triunfo, já que ao Eurobasket se somou o triunfo no Mundial do Uruguai. Acabava de começar a "ditadura" da equipe de Belov e uma das maiores rivalidades do basquete europeu, a que teve com Kresimir Cosic, que também debutava com a Seleção da Iugoslávia neste mesmo ano.

Em 1968 se produziu a estreia olímpica de Belov, e veio com decepção… Após quatro finais consecutivas entre EUA e URSS (com vitórias sempre dos norte-americanos), a Iugoslávia de Cosic se impunha aos soviéticos por um ponto de vantagem nas semi-finais e relegava a Belov a medalha de bronze. Mas o jovem Belov se vingaria no ano seguinte, quando liderou à União Soviética (foi eleito MVP do campeonato) para voltar a levantar o título europeu após derrotar a Iugoslávia na final. Em 1970, no Campeonato Mundial disputado na Iugoslávia, voltaram-se a trocar posições, com a equipe anfitriã se impondo e deixando a URSS com o terceiro lugar, apesar de Belov ter voltado a ser escolhido MVP. No ano seguinte, no Eurobasket da Alemanha, Belov e Cosic voltaram a intercambiar sensações, o soviético se lançou ao título e o iugoslavo desta vez ficou como MVP.

Mas o momento definitivo na carreira de Belov foi vivido nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972. Belov levou seu time à final contra os Estados Unidos, que se apresentava tendo vencido todos os torneios olímpicos jogados até então, num saldo de 63 vitórias e 0 derrotas. Belov foi o pontuador máximo do jogo, com 20 pontos, mas foi outro Belov, Aleksander, seu irmão, quem teve a honra de anotar a cesta decisiva que deu o primeiro título olímpico à União Soviética. Com muita controvérsia e polêmica envolvida, os norte-americanos se negaram a receber sua medalha de prata, pois consideravam que a partida já havia acabado quando os soviéticos converteram sua cesta. Dava no mesmo, Belov já havia feito história e havia se convertido numa lenda.

No ano seguinte veio o primeiro grande aviso de que seu reinado estava ameaçado. No Eurobasket de 1973, a Iugoslávia rompia com a ditadura soviética de títulos, graças às aparições de Drazen Dalipagic e Dragan Kicanovic. Kresimir Cosic já não estava só. Apesar de tudo, Belov conseguiria o título que lhe faltava no ano seguinte, e em 1974 deixaria aos iugoslavos com o sabor do mel nos lábios e se proclamaria campeão mundial em Porto Rico, com média de 15,2 pontos por jogo. Logo sofreria com a explosão da Iugoslávia dos "Quatro Fantásticos", mas sempre mantendo um altíssimo nível. Foi medalha de prata nos Eurobaskets de 1975 e 1979, prata no Mundial de 1978, bronze nos Jogos Olímpicos de Montreal 1976 e Moscou 1980, e voltaria a saborear o gosto doce do triunfo no EuroBasket de 1979, quando já não lhe acompanhavam seus fiéis escudeiros Gennadi Volnov, Aleksandr Belov e Modestas Paulauskas (uma das lendas do Zalgiris Kaunas), se não o gigante Vladimir Tkachenko e o lituano Valdemaras Homicius.

Sua grande decepção foi o bronze colhido nos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Apesar de ser uma de suas maiores atuações a nível individual, quando obteve médias de 21 pontos por partida (incluindo os 29 que anotou diante da Espanha na disputa pelo bronze). A terceira colocação em casa, sem a presença dos EUA, que boicotaram o torneio, foi visto como um total fracasso e antecipou sua saída da seleção nacional, com sua única alegria naqueles jogos tendo sido a de levar a tocha olímpica no cerimonial.

Quando em 1991 a FIBA votou pelos 50 melhores jogadores de sua história, Belov foi o mais votado, a frente de Cosic, que foi o quarto, de Arvydas Sabonis, em terceiro, e Drazen Petrovic, em segundo lugar.

Sergei Belov

2. A Iugoslávia de Dalipagic, Cosic, Kicanovic e Delibasic: os Quatro Fantásticos
(época de domínio: de 1975 a 1981)

O croata Kresimir Cosic era a grande estrela do único time que fazia frente, na Europa, à União Soviética de Belov. Em 1970, seus 17,3 pontos por partida no Mundial daquele ano deram a sua seleção seu primeiro grande título. Mas, apesar de seus 2,11 metros e de ser o primeiro iugoslavo a triunfar numa universidade norte-americana, Cosic não conseguia conter à URSS de Belov. Mas em 1973, com a chegada à seleção dos sérvios Drazen Dalipagic e Dragan Kicanovic, a coisa iria mudar. Neste mesmo ano eles se impuseram no Eurobasket, celebrado na Espanha e, no ano seguinte, foram derrotados pela URSS na final do Mundial, apesar de que Kicanovic tenha sido eleito MVP do torneio. Mas quando, em 1975, uniram-se a eles o último "ás" do poker iugoslavo, o bósnio Mirza Delibasic, a Iugoslávia começou a exercer sua tirania no continente. Neste mesmo ano, eles repetiram o título europeu, com Cosic eleito MVP. Em 1976, nos Jogos Olímpicos de Montreal, voltaram a superar aos soviéticos nas semi-finais e perderam na final frente aos EUA. Neste campeonato, Cosic teve média de 11,2 pontos (meteu 20 à URSS na semifinal e 15 aos EUA na final), Dalipagic 17,8 (com 27 pontos na final contra os EUA), Kicanovic 16 e Delibasic 12. Os Quatro Fantásticos dividiam entre eles os pontos e os momentos de glória.

Em 1977 chegaria seu terceiro ouro consecutivo no Eurobasket, com Dalipagic como MVP do torneio e o armador Zoran Slavnic (o quinto Beatle?) acompanhando-o no melhor quinteto da competição. Seu domínio europeu se estenderia para todo o mundo com a vitória no Mundial de 1978, no qual venceram por um ponto (e na prorrogação) à URSS de Belov. Dalipagic foi de novo MVP do torneio e foi acompanhado por Cosic e Kicanovic no quinteto ideal (sendo os outros dois lugares no quinteto para outros dois mitos do basquete, o ucraniano Vladimir Tkachenko e o brasileiro Oscar Schmidt).

Seu domínio se veria posto em dúvida quando no Eurobasket de 1979 eles tiveram que se conformar com o bronze, vendo a Sergei Belov se proclamar campeão da Europa pela quarta vez. Mas em 1980 tiveram a mais doce das vinganças, quando se impuseram nos Jogos Olímpicos disputados na casa do eterno rival. Em Moscou 1980, a Iugoslávia dos Quatro Fantásticos se alçou ao título que lhes faltava, aproveitando à ausência, por boicote, dos EUA. Com Cosic já em seus últimos anos de carreira, foram os outros três do quarteto os que deram o passo adiante, Dalipagic com média de 24,4 pontos por jogo (com 18 na final contra a Itália), Kicanovic com 23,6 (com 22 na final) e Delibasic com 16,4 (com 20 diante dos italianos na última partida).

Mas talvez, acima do enorme êxito em Moscou, o pleno potencial desta seleção foi visto um ano e meio antes, quando, em abril de 1978, eles enfrentaram a uma Seleção dos Estados Unidos comandada por suas duas estrelas universitárias - Earvin ‘Magic’ Johnson e Larry Bird - além de outros seis jogadores que entraram neste mesmo ano na NBA. Na final, venceu aos EUA por 88 x 83, com o jogo terminando com 22 pontos de Dragan Kicanovic, 19 de Mirza Delibasic, 18 de Drazen Dalipagic e 16 do grande capitão Kresimir Cosic.

O final da primeira grande seleção iugoslava de basquete da história chegou com amargura em 1981, quando a seleção dos Bálcãs caiu com impactantes 84 x 67 na final do Eurobasket contra a renovada União Soviética de Tkachenko, Valters e Myshkin. Quando no ano seguinte juntou-se a eles um ainda quase adolescente Arvydas Sabonis, uma nova hegemonia ia começar no continente. O torneio representou o adeus do capitão Cosic, que não disputaria o Campeonato Mundial de 1982. Quando ainda voltou por uma última vez, em 1983, sua seleção estava sendo liderada por um garoto, croata como ele, de 18 anos, Drazen Petrovic. Mas esta é uma história para daqui a pouco.

Para compreender a importância desta equipe: Cosic é o jogador que mais vezes vestiu a camiseta da Iugoslávia, com 303 jogos internacionais, e Dalipagic foi o máximo pontuador da Iugoslávia na história, com 3.131 pontos pela seleção.

Drazen Dalipagic

3. A URSS de Sabonis: o Czar da Europa
(época de domínio: de 1982 a 1988)

Em 1981 a União Soviética surpreendeu ao vencer no Eurobasket à mítica Iugoslávia dos Quatro Fantásticos. No ano seguinte se celebrava o Campeonato Mundial na Colômbia e os soviéticos apareceriam com um jovenzinho que ainda não havia cumprido 18 anos, mas que dominaria o basquete europeu pelos próximos anos: Arvydas Sabonis. O lituano foi batizado por Bill Walton, uma lenda da NBA, como "um Larry Bird com 2,18 metros". O mítico pivô queria dizer que Sabonis tinha o arremesso de um ala e a visão de jogo de um armador dentro de um corpo atlético destinado a dominar as quadras de basquete em seu tempo. Sua atuação em 1982 foi boa, mas ainda não exercia a liderança em sua seleção (apesar da média de quase 10 pontos por jogo). Mas em 1983 ele já era claramente o jogador mais importante da seleção soviética que disputou o Eurobasket. Incrivelmente, neste ano de 1983 aconteceu um milagre, pela primeira vez desde 1955 nem a URSS nem a Iugoslávia conquistariam o título. A responsável por aquele milagre foi a Espanha de Corbalán (que foi eleito MVP daquele torneio), Epi e Fernando Martín. Apesar dos 24 pontos de Sabonis, os comandados de Antonio Díaz Miguel se impuseram na semi-final por 95 x 94. Ainda assim não levaram o título, tendo perdido a final para a Itália, de Dino Meneghin e Antonello Riva. O domínio de Sabonis se iniciava com um escorregão.

Em 1984, o boicote soviético aos Jogos Olímpicos de Los Angeles impediram que Sabonis enfrentasse a Patrick Ewing, o pivô mais dominante de sua geração na NBA. Em 1985 seu domínio no Eurobasket foi total, alçando-o ao prêmio de MVP e levando a URSS a ser campeã do torneio. Sobre a Itália, ele fez 16 pontos na semi-final e sobre a Tchecoslováquia, na final, marcou 31 pontos! No Campeonato Mundial de 1986, ele só confirmou sua superioridade sobre o resto das seleções europeias. Na final, enfrentou aos EUA, liderados por David Robinson. Apesar de perder por dois pontos, todos puderam comprovar a força do lituano quando ele se impôs sobre o "Almirante", tendo inclusive aplicado-lhe um toco estratosférico. Pela primeira vez, a NBA olhava ao Velho Continente pensando estar vendo uma jóia basquetebolística de valor incalculável. O Portland Trail Blazers o elegeria no Draft. Tudo indicava um longo reinado na Europa do gigante lituano, que tinha apenas 22 anos. Porém, uma grave lesão no tendão de Aquiles ameaçou sua carreira. Ele ficou mais de um ano e meio sem competir, tendo viajado a Portland para que os médicos dos Blazers o atendessem para tratar uma lesão que, a princípio, parecia intratável. Arvydas nunca esqueceria aquele gesto, e quando, muito tempo depois, rumou à NBA, foi fiel à franquia do Oregon.

Mas voltando a 1987, sua ausência no EuroBasket deste ano levou à surpreendente derrota da URSS na final para a Grécia, de Gallis e Giannakis. O treinador Alexander Gomelski viu seu cargo a perigo e no ano seguinte decidiu levar Sabonis, mesmo voltando após quase dois anos sem atuar, para os Jogos Olímpicos de Seul. Mesmo com um Sabonis com uma mobilidade e uma capacidade de saltar claramente mais reduzidas, a URSS conseguiu vingar a derrota no Mundial de 86 e vencer aos EUA de David Robinson, Danny Manning, Mitch Richmond e Dan Majerle na semi-final, e à Iugoslávia, de seu "inimigo íntimo", Drazen Petrovic, na final, na qual Sabonis terminou com 20 pontos e 15 rebotes, dominando completamente o jogo interior iugoslavo, formado por Vlade Divac e Dino Radja. Apesar da derrota, tanto Radja como Divac só tinham adjetivos para "Sabas". Radja disse nos EUA: "vocês não conhecem a Sabonis. Era o melhor pivô do mundo. Se houvesse chegado antes à NBA, teria sido 10 anos seguidos um All-Star". Divac, por sua vez, deu a seguinte resposta a um jornalista que lhe perguntou, também nos EUA, quem havia sido melhor, se ele ou Sabonis: "Não há comparação. Posso dizer sem medo de errar que ele foi melhor jogador do que O’Neal, Ewing e Olajuwon".

Mas para a União Soviética de Sabonis já restava muito pouco tempo de vida. Em 1989 eles disputaram seu último campeonato juntos. Havia chegado um novo ciclo político, com a URSS sendo dissolvida. Isto implicou num novo ciclo dominador no basquete europeu, emergindo a Iugoslávia de Petrovic. Em 1990, Sabonis e o resto dos jogadores lituanos (Marciulionis, Kurtinaitis e Homicius) decidiram não participar do Mundial. Sua seguinte aparição foi já defendendo a Lituânia nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Seus 23,9 pontos e 12,5 rebotes demonstram que, apesar da lesão, ele seguia sendo o melhor pivô europeu. Com a Lituânia, ele voltaria a repetir o bronze nas Olimpíadas de 1996 e a prata no Eurobasket de 1995.

A grande pergunta que se faz qualquer fã do basquete é: o que haveria acontecido se Sabonis não houvesse sofrido sua grave lesão? Bill Walton, o homem que levou o Portland ao título da NBA em 1977 tem uma resposta: "se Sabonis houvesse entrado na NBA em 1985, Lakers, Pistons e Bulls teriam hoje alguns anéis a menos".

Sabonis contra Bogues, no Mundial de 86

4. A Iugoslávia de Petrovic: o ‘Dream Team’ europeu
(época de domínio: de 1989 a 1992)

É impossível contar a história de Drazen Petrovic sem falar de sua rivalidade com Arvydas Sabonis. O ‘gênio de Sibenik’ nasceu no mesmo ano que o gigante lituano, mas, apesar de começar a jogar na Liga Iugoslava com apenas 15 anos, sua estreia na seleção foi aos 18 anos, um ano depois de Sabonis. Quando o fez, seu "inimigo íntimo" já era campeão mundial. Era o ano de 1983 e o jovem Drazen dividia o vestiário com três dos Quatro Fantásticos - Cosic, Dalipagic e Kicanovic -. Apesar de tudo, a seleção iugoslava fracassou totalmente, tendo que se conformar com um 7º lugar. O ambicioso croata via como toda a Europa se rendia a Sabonis e não podia suportar isto. Em 1984, teve a oportunidade de se destacar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, já que não estava presente a URSS, por seu boicote político. Mas uma inesperada derrota para a Espanha, de Corbalán, Epi e Fernando Martín, que no ano anterior já havia tido o sabor de derrotar à URSS de Sabonis, impediu a disputa de um primeiro duelo contra Michael Jordan.

Apesar de tudo, este bronze foi um pequeno consolo diante do que se aproximava nos dois anos seguintes para a seleção. Em 1985, a Iugoslávia voltou a decepcionar no Eurobasket, tendo que se conformar com uma triste 7ª colocação. Ainda assim, Drazen acompanhou a Sabonis no quinteto ideal do campeonato, junto a Valdis Valters, Detlef Schrempf e Fernando Martín. No ano seguinte, no Mundial, ele voltou a subir ao pódio, novamente em terceiro, mas teve que sofrer uma derrota contra Sabonis e sua URSS na semi-final por um ponto. Tudo isto apesar da média de mais de 25 pontos por jogo em ambos os campeonatos e de ter sido eleito MVP do Mundial de Espanha. Para alguém que tinha dominado a Europa a nível de clubes com seu Cibona de Zagreb, tornando-se campeão da Europa em 1985 e 1986 (ganhando na final de 1986 ao Zalgiris, de Sabonis), seus resultados com a seleção eram sua grande frustração. Uma história de seus tempos no Cibona explica perfeitamente seu caráter. Conta um ex-treinador que antes de um jogo contra o Zalgiris Kaunas, Drazen começou a gritar com seus companheiros, parando continuamente o treino, até que o treinador parou tudo e mandou todos os jogadores para casa. Quando, no dia seguinte, ele lhe preguntou o que havia acontecido, Petrovic respondeu que as partidas contra o Zalgiris eram especiais, já que não só queria ganhar, como também demonstrar que ele era melhor jogador do que Sabonis.

Em 1987, a Iugoslávia já se apresentava com a equipe que iria dominar o basquete europeu nos anos seguintes. Estavam Petrovic, Kukoc, Divac, Radja e Paspalj, e inclusive já com o jovem Aleksandar Djordjevic. Ainda assim os iugoslavos caíram nas semi-finais para a Grécia, de Gallis, e tiveram que se conformar, novamente, com o bronze. No ano seguinte, Petrovic sofreu aquela que, provavelmente, foi a derrota mais dolorosa de sua carreira. Nos Jogos Olímpicos de Seul, ele enfim chegou a uma final a nível de seleções para se encontrar com seu velho conhecido, Arvydas Sabonis, recém recuperado de sua lesão. Nos três meses anteriores, a Iugoslávia havia imposto quatro vitórias em cinco confrontos, incluída a vitória na fase preliminar daqueles Jogos. Mas a final voltou a ser dos soviéticos, e de nada serviram os 24 pontos de Drazen.

Outro pesadelo para Petrovic veio no fim de 1989, no Eurobasket que foi disputado em sua casa, em Zagreb. Desta vez Petrovic não cometeu nenhuma falha, com média de 30 pontos por partida e saindo com o prêmio de MVP. Ainda assim, a Grécia, de Gallis, impediu que ele tivesse o gosto de enfrentar a Sabonis na final. Só em 1990 que veio a vitória sobre a URSS numa final, no Campeonato Mundial daquele ano na Argentina, mas não foi frente a Sabonis que, igualmente ao resto dos jogadores lituanos, decidiu não jogar aquele campeonato com a União Soviética. Mas o mais relevante daquela vitória foi como se pode começar a ver os farelos em que se estava começando a converter a Iugoslávia, farelos que não demorariam a virar pó. A Sérvia e a Croácia estavam em guerra, processo que culminou na dissolução da Iugoslávia. Ao terminar a final, Petrovic, croata, e Divac, sérvio, se abraçaram, mas o bom momento só durou até a hora em que um fã se aproximou portando uma bandeira da Croácia, Divac recriminou seu gesto e o expulsou da quadra. A relação entre aqueles jogadores nunca voltaria a ser a mesma, como ficou bem documentado no magnífico documentário “Irmãos e Inimigos”.

No ano seguinte, em 1991, Petrovic renunciou à seleção e não jogou o Eurobasket, em parte para se preparar para a seguinte temporada, na NBA, mas também por causa de sua má relação com os jogadores sérvios da seleção. Foi o último grande campeonato da Iugoslávia unida, e Kukoc, Divac, Djordjevic e companheiros iriam se impor com facilidade e ser campeões. Aquela que, para muitos, foi a melhor seleção da história do basquete, voou pelos ares com a Guerra dos Bálcãs, impedindo a possibilidade de se ver o duelo entre o "Dream Team" contra o "Dream Team europeu". Ainda assim, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, Petrovic ficou com a medalha de prata, comandando sua Croácia, e metendo 24 pontos ao time de Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird e companhia na final, e com Sabonis com o bronze, com a seleção da Lituânia. No fundo foi algo muito significativo, pois estes dois jogadores haviam dominado o basquete europeu nos dez anos anteriores. Mas claro que, com um sorriso no canto do rosto, Petrovic pensava "mas comigo acima".

E isto foi tudo, porque no ano seguinte, enquanto se preparava para um novo compromisso com a Croácia por mais um Eurobasket (e amargurado porque não havia sido escolhido para o All-Star Game da NBA), Drazen Petrovic perdia a vida num acidente de carro na Alemanha, num momento no qual triunfava nos Estados Unidos, com média superior a 20 pontos por jogo na NBA, pelo New Jersey Nets. O basquete europeu ficou órfão e perdeu sua maior estrela, em pleno apogeu, aos 28 anos, a mesma idade que tinha Michael Jordan quando ganhou seu primeiro título na NBA (só para se ter uma ideia do que "o Mozart do basquete" ainda podia ter conquistado).

Vlade Divac e Drazen Petrovic

Fonte: DeporAdictos, por Sérgio Ariza Lázaro, em 2 de setembro de 2015
http://deporadictos.com/las-mejores-selecciones-de-la-historia-del-baloncesto-europeo-i/
http://deporadictos.com/las-mejores-selecciones-de-la-historia-del-baloncesto-europeo-ii/


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

E se a Iugoslávia não tivesse se dividido?


No início dos Anos 1990, após o fim do regime comunista, a guerra civil dissolveu a ex-república da Iugoslávia em seis países: Sérvia, Croácia, Bósnia, Eslovênia, Macedônia e Montenegro. A dissolução foi gradual. Em 1991, Croácia, Eslovênia e Macedônia proclamaram suas respectivas independências da Iugoslávia. Em 1992 foi a vez da Bósnia fazer o mesmo. Daí em diante o que seguiu sendo chamado de Iugoslávia era composto apenas por Sérvia e Montenegro. Em 2006 houve a separação, e a partir de então Sérvia e Montenegro se dividiram em dois países.

O basquete da Iugoslávia emergiu como potência a partir, sobretudo, da conquista do título de Campeã Mundial de 1970. Na sequência, sagrou-se Tri-campeã Européia em 1973-1975-1977. Em sua história há duas formações históricas, dois quintetos que podem ser considerados os dos maiores da história do basquetebol da antiga Iugoslávia. Um foi o time formado por Mirza Delibasic, Dragan Kicanovic, Zeljko Jerkov, Drazen Dalipagic e Kresimir Cosic, equipe Campeã Européia 1977, Campeã Mundial 1978 e Campeã Olímpica 1980. O outro time histórico foi o formado por Drazen Petrovic, Zarko Paspajl, Toni Kukoc, Dino Radja e Vlade Divac, equipe Vice-campeã Olímpica 1988, Campeã Européia 1989 e Campeã Mundial 1990.

O fim da Iugoslávia fragmentou uma enorme tradição com a bola laranja. E a grande pergunta é: E se a Iugoslávia não tivesse se dividido? Em 2017, quando pela primeira vez duas ex-repúblicas que faziam parte da antiga Iugoslávia decidiram um título, valendo o Eurobasket 2017, esta pergunta mais do que nunca fez sentido. Teria uma Seleção da Iugoslávia em 2017 sido tão boa quanto aquelas de 1977-1980 e de 1988-1990? Melhores? Do mesmo nível? Nem tão boas quanto? Impossível haver consenso pleno...

Depois do fim da Iugoslávia, a história de cada uma das ex-repúblicas no basquete masculino mundial começa com a campanha da Croácia nas Olimpíadas de 1992, quando o time de Drazen Petrovic, Toni Kukoc e Dino Radja terminou com o 2º lugar e a Medalha de Prata, perdendo apenas para o Dream Team dos Estados Unidos, com Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird e companhia.

O que restou da Iugoslávia, com os jogadores sérvios, estava suspenso das competições internacionais de basquete. No Eurobasket 1993, em 3º ficou a Croácia, em 8º a Bósnia, e em 14º a Eslovênia. No Mundial 1994, Petrovic já havia falecido num acidente automobilístico, e o time de Kukoc e Radja deu o 3º lugar à Croácia.

Após o fim da suspensão, no Eurobasket 1995, a Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) e Divac, Paspajl, Predrag Danilovic, Aleksandar Djordjevic e Zoran Savic foi a campeã, com o 3º lugar para a Croácia de Kukoc e Radja, e 12º lugar da Eslovênia. Seria um baita time da "Iugoslávia Unida", mas basicamente ainda estamos falando da geração vencedora de 1988 a 1990. A Croácia caiu na semi-final para a Lituânia, impedindo uma primeira final entre duas repúblicas iugoslavas.

Nas Olimpíadas 1996, a Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) jogando com Divac, Paspajl, Bodiroga, Djordjevic, e agora também com Zelijko Rebraca foi 2º lugar (Medalha de Prata), enquanto o 7º lugar ficou com a Croácia, de Nikola Vujcic. No Eurobasket 1997 o título continental foi da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro), com o 11º sendo da Croácia, o 14º sendo da Eslovênia, e o 15º sendo da Bósnia. Este timaço sérvio dominou o cenário internacional até 2002. No Mundial 1998 foi 2º lugar (os demais não participaram), no Eurobasket 1999 foi 3º lugar (10º lugar da Eslovênia, 11º da Croácia, 13º da Macedônia, e 15º Bósnia - todas 5 ex-repúblicas disputaram, já que Sérvia e Montenegro ainda estavam unidas). Nas Olimpíadas 2000 a Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) foi 6º lugar - os demais não se classificaram. No Eurobasket 2001, Sérvia e Montenegro, que também já contava com Predrag "Peja" Stojakovic e Dejan Tomasevic, ficou em 1º lugar, sendo a campeã, e com um 7º lugar da Croácia, um 13º da Bósnia e um 15º da Eslovênia. No Mundial 2002 a despedida desta fantástica geração, com a Iugoslávia, de Sérvia e Montenegro, sendo novamente a campeã.

Depois deste grande time da Sérvia, as seleções que no passado haviam formado a Iugoslávia perderam força na disputa pelos grandes títulos do basquete masculino internacional. No Eurobasket 2003, 6º lugar da Sérvia, 10º lugar da Eslovênia, 11º lugar da Croácia, e 15º lugar da Bósnia. Nas Olimpíadas 2004, o único participante foi o 11º lugar, que ficou com a Sérvia. No Eurobasket 2005, dois países nas quartas de final: 6º lugar da Eslovênia, 7º lugar da Croácia, 9º lugar da Sérvia, e 13º lugar da Bósnia. No Mundial 2006, Sérvia e Eslovênia caíram nas oitavas de final. No Eurobasket 2007, ficaram em 6º lugar a Croácia, em 7º a Eslovênia e em 14º a Sérvia, voltando a ter dois representantes nas quartas. Nas Olimpíadas 2008, a Croácia ficou com um 6º lugar.

A partir de 2009 o basquete das seleções que um dia estiveram unidas jogando junto como Iugoslávia se recuperou. Na principal competição continental, duas seleções se enfrentaram na semi-final, e num jogaço, definido na prorrogação, a Sérvia venceu à Eslovênia por 96 x 92. No Eurobasket 2009, em 2º lugar ficou a Sérvia, em 4º lugar ficou a Eslovênia, em 6º lugar ficou a Croácia, e em 9º lugar ficou a Macedônia. No Mundial 2010, a Sérvia ficou em 4º, Eslovênia ficou em 8º e a Croácia terminou em 14º.

No Eurobasket 2011, pela primeira vez na história as seis ex-repúblicas que outrora foram a Iugoslávia disputaram o mesmo torneio. Em 4º lugar ficou a surpreendente Macedônia, onde se destacavam o pivô Pero Antic e Bo McCalebb, norte-americano naturalizado. Entre as demais, em 7º ficou a Eslovênia, em 8º a Sérvia, em 13º a Croácia, em 19º a Bósnia e em 21º ficou Montenegro. Depois de estarem juntas, porém, nas Olimpíadas 2012, pela primeira vez na história, nenhum país da ex-Iugoslávia esteve presente numa das principais competições do basquete masculino no planeta.

No Eurobasket 2013, as seis voltaram a disputar uma competição juntas, na qual o 4º lugar foi da Croácia, o 5º lugar foi da Eslovênia, o 7º lugar foi da Sérvia (três ex-iugoslavas entre as oito melhores da Europa), o 13º lugar foi da Bósnia, o 17º lugar foi de Montenegro, e o 21º lugar foi da Macedônia. Depois, no Mundial 2014, a Sérvia foi vice-campeã, ficando com o 2º lugar, em 7º ficou a Eslovênia e em 10º ficou a Croácia. No Eurobasket 2015, a 4ª colocação ficou com a Sérvia, a 9ª colocação ficou com a Croácia, a 12ª colocação foi da Eslovênia, a 19ª colocação foi da Macedônia, e a 23ª colocação foi da Bósnia. Nas Olimpíadas 2016, o 2º lugar foi da Sérvia, de Milos Teodosic, Nikola Jokic e Miroslav Raduljica, e o 5º lugar foi da Croácia, de Bojan Bogdanovic e Dario Saric.

Se no Eurobasket 2009 o duelo entre Sérvia e Eslovênia na semi-final havia sido o confronto histórico em fase mais avançada de uma grande competição internacional, as duas mesmas seleções superaram esta marca quando se enfrentaram na final do Eurobasket 2017. Desta vez quem levou a melhor foi a Eslovênia, que venceu à Sérvia por 93 x 85. Na colocação final do torneio, a Eslovênia ficou em 1º, a Sérvia ficou em 2º, a Croácia em 10º e Montenegro em 13º.

E é exatamente diante de uma final de ex-repúblicas iugoslavas que vai ser feito o exercício "E se a Iugoslávia não tivesse se dividido?". Juntando os principais nomes das quatro seleções ex-Iugoslávia que disputaram o torneio, tem-se um time muito provavelmente ainda mais forte do que as maiores seleções da história da Iugoslávia. Juntando os dois maiores nomes da Eslovênia - Goran Dragic e Luka Doncic - a grandes nomes da Sérvia - Milos Teodosic, Bogdan Bogdanovic e Boban Marjanovic - à estrela da Croácia, Bojan Bogdanovic, e às estrelas de Montenegro Bojan Dubljevic e Nikola Vucevic. Um elenco espetacular que ainda teria espaço para Pero Antic, da Macedônia. Que ainda teria nomes como os croatas Dario Saric e Dragan Bender, e poderia até ter o pivô, também croata, Ante Tomic, que não esteve no Eurobasket 2017, mas que alguns anos antes chegou a ser considerado um dos melhores "cinco" do basquete europeu.

Um timaço, cujo quinteto original teria Goran Dragic, Luka Doncic, Bogdan Bogdanovic, Nikola Vucevic e Boban Marjanovic. E com um banco de luxo, com Milos Teodosic, Bojan Bogdanovic, Dario Saric, Bojan Dubljevic e Dragan Bender. E que poderia ser fechado com Pero Antic e Ante Tomic.



Carreiras:

Goran Dragic
2003-04 Drustvo Ilirija (Eslovênia), 2004-06 KD Slovan (Eslovênia), 2006-07 Murcia (Espanha), 2007-08 Olimpia Ljubljana (Eslovênia), 2008-2011 Phoenix Suns (NBA), 2011 Saski Baskonia (Espanha), 2011-12 Houston Rockets (NBA), 2012-2015 Phoenix Suns (NBA), e 2015-2017 Miami Heat (NBA)
* MVP do Eurobasket 2017 e 2x Quinteto Ideal do Eurobasket em 2013 e 2017

Luka Doncic
2015-2017 Real Madrid (Espanha)
* Quinteto Ideal do Eurobasket 2017

Milos Teodosic
2004-05 Crvena Zvezda (Sérvia), 2005-06 Borac Cacak (Sérvia), 2006-07 Crvena Zvezda (Sérvia), 2007-2011 Olympiakos (Grécia), 2011-2017 CSKA Moscou (Rússia), e 2017 Los Angeles Clippers (NBA)
* MVP da Euroleague 2010, 2x Quinteto Ideal dos Mundiais 2010 e 2014, e 3x no Quinteto Ideal da Euroliga (2010, 2015 e 2016)

Bogdan Bogdanovic
2010-2014 Partizan (Sérvia), 2014-2017 Fenerbahce (Turquia), e 2017 Sacramento Kings (NBA)
* Quinteto Ideal do Eurobasket 2017

Bojan Bogdanovic
2004-06 Zrinjski Mostar (Bósnia), 2006-08 Real Madrid B (Espanha), 2008-09 Murcia (Espanha), 2009-2011 Cibona Zagreb (Croácia), 2011-2014 Fenerbahce (Turquia), 2014-2017 Brooklyn Nets (NBA), 2017 Washington Wizards (NBA), e 2017 Indiana Pacers (NBA)

Dario Saric
2009-10 Zrinjevac (Croácia), 2010-11 Dubrava (Croácia), 2011-12 Zagreb (Croácia), 2012-2014 Cibona Zagreb (Croácia), 2014-2016 Anadolu Efes (Turquia), e 2016-17 Philadelphia 76ers (NBA) 

Bojan Dubljevic
2009-10 Lovcen (Montenegro), 2010-12 Buducnost (Montenegro), e 2012-2017 Valencia (Espanha)
* MVP das Finais da Liga Espanhola 2016-17

Dragan Bender
2012-13 KK Split (Croácia), 2013-14 Kastela (Croácia), 2014-15 Maccabi Tel Aviv (Israel), 2015-16 Ironi Ramat (Israel), e 2016-17 Pheonix Suns (NBA)

Nikola Vucevic
2011 Buducnost Podgorica (Montenegro), 2011-12 Philadelphia 76ers (NBA), e 2012-2017 Orlando Magic (NBA)

Boban Marjanovic
2006-07 Radnicki Kragujevac (Sérvia), 2007-10 Vrsac (Sérvia), 2010-11 CSKA Moscou (Rússia), 2011 Zalgiris Kaunas (Lituânia), 2011-12 Nizhny Novgorod (Rússia), 2012 Radnicki Kragujevac (Sérvia), 2012-13 Mega Vizura (Sérvia), 2013-2015 Estrela Vermelha (Sérvia), 2015-16 San Antonio Spurs (NBA), e 2016-17 Detroit Pistons (NBA)
* Quinteto Ideal da Euroliga 2015

Pero Antic
1999-2001 Rabotnicki (Macedônia), 2001-2005 AEK Atenas (Grécia), 2005-2007 Estrela Vermelha (Sérvia), 2007-08 Lukoil Academic (Bulgária), 2008-09 Lokomotiv Kuban (Rússia), 2009-10 Lukoil Academic (Bulgária), 2010-11 Spartak St. Petersburgo (Rússia), 2011-2013 Olimpiakos (Grécia), 2013-2015 Atlanta Hawks (NBA), e 2015-2017 Fenerbahce (Turquia) 

Ante Tomic
2004-2009 Zagreb (Croácia), 2009-2012 Real Madrid (Espanha), e 2012-2017 Barcelona (Espanha)





sábado, 18 de agosto de 2012

Iugoslávia: Tradição do Basquete nos Bálcãs

Yugoslavia: The Balkans Basketball
Iugoslavia: La tradición en baloncesto de los Balcanes


A Região dos Bálcãs, na Europa, também conhecida como Península Balcânica, está no sudeste do continente, reunindo as repúblicas que formaram no passado a Iugoslávia (Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia, Croácia e Eslovênia), além de Albânia, Romênia, Bulgária, Grécia e a porção européia da Turquia. O termo deriva da palavra turca para montanha, fazendo referência à cordilheira dos Bálcãs, que se estende do leste da Sérvia até o Mar Negro.


Do tamanho destas montanhas é a tradição no esporte que sempre foi associado à altura: o basquete. Um país em especial construiu uma história gloriosa no basquetebol, tradição perpetuada após seu fim nas repúblicas independentes que a formavam: a Iugoslávia.


A história da Iugoslávia foi se formando na complexa rede cultural e política dos Bálcãs. O embrião do que veio a ser a Iugoslávia se formou num reino formado em 1918 (Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos). Em 1929 estas terras passaram a se chamar Reino da Iugoslávia. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, houve a ocupação pelos países do Eixo, passando na divisão política do Pós-Guerra a se tornar um Estado comunista: República Popular Federal da Iugoslávia, de 1946 a 1963, e República Socialista Federativa da Iugoslávia, a partir de abril de 63.

A Iugoslávia existiu como Estado até a dissolução do comunismo. Em 1991, Eslovênia, Croácia, Macedônia e Bósnia deixaram a federação e ficaram independentes. As repúblicas remanescentes, Sérvia e Montenegro, refundaram a República Federal da Iugoslávia, que existiu até 2003, quando o nome Iugoslávia foi oficialmente abolido e o estado transformado numa comunidade pouco sólida chamada Sérvia e Montenegro. Em 2006, por fim, um referendo popular votou a dissolução e criação dos estados independentes de Montenegro e da Sérvia.

O esporte pagou o preço de tanta confusão política, e um dos maiores times de basquete de todos os tempos acabou dividido em 1991. Mas a grande tradição iugoslava vem de bem antes disto. A Iugoslávia começa a emergir como potência no basquete nos anos de 1960.

A tradição começa em 1963, com o Vice-campeonato Mundial. Nas Olimpíadas de 1964, uma tímida 7ª colocação, daí para frente uma seqüência impressionante de grandes resultados, começando por um novo Vice-campeonato no Mundial de 1967. Em Campeonatos Mundiais, foram 8 edições consecutivas entre os 3 primeiros colocados. Vice em 63 e 67, campeã em 70, vice em 74, campeã em 78, 3º lugar nos Mundiais de 82 e 86 e mais uma vez campeã em 90. Em Jogos Olímpicos, nas seis edições entre 1968 e 1988, só não ficou uma vez entre os três medalhistas, com um 5º lugar nas Olimpíadas de 1972. Juntando Mundiais e Olimpíadas entre 1967 e 1990, a Iugoslávia foi 4x 1º lugar, 5x 2º lugar, 3x 3º lugar e 1x 5º lugar. Em 13 torneios internacionais, ficou 12 vezes entre os três primeiros colocados. Um desempenho fantástico!
Fora que ainda foi Tri-Campeã Européia em 1973-1975-1977, e Bi-Campeã em 1989-1991.

Os dois primeiros grandes jogadores a colocar a Iugoslávia em outro patamar no cenário internacional foram o armador Ivo Daneu, que defendeu a sua seleção de 1957 a 1970, e o ala-pivô Radivoj Korac, que defendeu a seleção de 1959 a 1969, ano no qual morreu prematuramente num acidente de carro.


Ivo Daneu
Carreira: 1949-1956 Branik Maribor; e 1956-1970 Unión Olimpia, de Ljubljana.

Radivoj "Zucko" Korac
Carreira: 1955-1969 OKK Belgrado.

No final doa anos 60 e começo dos 70, a seleção da Iugoslávia ficou ainda mais forte, com a ascensão de novos nomes que marcaram época na história basquetebolística do país. Um destes nomes foi Vinko Jelovac, que defendeu a camisa iugoslava de 1969 a 1977, tendo se destacado principalmente no Mundial de 1974, quando foi eleito o melhor jogador do torneio. Mas o principal nome a surgir nesta nova leva de craques foi o pivô Kresimir Cosic, que defendeu a sua seleção de 1967 a 1981. Em 1973, no time que sagrou-se campeão europeu, foram revelados outros dois monstros do basquete iugoslavo, que naquele time ainda eram reservas, mas que não demoraram muito para se tornarem titulares absolutos: Drazen Dalipagic e Dragan Kicanovic. Ia assim se formando o timaço que dominou o basquete mundial entre 1975 e 1980.

Outra peça que completaria a majestosa engrenagem chegou em 1975 à seleção: Mirza Delibasic. Destes três gênios, que juntos com Cosic dominaram o cenário europeu, Delibasic ficaria na equipe até 82 (teve que se aposentar prematuramente após um pequeno acidente vascular cerebral), Kicanovic até 83 e Dalipagic até 84. O timaço iugoslavo do período 76 a 80 teve ainda nomes como Zoran Slavnic, Zeljko Jerkov e Ratko Radovanovic. O quinteto que marcou esta época jogava com Delibasic, Kicanovic, Jerkov, Dalipagic e Cosic. Treinados primeiro por Moiko Novosel e depois por Ranko Zeravica.


Kresimir Cosic
Carreira: 1965-1970 KK Zadar; 1970-1973 Brigham Young University Cougars (EUA); 1973-1976 KK Zadar; 1976-1978 Unión Olimpia, de Ljubljana; 1978-1980 Virtus Bologna (Itália); e 1980-83 KK Cibona Zagreb

Dragan Kicanovic
Carreira: 1973-1981 Partizan Belgrado; 1981-1983 Victoria Libertas Pesaro (Itália); e 1983-1984 Racing Paris (França)

Drazen "Praja" Dalipagic
Carreira: 1970-1980 Partizan Belgrado; 1980-1981 Reyer Venezia (Itália); 1981-1982 Partizan Belgrado; 1982-1983 Real Madrid (Espanha); 1983-1985 Udine (Itália); 1985-1988 Reyer Venezia (Itália); 1988-1990 Scaligera Verona (Itália); e 1990-1991 Estrela Vermelha (Sérvia)

Mirza "Kindje" Delibasic
Carreira: 1968-1972 Sloboda Tuzla; 1972-1980 Bosnia Sarajevo; e 1980-1982 Real Madrid (Espanha). Aposentadoria prematura em 82 após uma hemorragia cerebral.

Esta histórica equipe da Iugoslávia fez história ao superar sucessivamente a União Soviética, que era então 8 vezes seguida campeã européia entre 1957 e 1971. No Campeonato Europeu de Seleções (Eurobasket) a Iugoslávia foi Tri-campeã em 1973, 1975 e 1977. Em 73, na Espanha, os espanhóis derrubaram os soviéticos na semi-final; a Iugoslávia superou a Tchecoslováquia na semi e a Espanha na final e foi a campeã. Em 75 e 77, duas vitórias sobre a URSS na final: em 75 vitória por 90 x 84 em Belgrado, e em 77, jogando na Bélgica, vitória por 74 x 61. Os soviéticos se vingaram em 79, na Itália, quando venceram por 96 x 77 no Hexagonal Final, e em 81, na Tchecoslováquia, quando derrotaram os iugoslavos na final por 84 x 76. Mas a Iugoslávia os superou em Olimpíadas e Mundiais nesse período. Nos Jogos Olímpicos de 76, em Montreal, no Canadá, a Iugoslávia venceu a semi-final por 89 x 84 e eliminou a seleção soviética. No Mundial de 78, nas Filipinas, Iugoslávia 82 x 81 URSS na finalíssima. E nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, dentro da União Soviética, a Iugoslávia venceu a URSS na semi-final por 101 x 91 e conquistou o título sobre a Itália, na final. Entre 1975 e 1980, foram seis partidas decisivas entre iugoslavos e soviéticos, com a Iugoslávia vencendo 5 e perdendo 1.

Depois disto, Estados Unidos e União Soviética retomaram a bipolaridade da Guerra Fria no basquete. Mas ainda durante os anos de 1980 surgiu uma nova geração na Iugoslávia que voltou a marcar história.


E, num mundo novo, em que o Comunismo ia enfraquecendo até colapsar e o Capitalismo dando sinais cada vez maiores de força, os principais nomes desta nova geração iugoslava brilharam também na NBA; um trio fenomenal, com o armador Drazen Petrovic e a dupla de pivôs Toni Kukoc e Vlade Divac. Este time foi Medalha de Prata nas Olimpíadas de 1988, Campeão Mundial em 1990 e Bi-campeão Europeu em 1989 e 1991.


Drazen Petrovic
Carreira: 1979–1983 KK Sibenka; 1984–1988 KK Cibona Zagreb; 1988–1989 Real Madrid (Espanha); 1989–1991 Portland Trail Blazers (NBA); e 1991–1993 New Jersey Nets (NBA).
Petrovic morreu em 1993 num acidente automobilístico e sua camisa no New Jersey Nets, a de número 3, foi aposentada pela franquia.

Toni Kukoc
Carreira: 1985–1991 Yugoplastika; 1991–1993 Benetton Treviso (Itália); 1993–2000 Chicago Bulls (NBA); 2000-2001 Philadelphia 76ers (NBA); 2001–2002 Atlanta Hawks (NBA); e 2002–2006 Milwaukee Bucks (NBA).

Vlade Divac
Carreira: 1983–1986 KK Sloga; 1986–1989 Partizan Belgrado; 1989–1996 Los Angeles Lakers (NBA); 1996–1998 Charlotte Hornets (NBA); 1999 Estrela Vermelha (Sérvia); 1999–2004 Sacramento Kings (NBA); e 2004–2005 Los Angeles Lakers (NBA).
Outro iugoslavo que teve sua camisa aposentada por uma franquia da NBA, o Sacramento Kings aposentou seu número, a camisa 21.

Em 1991 este grande time de basquete foi separado entre as seleções da Croácia e da Sérvia (que conservou o nome Iugoslávia por mais de uma década ainda). O que eles ainda teriam sido capazes de fazer juntos se não fosse essa ruptura? Impossível responder. Em história não existe "se". O fato é que se separaram, e que nos Jogos Olímpicos de 1992, quando os EUA levaram o Dream Team, foi o time da Croácia o que impôs maior resistência a eles, ainda que tenha perdido seus jogos por 30 pontos de diferença.

Divac, do Lakers, contra Petrovic, do Portland

A política que destrói é a mesma que constrói. Dos principais basquetebolistas iugoslavos, Kresimir Cosic, Drazen Petrovic, Dino Radja e Toni Kukoc nasceram na Croácia; Radivoj Korac, Dragan Kicanovic e Vlade Divac nasceram na Sérvia; Ivo Daneu e Vinko Jelovac nasceram na Eslovênia; Mirza Delibasic e Drazen Dalipagic nasceram na Bósnia. Se o Reino da Iugoslávia não houvesse um dia existido, jamais teriam sido vistos os grandes times de basquetes formados por estes geniais jogadores.

Depois da dissolução da antiga Iugoslávia, ainda houve grandes times e craques. Primeiro brilhou a Croácia - com Petrovic, Radja e Kukoc - medalha de prata nas Olimpíadas de 92. Após este grande time croata, que conservava boa parte da força daquela Iugoslávia dissolvida, quem demonstrou força foi outra parte da república partida: a "nova" Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) foi Prata nas Olimpíadas de 1996, Bi-Campeã Mundial em 1998 e 2002 e Campeã Européia de 1995, 1997 e 2001. No time de 95 a 98 as estrelas eram Dejan Bodiroga, Aleksandar Djordjevic e Zeljko Rebraca. No time de 2000 a 2002, destacava-se também Predrag "Peja" Stojakovic. No Mundial de 98 destacou-se também Gregor Fucka, esloveno naturalizado italiano. A tradição dos Bálcãs seguiu forte com o time da Sérvia, vice-campeã européia em 2009, torneio no qual a Eslovênia terminou em 4º lugar, mesma colocação da surpreendente Macedônia no Eurobasket seguinte, em 2011. O destaque na equipe sérvia foi Milos Teodosic, que fez parte do Quinteto Ideal do Mundial de 2010.



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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ranking da FIBA 2005-2012

FIBA World Ranking - Men
Ranking FIBA del Baloncesto Masculino


Após as Olimpíadas de Londres 2012, a FIBA atualizou seu Ranking do Basquete Masculino Mundial, que reflete os resultados de dois ciclos olímpicos. Este último ranking, portanto, engloba o período de 2005 a 2012. Eis abaixo o resultado:

Arte do site Basketeria

Ranking Histórico do Basquete de Seleções

A estrutura do ranking é bastante simples, é a ordenação por períodos escolhidos da quantidade de títulos de Campeonato Mundial e de Olimpíadas, seguido pela quantidade de vice-campeonatos, de presenças em semi-final e em quartas de final, como se fossem quatro conjuntos de medalhas num ranking olímpico.

O primeiro período escolhido foi a década entre 1948 e 1958, começa no primeiro torneio de basquete em Jogos Olímpicos após a Segunda Guerra Mundial (1948) e inclui as duas primeiras edições do Campeonato Mundial. Em cinco torneios, os EUA foram 4 vezes campeões: Olimpíadas de 1948, 1952 e 1956 e Mundial de 1954. Só não venceram o Mundial de 1950, cujo título foi da Argentina, que por isso aparece na segunda posição, seguida pela União Soviética. França e Brasil dividiram o posto de 4ª força mundial nesse período.


O segundo período escolhido foi a década entre 1959 e 1969: os Estados Unidos mantêm o primeiro posto no ranking do basquete mundial, pois venceu as Olimpíadas de 1960, 1964 e 1968. É seguido desta vez pelo Brasil, bi-campeão do Campeonato Mundial em 1959 e 1963 e duas vezes medalha de bronze nas Olimpíadas, em 1960 e 1964. A URSS, com o título do Mundial de 1967, está em terceiro. A Iugoslávia aparece pela primeira vez no ranking e nele se manterá nas três primeiras posições até a dissolução do país em 6 repúblicas independentes, nos anos de 1990. Porto Rico e Itália também começaram a mostrar suas forças e a construir tradição no basquetebol.


O terceiro período escolhido vai do Mundial de 1970 até as Olimpíadas de 1980. Os EUA, por terem perdido o título olímpico de 1972 para a URSS e por não terem ido às Olimpíadas de Moscou (1980), perderam a primeira colocação do ranking, que ficou com a Iugoslávia e seu fantástico time do período 1976-1980, mas também, antes, campeã do Mundial de 1970. A URSS ficou em 2º e os EUA em 3º. Itália e Brasil vieram a seguir. Estes cinco países que, claramente, foram os com mais força no basquete mundial nos anos 1970 e 1980.


O quarto período escolhido foi a década entre 1981 e 1991, o último período sem a participação dos atletas profissionais da NBA no basquete internacional. A URSS ficou com a primeira posição do ranking, seguida pelos EUA. O fator de desequilíbrio foi a semi-final das Olimpíadas de 1988, na qual os soviéticos venceram os norte-americanos. A Iugoslávia aparece em terceiro, mesmo com o histórico time de 1988 a 1990. Este tripé - EUA, URSS e Iugoslávia - foi o trio de dominadores do basquete mundial no século XX. Espanha e Brasil apareceram a seguir neste quarto período. 


Aqui, a esta altura da história, será necessário abrir um parêntesis, pois houve então as dissoluções da União Soviética e da Iugoslávia em diversos países. Com força no basquete, a União Soviética se fragmentou entre Rússia, Lituânia e Letônia, e já na Iugoslávia, todas as repúblicas da fragmentação tiveram alguma força no basquete: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Bósnia e Montenegro.

Assim é relevante mostrar como foi o desenho do ranking acumulado entre 1948 e 1991, dando enfoque aos 11 países que tiveram melhor desempenho no basquete masculino mundial no acúmulo destas décadas:


O quinto período escolhido foi de 1992 a 2001, do Dream Team, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, até o ano que precedeu a primeira derrota dos EUA com jogadores da NBA. A hegemonia foi absoluta dos EUA, com os títulos nas Olimpíadas de 1992, 1996 e 2000 e no Mundial de 1994. Perderam apenas o Mundial de 1998, quando jogaram novamente com um time universitário. Este campeonato foi vencido pela Iugoslávia, que já não era mais aquela Iugoslávia, mas a seleção de Sérvia e Montenegro. A Croácia, que fazia parte da antiga Iugoslávia e se tornou independente, aparece no ranking na 4ª posição. A União Soviética se dissolveu em diversas repúblicas, as duas de mais tradição no basquete aparecem no ranking: Rússia em 3º lugar e Lituânia em 6º lugar. Depois do tripé que dominou o basquete mundial no século XX, agora dissolvido em diversos países, aparecem no ranking a França, a Austrália e a Grécia. Brasil e Itália, que dividiram a 9ª colocação do ranking, e Espanha, em 14º lugar, enfraqueceram-se um pouco.


O sexto período é a década entre 2002 e 2012. Os EUA mantiveram-se na primeira posição, apesar do título da Iugoslávia no Mundial de 2002, da Argentina nas Olimpíadas de 2004 e da Espanha no Mundial de 2006. Estes três países aparecem em 2º, 3º e 4º lugares. Em seguida aparecem Grécia, Turquia, Itália e Lituânia, mostrando uma conjuntura muito mais multipolarizada no basquete mundial. A Rússia ficou em 9º lugar neste período e Brasil e França dividiram o 12º lugar, atrás ainda de Alemanha e Nova Zelândia.


No período de 2013 a 2024, o que fica mais evidente é o aumento expressivo da quantidade de países que conseguiram entrar no Top 8 seja do Mundial ou da Olimpíada. O basquete ficou mais global e mais competitivo. Ainda assim, mais uma vez os Estados Unidos continuaram sendo absolutamente dominantes na modalidade.


Assim como foi feito acima, acumulando o período pós-Segunda Guerra de 1948 a 1991, até as dissoluções da União Soviética e da Iugoslávia, abaixo segue o acumulado a partir de 1991, quando nações como Lituânia, Letônia, Croácia, Sérvia, Eslovênia, entre outras, entraram na conjuntura do basquete internacional não mais como parte daqueles dois estados que se dissolveram:

A posição relatica do Brasil despencou no ranking. Enquanto teve o 4º melhor desempenho no período acumulado entre 1948 e 1991, passou a ter tão só o 17º melhor desempenho no período acumulado entre 1992 e 2024.




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