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domingo, 28 de setembro de 2025

Pelo não aproveitamento de 1 rebote, a África não teve o apogeu histórico de seu basquete


O time do Sudão do Sul era formado por um "grupo de refugiados" que quase escreveu uma história monumental ao quase - mas muito quase - ter vencido ao "Team USA" em amistoso disputado em Londres, na Inglaterra, jogo preparatório para os Jogos Olímpicos de 2024, do qual ambos não só participariam, como cairiam no mesmo grupo e voltariam a se enfrentar. Um país quase que envolvido em um conflito permanente, sonhando mudar a sua história através do esporte.

Todos os membros da Seleção do Sudão do Sul de basquete em 2024 eram descendentes de famílias que fugiram das guerras do país mais jovem do mundo e agora, graças ao basquetebol, reencontraram as suas raízes. O que os jogadores mais destacaram após esta "quase-vitória": lá no Sudão do Sul nós não temos quaras cobertas de basquete.


O Sudão do Sul era o país mais jovem do mundo naquele momento, tinha apenas 11 anos de vida. Uma nação que se acostumou a viver em conflito permanente. Duas longas e duras guerras (1955-1972 e 1983-2005) acabaram por levar - em 2011 - e após um referendo de independência, à separação oficial do Sudão. Mas os problemas não pararam por aí, porque dois anos depois começou uma outra guerra, neste caso civil, que mergulhou o país mais jovem do mundo num caos, ainda em 2024 com consequências e resquícios de violência, apesar de seu fim em 2020. Um contexto extremamente obscuro, que deu origem à fuga de milhões de cidadãos do país como refugiados, entre os quais os familiares de todos os jogadores que representaram a seleção de basquete do país no basquete das Olimpíadas de 2024.

Após estar inscrito como nação na FIBA havia apenas 11 anos, o Sudão do Sul conseguiu se classificar para os Jogos Olímpicos. E na estreia nos Jogos de Paris já fez história, pois venceu a Porto Rico. Um feito e tanto se tivermos em conta de ser um dos países mais pobres do mundo (o 7º com pior PIB per capita do planeta em 2024, equivalente a 518 euros).

Com jogadores emigrando para Austrália, Canadá, Estados Unidos ou Inglaterra, filhos da guerra e do desespero, viabilizou-se o sonho de logo ser montado um time de basquete competitivo, ainda que seja um feito quase inacreditável frente a tão pouco tempo e tantas adversidades.

Entre os principais nomes de seu elenco, Carlik Jones nasceu em Ohio, nos Estados Unidos, para onde seus pais emigraram como refugiados. Wenyen Gabriel, jogador do Los Angeles Lakers até junho de 2024 e então contratado pelo Maccabi Tel Aviv, de Israel, nasceu em Cartum, capital do Sudão, mas quando criança fugiu com a família. Nuni Omot veio ao mundo num campo de refugiados no Quênia, Jok Kacuol cresceu no Uganda, para onde teve de fugir depois de o seu pai e dois avós terem sido mortos na guerra civil. J.T. Thor, o único jogador sul-sudanês da NBA naquele momento, cresceu no Alasca por motivos semelhantes. Marial Shayok nasceu em Ottawa, no Canadá, filho de pai e mãe sul-sudaneses. Makur, seu pai, fugiu da guerra civil na década de 1980 e acabou no Texas para jogar basquete.

Quase todos no elenco eram filhos de sul-sudaneses, mas eram poucos os nascidos no país, embora um brilhe entre os demais: Khaman Maluach. Com apenas 17 anos, e 2,18 metros, ele integrou a equipe que participou do último Campeonato Mundial, em 2023, e repetiu a presença nos Jogos Olímpicos poucas semanas depois de ingressar na Universidade de Duke, a mais tradicional de basquete nos Estados Unidos. Ele nasceu em Rumbek, no atual Sudão do Sul, embora tenha crescido em Uganda como resultado da guerra civil no seu país, e se destacado na NBA Academy realizada em Saly, no Senegal.

Kuany Ngor Kuany nasceu em Aweil em 1994 e se mudou para Melbourne, na Austrália, aos 9 anos, e lá se desenvolveu. Sunday Dech, por sua vez, nasceu em Gambela, na Etiópia, filho de pais sul-sudaneses da tribo Anuak, ele se mudou para Perth, na Austrália, aos 6 anos. Jackson Makoi nasceu no Egito com sua família que para lá fugiu da guerra em 2000, e de lá se mudou para Melbourne, também na Austrália, onde se desenvolveu como jogador de basquete. Majok Deng nasceu em 1993 em Bor, no Sudão, e viveu lá até os 8 anos, e teve que se mudar para a Austrália em 2006, depois de passar algum tempo no Quênia como refugiado, chegando mais tarde a Adelaide com sua irmã e sua mãe.

Talvez do ponto de vista político, Peter Jok seja quem mais sabe o que é sofrer uma guerra. O armador não conhecia o que era basquete até os 9 anos de idade. Aos 3 anos, o seu pai, comandante do Exército de Libertação do Povo do Sudão, foi assassinado. Sua família fugiu então para Uganda e depois para os Estados Unidos, onde chegaram em 2003.

Como disse o ex-NBA Wenyen Gabriel depois da quase-vitória sobre os Estados Unidos: "Queremos que nosso país seja respeitado. Somos um grupo de refugiados que se reúne somente algumas semanas todos os anos, dando o nosso melhor, jogando contra alguns dos melhores jogadores de todos os tempos". E ainda assim, quase, mas muito quase, fizeram história. Na verdade, fizeram história! Mas estiveram muito perto de fazer uma ainda maior, daquelas que se tornam míticas para toda a eternidade!

Uma grande parte do mérito por este trabalho realizado vai para o ex-jogador da NBA Luol Deng, que nasceu em 1985 em Wau, ele foi uma peça-chave para que o Sudão do Sul chegasse aos Jogos Olímpicos de Paris. Deng e sua família deixaram o Sudão pelo Egito devido à guerra, mas após obterem asilo político, decidiram emigrar para a Grã-Bretanha. Antes, no Cairo, ele aprendeu a jogar basquete com outro refugiado sudanês: Manute Bol, mítico nome que também brilhou na NBA. Passando pela St. Mary's Academy, em Londres, Deng chegou à NBA, onde fez carreira por 14 anos.

Desde 2019, coincidindo com a sua aposentadoria, ele preside a federação de basquete do Sudão do Sul. Ficou encarregado de encontrar e recrutar os jogadores que hoje compõem a seleção nacional, convencê-los a optar por jogar por seu país de origem e reuni-los às suas raízes. É por isso que Deng mal conseguiu conter as lágrimas há um ano, na Copa do Mundo, onde o Sudão do Sul selou a sua passagem de classificação para Paris: "Todo mundo já viu: quando se investe na África e nos seus jovens, quando se investe nessas pessoas e lhes dá uma oportunidade de sucesso, eles demonstram todo o talento que têm e que podem estar ao nível de qualquer um".

Tecnicamente, a maior estrela da equipe é Carlik Jones. Ele surpreendeu a todos na Copa do Mundo de 2023, quando integrou o time que participava pela primeira vez de uma Copa do Mundo. Contra os Estados Unidos, o armador conquistou o triplo-duplo (15 pontos, 11 rebotes e 11 assistências), sendo o primeiro na história a ter conseguido esta estatística contra o "Team USA".


Ele que havia sido MVP da G-League, Liga de Desenvolvimento da NBA, e tinha jogado pouco em partidas da NBA antes de ir para a China. Aos dois anos de idade, ele foi diagnosticado com craniossinostose, uma doença das articulações fibrosas dos ossos do crânio, que fecham prematuramente. A partir de então ele foi proibido de praticar esportes. Porém, seu bom tratamento, e o uso de capacete até a adolescência, permitiram que ele se recuperasse e começasse a se destacar primeiro na Universidade de Radford e depois em Louisville.

Apesar de não ter sido escolhido no Draft da NBA, ele se destacou no Texas Legends e estreou no Dallas Mavericks em 2021. Sem conseguir se firmar, continuou na G-League e explodiu em 2023, sendo escolhido o MVP da competição defendendo ao Windy City Bulls, time de desenvolvimento do Chicago Bulls. Porém, pelo Chicago, teve apenas 7 jogos, reduzidas oportunidades, com média de 8 minutos e 2,9 pontos. Depois de uma temporada na China, com propostas da Europa para o seu futuro, Jones surpreendeu os melhores da NBA e o Sudão do Sul quase venceu.



A Quase-Vitória sobre os Estados Unidos

Depois de um forte começo da equipe favorita, ainda no 1º Quarto o Sudão do Sul assumiu a liderança, e de forma assombrosa, surpreendendo ao mundo inteiro, a mantiveram pelos 23 minutos seguintes. Quando faltavam 3:25 minutos para o fim do 1º quarto, Majok Deng pegou um rebote defensivo quando o placar apontava 16-16. O Sudão do Sul foi então ao ataque e faltando 3:20 minutos, Khaman Maluach, com assistência de JT Thor, converteu para passar a frente por 18-16. Steve Kerr então parou o jogo.


Na equipe sul-sudanesa, Nuni Omot foi um dos nomes que mais se destacaram em surpreender ao "Team USA", sem se intimidar, e às vezes até mesmo intimidando à equipe dos EUA com sua fisicalidade e força. Eles eram implacáveis no jogo de garrafão, e sufocantes na defesa. Marial Shayok foi um dos grandes destaques. Ele fez 27 pontos no amistoso contra o Reino Unido e repetiu a sua capacidade ofensiva contra os norte-americanos.

O Sudão do Sul não se intimidou e gradativamente foi ampliando a vantagem. O mundo ficou assombrado quando o 1º tempo terminou com uma vantagem elástica dos sul-sudaneses no placar: 58-44 para o Sudão do Sul!


Só que na volta do intervalo, o "Team USA" voltou energizado e disposto a mudar tudo na partida. Durante o 3º quarto, encaixaram uma sequência de 18-0 que os colocaram novamente na partida. Mas só conseguiram assumir a liderança no placar no fim do terceiro período. A corrida decisiva que impediu "o milagre" reverteu o placar de 76-65 em favor dos sul-sudaneses para 83-76 em favor dos norte-americanos.

Os Estados Unidos retomaram a liderança. Faltavam 41 segundos para o fim do período quando JT Thor errou um arremesso de três. Os EUA pegaram o rebote defensivo e partiram ao ataque. O placar apontava 76-76. Quando faltavam apenas 29 segundos, Stephen Curry acertou um de seus mágicos arremessos de três: EUA 79-76. 


No fim do período, Marial Shayok ainda erraria uma nova tentativa de três pontos. No ataque seguinte, Joel Embiid aproveitou um rebote e, no estouro do cronômetro, ainda colocou os EUA com 81-76 a seu favor. Iniciava-se o último quarto com uma vantagem norte-americana de 5 pontos. A chance estava perdida? Os sul-sudaneses não pensavam assim. No último quarto voltaram a reagir e a encostar novamente no marcador. A reta final foi "cabeça a cabeça".


JT Thor fez talvez a maior jogada de sua carreira, acertando uma bola de três na cara de LeBron James para assumir a liderança por 100-99 quando faltavam 20 segundos para o final. Eles podem não ter vencido o jogo, mas Thor deverá ter aquela foto emoldurada e pendurada na parede de sua casa por toda a eternidade.


No último ataque norte-americano, com todas aquelas estrelas em quadra, podia haver dúvidas sobre quem faria o último arremesso. Mas quando você tem LeBron James no seu time, ele sempre será a primeira opção, e o técnico Steve Kerr definiu a jogada que colocava a bola nas mãos dele. LeBron fez com que tudo parecesse fácil: ele esperou, esperou, esperou, depois atacou e colocou tudo com facilidade para colocar os EUA de volta na liderança. Como sempre, LeBron entregou o prometido: faltavam 8 segundos e o placar passava a estar 101-100.

O Sudão do Sul teve 8 segundos para um último ataque, para tentar converter a bola que lhe daria a vitória. Carlik Jones lançou o arremesso e a bola bateu no vidro da tabela quando faltavam cerca de 4 segundos para o final. Ainda houve tempo para um rebote, mas com o ataque mal posicionado, e a defesa norte-americana em vantagem, o que impediu que a cesta fosse convertida. Gabriel teve a chance de recuperar o rebote ofensivo, mas os Estados Unido sobreviveram ao susto!!!

Ainda assim, apesar do não-acerto, Carlik Jones foi o homem da noite. Ele registrou um triplo-duplo contra aquele que muitos consideram um dos melhores times já montados na história do basquete. Fez 15 pontos, pegou 11 rebotes e deu 11 assistências, sendo peça central do Sudão do Sul em uma noite histórica em Londres! Já LeBron liderou o seu time, com 23 pontos, 6 assistências e 6 rebotes, para assim evitar que os norte-americanos sofressem uma das surpresas mais chocantes da história do basquete!



Ficha do Jogo
20/07/2024 - ESTADOS UNIDOS 101 x 100 SUDÃO DO SUL
Parciais: 24 x 26 / 20 x 32 (44 x 58) / 37 x 18 (81 x 76) / 20 x 24 (101 x 100)
EUA: Stephen Curry (10), Jrue Holiday (8), Devin Booker (5), LeBron James (25) e Anthony Davis (15). Téc: Steve Kerr. Banco: Tyrese Haliburton (0), Derrick White (0), Jayson Tatum (9), Antony Edwards (11), Bam Adebayo (4) e Joel Embid (14).
Sudão do Sul: Carlik Jones (15), Marial Shayok (24), Peter Jok (8), Nuni Omot (9) e J.T. Thor (14). Téc: Royal Ivey. Banco: Jackson Makoi (2), Bul Kuol (3), Wenyen Gabriel (11), Majok Deng (7) e Khaman Maluach (7).




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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Hamed Haddadi, ícone gigante do basquete do Irã


Hamed Haddadi é um nome que ressoa em toda a comunidade do basquete mundial, por todo o planeta. O ícone iraniano construiu uma carreira histórica, superando todas as barreiras e vindo a ser o primeiro jogador de basquete do Irã a atuar na NBA, o basquete profissional dos Estados Unidos. Além de que, acumulou números e feitos impressionantes que o colocaram como o maior jogador da história de seu país. O pivô de 2,18 metros deixou seu nome escrito na história deste esporte.

Aos 38 anos, em 2023 disputou o seu último Campeonato Mundial, sua quarta participação em Copa do Mundo, além de ter disputado duas vezes também aos Jogos Olímpicos. Na sua vitoriosa carreira, ele foi 4 vezes escolhido Jogador Mais Valioso (MVP) da Copa Asiática, da qual se sagrou três vezes campeão. Os três títulos da história do basquete do Irã. O que prova o quando ele foi um jogador dominante, e que mudou a história do jogo.


Até 2005 tinha havido 23 edições do Campeonato Asiático de Seleções, com 14 títulos da China, 5 das Filipinas, 2 do Japão e 2 da Coréia do Sul. A melhor colocação do Irã até então tinha sido um 4º lugar na edição disputada em 1993 em Jacarta, na Indonésia.

A carreira de no basquete se iniciou em 1999 no Shahin Ahvaz. Em 2002 se transferiu para o Paykan, e logo no ano seguinte teve sua primeira experiência fora do Irã, atuando pelo Al Nassr, dos Emirados Árabes. Regressou ao basquete iraniano para defender a Sanam, novamente Paykan, e Saba Battery, até que em 2008 foi escolhido pela NBA, ingressando no Memphis Grizzlies. Justamente depois de ter começado a escrever o seu nome na Copa Asiática de Seleções. A proposta chegou logo após a disputa das Olimpíadas de 2008.


Em 2007, no torneio disputado em Tokushima, no Japão, Hamed Haddadi e o time de basquete do Irã começaram a escrever um novo capítulo na história do basquetebol na Ásia. Logo na 1ª Fase, o Irã já derrubou a campeã consecutiva das quatro edições anteriores, e maior vencedora da história do torneio, a China. Com três vitórias - 75 x 69 nas Filipinas, 60 x 54 na Jordânia, e 77 x 68 na China - e atuações soberbas de Haddadi, sobretudo na captura de rebotes, o Irã assegurou a 1ª colocação de seu grupo. Na 2ª Fase, venceu a Taiwan (76 x 64) e Qatar (95 x 87), e no último jogo, com a vaga no Quadrangular Final assegurada, sofreu uma derrota para o Líbano (60 x 82). Na semi-final, Haddadi pegou 13 rebotes, e o Irã venceu ao Cazaquistão por 75 x 62. Na final, teve uma atuação de gala, fenomenal, marcando 31 pontos e pegando 10 rebotes, sendo aclamado como o grande jogador do torneio, e sendo campeão, com o Irã fazendo 74 x 69 no Líbano.

Em 2009, em Tianjin, na China, com ele brilhando novamente, o Irã se sagrou Bi-Campeão Asiático. Na 1ª Fase venceu a Taiwan (71 x 67), Uzbequistão (82 x 61) e Kuwait (94 x 46). Na 2ª Fase, superou a Japão (101 x 71), Filipinas (88 x 78) e Coréia do Sul (82 x 66). Nas quartas de final venceu ao Qatar por 75 x 65 (com Haddadi pegando 15 rebotes), na semi-final superou à Jordânia por 77 x 75, e avançou para fazer a final contra a tradicionalíssima anfitriã China. Com outra atuação soberba de Hamed Haddadi, novamente coroado melhor jogador da competição, liderando a sua equipe em pontos (19) e rebotes (17), numa atuação absolutamente dominante, consumada numa vitória imponente por 70 x 52, a qual deu ao Irã o segundo título da história de seu basquete.

Na edição de 2011, Haddadi não pode impedir que o Irã caísse nas quartas de final, com uma sofrida derrota por 84 x 88 para a Jordânia, que acabou vindo a ser vice-campeã, após perder a final por apenas um ponto de desvantagem para a China.

Mas em 2013, na competição disputada em Manila, nas Filipinas, o Irã voltou ao lugar mais alto do pódio, e Hamed Haddadi voltou a ser aclamado como o melhor jogador do torneio. Na 1ª Fase, o Irã à Malásia por incríveis 115 x 25, à Coréia do Sul por 76 x 65, e à China por 70 x 51. Na 2ª Fase, venceu à India (102 x 58), a Bahrein (75 x 56) e ao Cazaquistão (85 x 53). Nas quartas de final, Haddadi foi o maior pontuador na vitória avassaladora, e vingativa, do Irã sobre a Jordânia (94 x 50). Na semi-final, venceu Taiwan por 79 x 60, avançando para mais uma vez enfrentar ao país anfitrião na final. Mais uma vez ele liderou a sua equipe em pontos (29) e rebotes (16), para com uma atuação dominante se sagrar campeão sobre as Filipinas, com uma vitória por 85 x 71. Depois do chinês Yao Ming, certamente Hamed Haddadi foi o jogador que mais transformou o jogo de basquete praticado na Ásia.

Na edição de 2015, o Irã foi derrotado na semi-final pela China. E em 2017, apesar de ter sido vice-campeão, Haddadi foi aclamado pela quarta vez como o melhor jogador da competição. E o quarto título iraniano só não se consumou por causa de uma mudança política. A partir daquela edição de 2017, Austrália e Nova Zelândia, apesar de estarem na Oceania, passaram a disputar o Campeonato Asiático. O Irã chegou à final justamente contra a Austrália, sendo derrotado por 56 x 79.

Além de toda esta brilhante carreira internacional com a camisa da Seleção do Irã, Hamed Haddadi jogou 5 temporadas da NBA. A primeira foi em 2008/09, e a última em 2012/13. No total disputou 164 partidas, com uma média de 7 minutos em quadra. Após 5 temporadas com o Grizzlies, na temporada 2012/13 foi transferido para o Pheonix Suns, onde teve uma breve passagem. Também atuou no basquete da China, pelo Sichuan Blue Whales na Temporada 2013/14, pelo Qingdao DoubleStar Eagles na Temporada 2014/15, voltou para outras três temporadas no Blue Whales, e teve passagem na Temporada 2019/20 pelo Nanjing Monkey Kings, antes de mais três temporadas consecutivas pelo Sichuan Blue Whales, camisa que mais vezes vestiu em sua carreira.


Haddadi foi muito mais do que um simples jogador de basquete. Ele foi um ícone e um modelo de liderança e de dedicação a ser seguido, uma inspiração a ser seguida pelos jovens. Um gigante na história do basquete!



sábado, 30 de março de 2024

A ascensão do basquete da França


A ascensão do basquete francês aconteceu sobretudo a partir da vitoriosa carreira construída pelo armador Tony Parker na NBA. Após se destacar pelo Racing Paris entre 1999 e 2001, o jovem chegou para defender ao San Antonio Spurs em 2001, com tão só 19 anos, onde construiu uma brilhante carreira de sucesso no basquete profissional dos Estados Unidos com a camisa dos Spurs até 2018. Logo na sua primeira temporada, ainda antes de completar 20 anos, já foi um jogador com 29,4 minutos em quadra em 77 partidas disputadas, 72 das quais saindo no quinteto inicial. Seis vezes campeão da NBA, nas temporadas 2002/03, 2004/05, 2006/07 e 2013/14, jogador mais valioso a Final de 2007.

Tony Parker

Regressando no tempo, a França largou com sua história no basquetebol disputando três das quatro primeiras edições do Campeonato Mundial. Em 1950, na Argentina, terminou em 6º lugar. Em 1954, no Brasil, obteve um 4º lugar. Não jogou em 1959, no Chile. E em 1963, novamente no Brasil, terminou com um 5º lugar. Após deste bom início, passou longos anos como figurante no cenário internacional. Entre 1967 e 2002, em 10 edições do Campeonato Mundial, teve apenas uma participação, em 1986, na Espanha, na qual ficou apenas com a 13ª colocação.

História semelhante é contada pelo desempenho francês no Campeonato Europeu de Seleções (EuroBasket). Nas 12 edições disputadas até 1961, a França teve um 2º lugar (1949), quatro vezes o 3º lugar (1937, 1951, 1953 e 1959), três vezes o 4º lugar (1939, 1946 e 1961), estando, portanto, 8 vezes (66% das edições) no Top 4, além de ter sido duas vezes 5º lugar, tendo ficado assim só duas vezes fora do Top 5. Entre 1963 e 2001, em 20 edições a França só esteve três vezes dentro do Top 5 (5º lugar como sede em 1983, e duas vezes 4º lugar, em 1991 e em 1999.

No Século XXI, a partir do destaque de Tony Parker na NBA, a história começou a mudar. Em 2006, no Japão, chegou às quartas de final, terminando com um 5º lugar. Em 2010, na Turquia, terminou na 13ª colocação. E nas duas edições consecutivas, em 2014 na Espanha e em 2019 na China, terminou duas vezes seguidas em 3º lugar.

O desempenho mudou também no EuroBasket. Iniciou-se a mudança com um 4º lugar em 2003, seguido por um 3º lugar em 2005. Após duas edições - disputadas em 2007 e 2009 - sem ir muito bem, a França solidificou uma sequência de bons resultados a partir de 2011.

No EuroBasket 2011, disputado na Lituânia, a seleção francesa chegou à final, mas perdeu o título para a Espanha (85 x 98). Até que a França conseguiu consolidar um título para eternizar em definitivo a mudança de patamar de seu basquetebol: Campeões do EuroBasket 2013, no torneio disputado na Eslovênia.

Batum, Parker e Diaw

Na 1ª Fase, após perder na estreia para a Alemanha (74 x 80), a França venceu consecutivamente a Inglaterra (88 x 65), Israel (82 x 63), Ucrânia (77 x 71) e Bélgica (82 x 65), vencendo o grupo. Na 2ª Fase, perdeu para a Lituânia (62 x 76), venceu à Letônia (102 x 91), e perdeu para a Sérvia (65 x 77), mas conseguiu avanças às quartas de final, quando superou à anfitriã Eslovênia (72 x 62) e se garantiu no Top-4. Na semi-final conseguiu uma vitória histórica sobre seu algoz na edição anterior, a Espanha, vencendo por 75 x 72 na prorrogação. Na final, atropelou à Lituânia, batendo-a por 80 x 66 e se sagrando Campeã Europeia!

Tony Parker foi o grande líder da vitoriosa campanha, sendo o maior pontuador de toda a competição (19,0 pontos por partida). O quinteto titular que foi campeão europeu, sob o comando do técnico Vincent Collet, era formado por Tony Parker, Mickael Gelabale, Nicolas Batum, Boris Diaw e Alexis Ajinça, com um banco de reservas formado por Thomas Heurtel, Nando De Colo, Antoine Diot, Joffrey Lauvergne e Johan Petro.


No Mundial de 2014, a França tinha o quinteto titular composto por Thomas Heurtel, Antoine Diot, Mickael Gelabale, Nicholas Batum e Boris Diaw, com um banco de reservas formado por Evan Fournier, Edwin Jackson, Florent Pietrus, Joffrey Lauvergne e Rudy Gobert, e tendo como suplentes ao ala Charles Kahudi e ao ala-pivô Kim Tillie, comandados pelo técnico Vincent Collet.

Na Fase de Grupos, perdeu para o Brasil na estreia (63 x 65), depois venceu à Sérvia (74 x 73), ao Egito (94 x 55) e ao Irã (81 x 76), tendo sido superada também pela Espanha (64 x 88), terminando na 3ª posição e avançando para as oitavas de final, na qual superou à Croácia (69 x 64). Nas quartas de final venceu um jogo histórico contra a favorita Espanha por 65 x 52, avançando para reencontrar à Sérvia, a quem havia vencido na 1ª Fase, numa semi-final. Acabou derrotada por 85 x 90. Na decisão do 3º lugar, bateu à Lituânia por 95 x 93, ficando com a Medalha de Bronze. Um grande feito na história de seu basquete!

A fortíssima equipe francesa teve como líderes em eficiência a Batum (13,2), Lauvergne (11,0) e Heurtel (10,8); como líderes em pontuação a Batum (14,6), Heurtel (9,7) e Diaw (9,2); como líderes de assistência a Diaw (4,0), Heurtel (4,0) e Diot (2,3); e como líderes em rebotes a Lauvergne (5,3), Gobert (4,7) e Diaw (4,6). Uma grande e histórica equipe!



O bom desempenho da França foi sustentado nas edições seguintes depois da conquista do título de 2013. Em 2015 caiu na semi-final perante a Espanha (75 x 80), e terminou em 3º lugar. Em 2017 uma campanha ruim: 12º lugar. E em 2022 voltou à final, derrotada mais uma vez pela Espanha (76 x 88), terminando novamente em 2º lugar. Entre 2011 e 2022, em 5 edições do EuroBasket, a França ficou impressionantes 4 vezes no Top 3 (1º lugar em 2013, 2º lugar em 2011 e 2022, e 3º lugar em 2015).

Neste processo de crescimento do basquete francês, uma partida em especial foi histórica, a vitória sobre os Estados Unidos pelas quartas de final do Mundial de 2019:

11/09/2019 - França 89 x 79 EUA
Local: Dongfeng Nissan Cultural and Sports Centre, Dongguan, China
Parciais: 18 x 18 / 27 x 21 (45 x 39) / 18 x 27 (63 x 66) / 26 x 13 (89 x 79)
França: Frank Ntilikina (11), Evan Fournier (22), Nando De Colo (18), Nicolas Batum (6) e Rudy Gobert (21). Téc: Vincent Collet. Banco: Andrew Albicy (5), Axel Toupane (1), Paul Lacombe (--), Amath M'Baye (2), Louis Labeyrie (0), Mathias Lessort (3) e Vincent Poirier (--).
EUA: Donovan Mitchell (29), Kemba Walker (10), Marcus Smart (11), Jaylen Brown (9) e Harrison Barnes (4). Téc: Gregg Popovich. Banco: Derrick White (4), Jayson Tatum (--), Joe Harris (5), Khris Middleton (5), Brook López (0), Myles Turner (2) e Mason Plumlee (0).


A França largou com três vitórias na 1ª Fase do Campeonato Mundial de 2019, disputado na China, vencendo a Alemanha (78 x 74), Jordânia (103 x 64) e República Dominicana (90 x 56). Na 2ª Fase, venceu à Lituânia (78 x 75) e foi derrotada pela Austrália (98 x 100). Classificou-se então às quartas de final, quando obteve a vitória antológica sobre o "USA Team" e seus jogadores da NBA. Foi então para a semi-final contra a Argentina, na qual nem a auto-estima inflada pela eliminação dos norte-americanas foi suficiente para levá-la à final. Acabou derrotada de forma impiedosa, por 66 x 80. Restou-lhe a disputa de 3º lugar. Venceu à Austrália (67 x 59), e faturou mais uma Medalha de Bronze para sua galeria.




Nos Jogos Olímpicos, esta ascensão foi consumada com a terceira Medalha de Prata da história do basquete masculino francês. A França ficou com o 2º lugar nas edições de 1948, em Londres, de 2000, em Sydney, e em 2020, Tóquio. Nas Olimpíadas disputadas no Japão em 2021 (postergadas por causa da pandemia do coronavírus), provando que não foi acaso, logo na partida de estreia obtiveram uma outra vitória histórica sobre o time dos Estados Unidos e seus jogadores da NBA, desta vez logo na partida de estreia.

25/07/2021 - França 83 x 76 EUA
Local: Saitama Super Arena, Saitama, Japão
Parciais: 15 x 22 / 22 x 23 (37 x 45) / 25 x 11 (62 x 56) / 21 x 20 (83 x 76)
França: Evan Fournier (28), Nando De Colo (13), Nicolas Batum (5), Guerschon Yabusele (6) e Rudy Gobert (14). Téc: Vincent Collet. Banco: Thomas Heurtel (5), Frank Ntilikina (--), Timothe Luwawu-Cabarrot (2), Andrew Albicy (--), Vincent Poirier (3), Petr Cornelie (0) e Moustapha Fall (7).
EUA: Damian Lillard (11), Jayson Tatum (9), Jrue Holiday (18), Kevin Durant (10) e Bam Adebayo (12). Téc: Gregg Popovich. Banco: Keldon Johnson (0), Devin Booker (4), Khris Middleton (0) , Zach Lavine (8), Jerami Grant (--), Draymond Green (2) e Javale McGee (2).


Após a vitória sobre os EUA, a França venceu à República Tcheca (97 x 77) e ao Irã (79 x 62), para fechar na liderança do grupo na Fase de Grupos, avançando para as quartas de final. Venceu então à Itália por 84 x 75. Na semi-final, venceu à Eslovênia por 90 x 89, avançando para reencontrar aos Estados Unidos na final. Desta vez foi superada, perdendo por 82 x 87 e ficando com a Medalha de Prata.



A ascensão do basquete francês também foi explicitada pelos resultados obtidos no Campeonato Mundial Sub-19. Nas 13 primeiras edições do torneio, entre 1979 e 2017, o basquete da França havia sido semi-finalista apenas 1 vez, em 2007, no torneio disputado na Sérvia. Entre 2019 e 2023, por três edições consecutivas os jovens franceses conseguiram terminar no Top 3, mostrando o potencial do basquete francês para os anos seguintes.

Em 2019, no torneio disputado na Grécia, a França passou nas oitavas de final pela Grécia, nas quartas de final pelo Canadá, e acabou caindo na semi-final, quando era favoritíssima, ao ser derrotada por Mali, que acabou perdendo o título para os Estados Unidos.


O time da França que foi 3º lugar no Mundial Sub-19 de 2019 era formado por um quinteto titular composto por Karlton Dimanche, Yohan Choupas, Joel Ayayi, Babacar Niasse e Mathis Dossou Yovo, pelos reservas Lucas Bourhis, Hugo Robineau, Kenny Baptiste, Jacques Eyoum e Florian Leopold, tendo como suplentes aos pivôs Yoan Makoundou e Nicholas Evtimov, comandados pelo técnico Frederic Crapez.

Como destaques da equipe, Ayayi liderou em eficiência (20,6) e em pontuação (20,9 por partida), Dimanche em assistências (4,1 por jogo), seguido de Ayayi (3,4), e com Doussou Yovo forte no garrafão, liderando em rebotes (6,7 por partida), a França deu uma largada para uma sequência de grandes campanhas de seus jovens no Mundial Sub-19.

Em 2021, no torneio disputado na Letônia, a França venceu o grupo com Espanha e Argentina na 1ª Fase - apesar de ter sido derrotada pelos espanhóis na prorrogação (59 x 60) - depois passou nas oitavas de final por Mali, nas quartas de final pela Lituânia, e na semi-final pela Sérvia, só sendo derrotada pelos Estados Unidos na final (81 x 83).


O time da França que foi 2º lugar no Mundial Sub-19 de 2021 era formado por um quinteto titular com Matthew Strazel, Jayson Tchicamboud, Clement Frisch, Victor Wembanyama e Yvan Ouedraogo, com um banco com Rudy Demahis-Ballou, Lucas Ugolin, Louis Lesmond, Armel Traore e Guillaume Eyango, tendo como suplentes ao ala Kevin Marsillon Noleo e ao pivô Brice Dessert. Equipe que novamente tinha como técnico a Frederic Crapez.

Como destaques da equipe, o líder em eficiência (20,1) e em pontuação (14,0 por partida), além de ter sido vice-líder da equipe em rebotes (7,4) foi Victor Wembanyama, que viria a ser a escolha Número 1 do Draft da NBA em 2023. O líder em assistências foi Strazel (6,7 por jogo) e em rebotes foi Ouedraogo (7,7) por partida), muito próximo à média de Wembanyama, uma equipe, portanto, fortíssima no jogo dentro do garrafão.

Em 2023, no torneio disputado na Hungria, a França passou nas oitavas de final por Madagascar, nas quartas de final pela Sérvia, e na semi-final obteve uma vitória histórica sobre os Estados Unidos (89 x 86). Fez a final contra a Espanha, mas novamente não conseguiu conquistar o título, sendo derrotada por 69 x 73.


O time da França que foi 2º lugar no Mundial Sub-19 de 2023 tinha um quinteto titular composto por Alexandre Bouzidi, Noah Penda, Melvin Ajinça, Zacharie Perrin e Alexandre Dam Sarr, com um banco formado por Romain-Thomás Parmentelot, Romain Hoeltzel, Lucas Fischer, Zaccharie Risacher e Halvine Dzellat-Dlakeno, e tendo como suplentes ao ala-pivô Simon Correa e ao pivô Izan Le Meut, com o técnico sendo Lamine Kebet.


Como destaques da equipe, o líder em eficiência, com números impressionante, foi Perrin (25,1) e com destaque também para Ajinça (17,0), este que foi o líder em pontuação (19,3 por partida). Perrin também foi o vice-líder em pontuação (15,4 por jogo) e o líder em rebotes (impressionantes 10,9 por partida), tendo o líder em assistências sido Bouzidi (5,9 por jogo). Uma grande equipe de jovens talentos!



O basquete francês foi 3º lugar no Mundial em 2014 e em 2019; 2º lugar nas Olimpíadas em 2021, no EuroBasket foi 2º lugar em 2011 e em 2022, e foi 3º lugar em 2015; e no Mundial Sub-19 foi 3º lugar em 2019, e 2º lugar duas vezes seguidas, em 2021 e 2023. Uma sequência de 9 resultados entre 2º ou 3º em um período muito curto de tempo. O único título foi o de Campeão do EuroBasket de 2013. Mas a França chegava ao Mundial de 2023 e às Olimpíadas de 2024 com um grande material humano que, pelos resultados dos jovens, representava um potencial ainda maior para o Campeonato Mundial de 2027, no Qatar, e para as Olimpíadas de 2028.

E nos Jogos Olímpicos seguintes, em 2024, foram os anfitriões. E foi com esta mescla de gerações que superaram a Brasil, Japão, Canadá e Alemanha para chegar e fazer a final em Paris contra uma estrelada Seleção dos Estados Unidos, que contava com Stephen Curry, LeBron James, Kevin Durant, Anthony Edwards, Jason Tatum, Jrue Holiday, Anthony Davis e cia.

A FRANÇA NAS OLIMPÌADAS DE 2024




terça-feira, 31 de janeiro de 2023

História dos Campeonatos Mundiais de Basquete 2019 - ...


1950-1967     1970-1990     1994-2014     2019-...


2019 – Mundial da China

O Mundial de 2019 foi disputado em oito diferentes cidades da China. A quantidade de participantes aumentou para 32 seleções. Só a anfitriã China já estava previamente classificada. A Europa teve direito a 12 vagas: Lituânia, Rússia, Sérvia, Espanha, Itália, França, Grécia, Turquia, Alemanha, República Tcheca, Polônia e Montenegro. Assim, Croácia e Eslovênia, não conseguiram suas classificações. As Américas tiveram 7 vagas: Estados Unidos, Canadá, Argentina, Brasil, Porto Rico, Venezuela e República Dominicana. O México e o Uruguai não conseguiram classificação. Outras 7 vagas foram definidas num torneio agrupando Ásia e Oceania, tendo sido conquistadas por: Austrália, Nova Zelândia, Irã, Japão, Coréia do Sul, Filipinas e Jordânia. E a África teve 5 vagas: Angola, Senegal, Nigéria, Costa do Marfim e Tunísia.

O torneio foi disputado com oito grupos de quatro na 1ª Fase, na qual os dois primeiros colocados avançavam à 2ª Fase, onde formavam quatro grupos de quatro, com os dois primeiros colocados de cada grupo avançando aos play-offs, disputados a partir das quartas de final.

No Grupo A, Polônia e Venezuela se classificaram, eliminando à anfitriã China e à Costa do Marfim. No Grupo B, Argentina e Rússia avançaram, eliminando a Nigéria e Coréia do Sul. No Grupo C, Espanha e Porto Rico confirmaram seus favoritismos, eliminando a Tunísia e Irã. No Grupo D, Sérvia e Itália também confirmaram seus favoritismos, eliminando a Angola e Filipinas.

No Grupo E, EUA e República Tcheca se classificaram, eliminando a Turquia e Japão. No Grupo F, Brasil e Grécia avançaram, eliminando a Nova Zelândia e Montenegro. No Grupo G, a grande surpresa foi a vitória da República Dominicana sobre a Alemanha (70 x 68). Junto aos dominicanos, na liderança do grupo, avançou a França, tendo a Jordânia sido eliminada. E no Grupo H, Austrália e Lituânia avançaram, eliminando a Canadá e Senegal.

Na 2ª Fase, os grupos eram formados carregando os resultados da 1ª Fase. No Grupo I, Argentina e Polônia saíram em vantagem, e confirmaram sua classificação. A Polônia venceu à Rússia por 79 x 74, assegurando o segundo lugar. Os russos deram adeus à competição, assim como a Venezuela. No Grupo J, Espanha e Sérvia, líderes na fase anterior, também confirmaram suas classificações, com Itália e Porto Rico sendo eliminados.

No Grupo K, classificaram-se os dois que haviam avançado no Grupo E. Os EUA ficaram em primeiro, e a República Tcheca venceu ao Brasil por 93 x 71 e ficou com a segunda vaga. Junto aos brasileiros, foi eliminada a Grécia. No Grupo L, os líderes da fase anterior, Austrália e França, avançaram, com Lituânia e República Dominicana sendo eliminadas.


Nas quartas de final, a grande surpresa foi a vitória da França sobre os Estados Unidos por 89 x 79, com 22 pontos de Evan Fournier e 16 rebotes de Rudy Gobert. Desde o Mundial de 2006 que os norte-americanos não sabiam o que era uma derrota no basquete masculino. Nos demais confrontos, a Espanha e a Austrália, sem surpresas, venceram respectivamente a Polônia (90 x 78) e República Tcheca (82 x 70). No último duelo, os sérvios eram tidos como favoritos, mas a vitória foi da Argentina, que fez 97 x 87 sobre a Sérvia.

Na semi-final, a França havia ganhado moral após despachar aos EUA, mas foi a Argentina quem mostrou a força de seu basquete, vencendo por inapeláveis 80 x 66. No outro duelo, a Espanha precisou de duas prorrogações para superar à Austrália por 95 x 82. Na final, espanhóis e argentinos fizeram um clássico entre aquelas que vinham sendo as duas principais forças emergentes no cenário internacional do basquete masculino nas duas primeiras décadas do Século XXI. E a Espanha provou sua força, vencendo por 95 x 75, e conquistando seu segundo título de campeã mundial.

ESPANHA
Ricky Rubio, Sergio Llull, Rudy Fernández, Victor Claver e Marc Gasol. Téc: Sergio Scariolo. Sexto jogador: Juancho Hernangómez.

Seleção do Campeonato
Ricky Rubio (Espanha), Bodgan Bogdanovic (Sérvia), Evan Fournier (França), Luis Scola (Argentina) e Marc Gasol (Espanha)

Jogador Mais Valioso: Ricky Rubio (Espanha)



2023 – Mundial de Japão, Indonésia e Filipinas

O Mundial de 2023 foi disputado em três países na Ásia Oriental. A quantidade de participantes foi pela segunda vez de 32 seleções, e só dois dos três países sedes tiveram previamente a classificação garantida: Japão e Filipinas. A Europa teve direito a 12 vagas: Lituânia, Letônia, Sérvia, Espanha, Itália, França, Grécia, Alemanha, Finlândia, Eslovênia, Montenegro e Geórgia. Entre os europeus que não obtiveram a classificação estavam Rússia, Turquia e Croácia. As Américas tiveram 7 vagas: Estados Unidos, Canadá, Brasil, Porto Rico, México, Venezuela e República Dominicana. A grande surpresa foi a não classificação da Argentina, vice-campeã do Mundial anterior, em 2019. O Uruguai também não conseguiu sua classificação. Além dos 2 países-sede, outras 6 vagas foram definidas em torneio entre Ásia e Oceania, tendo sido conquistadas por: Austrália, Nova Zelândia, Irã, China, Jordânia e Líbano. E a África teve 5 vagas: Angola, Cabo Verde, Costa do Marfim, Sudão do Sul e Egito, duas das quais disputando a competição pela primeira vez na história: Cabo Verde e Sudão do Sul.

O torneio manteve o formato do anterior, sendo disputado com oito grupos de quatro na 1ª Fase, na qual os dois primeiros colocados avançavam à 2ª Fase, onde formavam quatro grupos de quatro, com os dois primeiros colocados de cada grupo avançando aos play-offs, disputados a partir das quartas de final.

A grande surpresa na 1ª Fase foi a eliminação prematura da França, derrotada nas duas primeiras rodadas por Canadá e Letônia. No Grupo A, uma surpreendente República Dominicana terminou na liderança e avançou junto à Itália, eliminando a Angola e Filipinas, e avançando para cruzar com Sérvia e Porto Rico, que no Grupo B eliminaram a Sudão do Sul e China. No Grupo C, Estados Unidos e Grécia avançaram, eliminando a Nova Zelândia e Jordânia e indo enfrentar aos classificados do Grupo D, Lituânia e Montenegro, que eliminaram a Egito e México. No Grupo E, Alemanha e Austrália eliminaram a Japão e Finlândia, juntando-se a Eslovênia e Geórgia, que no Grupo F desclassificaram a Cabo Verde e Venezuela. No Grupo G, Espanha e Brasil avançaram, tirando a Costa do Marfim e Irã, para enfrentar a Canadá e Letônia, que no Grupo H eliminaram a França e Líbano.

Interessar a evolução do basquete africano, tendo as 5 seleções do continente terminado em 3º lugar nos seus respectivos grupos, com Angola, Sudão do Sul, Egito, Cabo Verde e Costa do Marfim, desbancando respectivamente a Filipinas, China, México, Venezuela e Irã.

Na 2ª Fase, no Grupo I os europeus se impuseram, com Itália e Sérvia avançando e eliminando a Porto Rico e República Dominicana. No Grupo J, Estados Unidos e Lituânia avançaram, com os lituanos tendo vencido por 110 x 104 aos norte-americanos para ficar na 1ª colocação do grupo; Montenegro e Grécia foram eliminados. No Grupo K, Alemanha e Eslovênia foram às quartas ao eliminar a Austrália e Geórgia. No Grupo L, a Letônia voltou a surpreender quando venceu à Espanha, campeã mundial de 2019, por 74 x 69. O Canadá também superou aos espanhóis (88 x 85) e também avançou, com Espanha e Brasil eliminados.


As quartas de final foram marcadas por vitórias de segundos colocados de grupos da fase anterior sobre primeiros, tendo sido os casos das vitórias da Sérvia sobre a Lituânia e dos Estados Unidos sobre a Itália. Em duelo decidido nos segundos finais, a Alemanha venceu à Letônia por 81 x 79 e também avançou à semi-final, junto ao Canadá, que venceu à Eslovênia. As semi-finais seriam marcadas assim por dois cionfrontos entre América do Norte e Europa. Os sérvios fizeram campanha majestosa mesmo estando desfalcados de Nikola Jokic, eleito o melhor jogador das duas temporadas anteriores da NBA.

Ambas as partidas semi-finais foram disputadas nas Filipinas. Na primeira, a Sérvia, contou com grande atuação de Bogdan Bogdanovic para vencer ao Canadá por 95 x 86. Na outra, a força coletiva da Alemanha de Schroder, Obst, Franz Wagner e Theis se impôs sobre os EUA, com uma histórica vitória por 113 x 111. Feito histórico: primeira vez que a Alemanha chegou à final de um Campeonato Mundial.

Na decisão de 3º lugar, uma cesta de três do time norte-americano no segundo final empatou o jogo em 111 x 111, levando à prorrogação, na qual o Canadá sacramentou uma vitória por 127 x 118. Primeira medalha canadense na história do Mundial. E maior pontuação sofrida pela Seleção dos Estados Unidos na história do basquete. Na final, a Seleção da Alemanha conquistou um título inédito ao superar à Sérvia por 83 x 77, em atuação gigante do armador Schroder, autor de 28 pontos na final, após pontuação média de 19,1 por jogo na competição.

ALEMANHA
Dennis Schroder, Franz Wagner, Andreas Obst, Daniel Theis e Johannes Voigtmann. Téc: Gordie Herbert. Sexto jogador: Isaac Bonga.

Seleção do Campeonato
Dennis Schroder (Alemanha), Luka Doncic (Eslovênia), Shai Gilgeous-Alexander (Canadá), Anthony Edwards (Estados Unidos) e Bodgan Bogdanovic (Sérvia)

Jogador Mais Valioso: Dennis Schroder




sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Argentina, Campeã do 1º Campeonato Mundial, em 1950


A Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e a Medalha de Bronze em Beijing 2008, os vice-campeonatos mundiais em Indianápolis 2002 e China 2019, e a criação da Liga Nacional e seu impacto no desenvolvimento do basquete argentino; mas muito antes de tudo isso, um time figurou e deu à Argentina um status de potência no basquete quando conquistou a primeira edição do Mundial.

A 1ª edição do Campeonato Mundial foi disputada em 1950 no Ginásio Luna Park, em Buenos Aires. Por que a Argentina foi escolhida como sede deste primeiro Mundial? Antes de tudo, porque o país já tinha uma longa relação com o basquetebol, tendo sido um dos 8 países fundadores da FIBA - Federação Internacional de Basquete - em 1932. Ao mesmo tempo, as políticas do presidente Juan Domingo Perón impulsionavam a participação ativa do Estado em tudo que era relacionado ao âmbito desportivo, e isso sustentava as garantias para a realização de qualquer possível evento esportivo, em tempos que os recursos para o esporte eram muito escassos.

Ademais, a Europa ainda sofria os destroços políticos e econômicos pós Segunda Guerra Mundial, que havia terminado havia apenas cinco anos. Nos Estados Unidos, onde o basquete nasceu, as maiores preocupações eram com a profissionalização e o nascimento da NBA (a BAA havia sido criada em 1946, mas a NBA começou a ser chamada tal qual é conhecida até os dias atuais justamente em 1950). Não havia qualquer preocupação nos EUA naquele momento com qualquer campeonato de fomento com caráter internacional. E para a Argentina, ser sede do Mundial de Basquete também lhe servia politicamente para competir com o Mundial de Futebol - o primeiro pós-Segunda Guerra - realizado naquele mesmo ano de 1950 no seu vizinho Brasil, sendo esta a principal motivação do país a organizá-lo (a Argentina jamais aceitou não ter sido escolhida como sede da Copa do Mundo de futebol de 1950, tendo ficado de tal forma insatisfeita, que se negou a disputar o torneio após ter sido preterida pelo Brasil).

E foi assim que, em 1950, ano em que se cumpria um século desde a morte de José de San Martín, herói de sua independência, que Buenos Aires abrigou a competição que dava os primeiros passos, e na qual teve um protagonista principal. Inclusive, oficialmente o torneio se chamou: "Primeiro Campeonato Mundial Libertador General San Martín". O selecionado nacional arrasou em quadra, com seis vitórias e nenhuma derrota, e se converteu no primeiro campeão mundial de basquete. Foram 10 as seleções que participaram do torneio, mas só a Argentina pode sentir o que foi ter sido a anfitriã e a vencedora do troféu da primeira edição do Mundial. E ainda pode inflar seu orgulho ao ter sido a campeã do torneio que sediou, o de basquete, enquanto pode ver o Brasil perder a final no Mundial de futebol perante o Uruguai.


Como todos os eventos, o torneio teve certas particularidades que ficaram na memória. Por exemplo: 
  • Nebojaa Popovic é um dos maiores da história do basquete da Iugoslávia. Fez história com a camisa do Estrela Vermelha, de Belgrado, presidiu a Federação Iugoslava de Basquete entre 1985 e 1987, e foi o primeiro jogador a anotar pontos na história dos Mundiais. E além de que era não só jogador, como o treinador da equipe da Iugoslávia em 1950.
  • Os iugoslavos, indiretamente, também foram protagonistas de outro acontecimento daquela edição. No jogo contra a Espanha, a única vitória da Iugoslávia no torneio, venceu por 2-0. A razão: seu rival se sentou em quadra e decidiu não disputar a partida em protesto contra o regime autoritarista de Francisco Franco em seu país.
  • Quem ficou com a marca de maior pontuador do torneio foi Álvaro Salvadores, que também fez parte do Quinteto Ideal daquele Mundial. Ele representava à Espanha, mas era chileno de nascimento (também atuou durante sua carreira pela Seleção do Chile). Ele terminou o Mundial com a média de 13,7 pontos por partida.
  • A maior diferença de pontos foi na vitória da Argentina sobre o Egito, que terminou 68-33, com uma vantagem de 35 pontos. A Argentina foi também a única equipe naquele Mundial a ter feito mais de 60 pontos em um jogo, o que conseguiu em três oportunidades.

O time argentino se preparou para aquele Mundial sob uma rigorosa preparação comandada por seu treinador, Jorge Canavesi, ou simplesmente "o professor", que em 1950 era um jovem de apenas 30 anos, mas que decidiu provar uma nova forma de trabalho: "Tive que criar pessoalmente metodologias novas para poder compensar as deficiências físicas da equipe, tínhamos que superar a maior velocidade de reação e a maior estatura que tinha a maioria de nossos rivais. Já havíamos visto em Londres (nos Jogos Olímpicos de 1948). Tive que adaptar métodos dos EUA para as características do jogador argentino. Nós nos apoiávamos na tradução dos livros de Claire Bee e em tudo que nos chegava vindo da Suécia e da Alemanha. A esta informação, agregamos criatividade", assim contou Canavesi para a matéria de Alejandro Pérez, publicada em 2 de novembro de 2000 no jornal Clarín.

Segue seu relato: "Treinamos e nos concentramos no River Plate. Durante três meses fazíamos 6 horas de treino diário. Repito: 6 horas. É um orgulho saber que o trabalho foi precursor. Tínhamos à nossa disposição: 1 clínico geral, 1 ortopedista e 4 fisioterapeutas. Isto foi muito importante. Levávamos os meninos para correr todos os dias no hipódromo para que pudessem ter resistência. A equação era simples: mesmo que fizéssemos força e exercício nas costas, com todos os equipamentos que os suecos recomendavam, nunca conseguiríamos competir com sucesso se não tivéssemos resistência. Se quiséssemos vencer, tínhamos que correr mais do que todos".

O treinador também relatou a tática de vanguarda que foi aplicada, pois não bastava apenas o lado físico: "Também treinamos a tática que íamos usar: ofensiva contra zona, defesa homem a homem, e pressão em toda a quadra. Tenho o orgulho de ter resolvido o problema de altura que sofremos em 1948, e que resolvi fazendo com que os meninos treinassem pegando o rebote em duas metades, depois de dar um tapa na bola. Outro fator técnico que melhoramos foi o arremesso, que na época era um avanço tremendo, e ao qual adicionamos a quebra de pulso. Trabalhamos muito bem e os resultados eram visíveis. Os jogadores estavam acreditando em nós ao ver que seus números (tínhamos pontuação estatística de tudo) melhoravam com o esforço diário. O programa foi complementado com uma série de passeios culturais e complementares ao treinamento que toda a equipe fez, e que foi muito bom para a gente respirar um pouco mentalmente".

O time argentino era bastante jovem, o mais velho dentre os jogadores era Rubén Menini, que tinha apenas 26 anos, enquanto os demais mal superavam os 20 anos. Entretanto, vários dos integrantes da equipe haviam estado em Londres em 1948 e Canavesi já os conhecia: Furlong, González, Uder, Menini, Contarbio... Segundo as palavras do próprio treinador: "Nós sabíamos que podíamos funcionar bem juntos, porque já em Londres havíamos comprovado, como quando perdemos por 59-57 para os Estados Unidos naquela Olimpíada, mas no Mundial fomos ganhando confiança ainda maior jogo a jogo".


Para ter o melhor da equipe, Canavesi recorreu a métodos pouco frequentes naquela época, como as concentrações. E decidiu começá-las nada menos do que 3 meses antes do Mundial. Recordou Rubén Menini que "como representávamos ao país, existia uma lei que te permitia gozar de uma licença no trabalho. Como nós éramos todos amadores, nenhum de nós vivia do basquete e todos trabalhavam, e por causa desta lei pudemos estar três meses treinando juntos. Treinava-se de segunda até ao meio-dia de sábado, todas as semanas".

Foi assim que a Argentina conseguiu a glória, sempre demonstrando aquela alma intangível que compensa alguns centímetros com garra, coração, suor e glória. "Gosto de ter criado a mística de um time singular", declarou o grande Canavesi.
 
No caminho da Argentina no Mundial de 1950, que contou com a participação de 10 países, o conjunto comandado dentro de quadra por Ricardo González e Oscar Furlong disputou seis partidas e ganhou todas. Iniciou sua trajetória com uma vitória por 56-40 sobre a França na primeira rodada. Leopoldo Contarbio foi o máximo anotador, tendo o ala-pivôt terminado a partida com um total de 14 pontos convertidos.

Depois vieram quatro triunfos que demostraram o nível dos argentinos e marcaram a equipe como aspirante ao título: uma vitória sobre o Brasil por 40-35 e um atropelamento sobre o Chile com um contundente 62-41. Mais adiante, os franceses voltaram a sofrer o impacto do time local ao serem derrotados por 66-41, e o Egito não mostrou qualquer resistência, caindo por 68-33. Furlong foi o máximo pontuador frente a Brasil e Francia, e González foi quem mais marcou contra Chile e Egito.


Assim o time se classificou para enfrentar aos Estados Unidos na grande final, disputada em 3 de novembro de 1950 no Luna Park, em Bueno Aires, a primeira "data dourada" para o basquete alvi-celeste. Esta partida consagraria a Oscar Furlong com a eleição de Melhor Jogador do Torneio após anotar 20 pontos. Prêmio justo, sobretudo por ele ter sido o jogador mais decisivo justamente nos confrontos mais difíceis do quadro argentino, nas vitórias sobre Brasil, França e EUA.

O Egito era o Campeão Europeu, tendo vencido a Eurocup no Cairo (sim, o Egito disputava a competição europeia), e a França havia sido a vice-campeã. Eram as duas equipes mais poderosos do outro lado do Oceano Atlântico. E não estava o Uruguai, potência do basquete da América do Sul, já que o governo de Juan Domingo Perón lhes havia negado o visto de entrada aos jornalistas do país vizinho, provocando sua deserção da competição.

Na campanha, o jogo contra o Brasil foi muito disputado. Descreveu-o Uder: "Nós nos conhecíamos muito e realmente o time brasileiro era muito duro". Nesta noite, Furlong desequilibrou, anotando 15 dos 40 pontos argentinos, que venceu por 40 x 35. Nas palavras do treinador: "Furlong não era um superdotado fisicamente, era nosso pivôt e jogador mais alto, com apenas 1,92 mestro, mas era muito inteligente e driblava com uma qualidade soberba". Todo ataque passava por Oscar Furlong, que além de pontuar, também distribuía assistências muito bem, e quem aproveitava bem era Uder, o melhor arremessador do time e, provavelmente, também o melhor reboteiro e melhor defensor, que assim testemunhou: "Havíamos treinado muito o bloqueio nos rebotes defensivos, para poder sair rápido em contra-ataque, ou nos complicávamos, e neste papel eu aparecia em minha especialidade". Depois do Brasil, veio o duelo contra o Chile, mas os chilenos eram ainda mais baixos que os argentinos, e não tiveram qualquer chance de lhes fazer frente. Depois de voltar a superar a França, chegou a hora da final contra os EUA.

O time dos Estados Unidos que disputou o Mundial de 50 era formado, todo ele, pelos jogadores do Denver Chevrolets, equipe que havia sido a campeã no ano anterior da AAU - Amateur Athletic Union - principal liga de jogadores amadores dos Estados Unidos. É sempre bom lembrar que até 1991 a Seleção de Basquete dos Estados Unidos sempre foi composta por jogadores universitários. E é preciso reforçar também que o país sempre mandou suas seleções de basquete mais fortes para as Olimpíadas, e não para o Mundial, o que se manteve como uma característica mesmo após a adoção de equipes com jogadores profissionais da NBA, a partir de 1992.

O plantel dos EUA era formado por Bob Fisher, Bryce Heffley, Thomas Jaquet, Dan Kahler, John Langdon, Les Metzger, J.L. Parks, Jimmy Reese, Don Slocum, Blake Williams e John Stanich, este último tendo sido único a ser escolhido para figurar no Quinteto Ideal daquele Mundial, que ainda teve aos argentinos Oscar Furlong e Ricardo González, a um chileno (Rufino Bernedo) e a em espanhol (Álvaro Salvadores). A seleção dos Estados Unidos era a mais alta da competição, com todos os seus jogadores superando a 1,82 metros de altura. Seu técnico era Gordon Carpenter, também treinador dos Chevrolets. O time norte-americano conseguiu cinco vitórias e ainda não havia perdido até enfrentar aos argentinos, tendo superado a Chile (37-33), Egito (34-32), Brasil (45-42), Chile de novo (44-29) e França (48-33).

Sob este contexto, EUA e Argentina entravam em quadra para disputar a final. O quinteto alvi-celeste era liderado por Ricardo Primitivo González, o capitão daquela seleção. Em quadra, todas as lembranças são do homem muito competitivo, mas de temperamento amável e didático. Solidário, talentoso e com as metas da equipe acima das suas metas pessoais. Ele vestiu as camisas do Deportivo Buenos Aires, do Añasco, do Gimnasia y Esgrima de Vélez Sarsfield e do Palermo. Emergiu como um grande talento no Campeonato Sul-Aamericano de 1947, disputado no Rio de Janeiro, e depois nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948.

Ricardo González

O capitão González não fez menos de 7 pontos em nenhum dos seis jogos do Mundial, e em dois deles alcançou a marca de 15 pontos convertidos. "El Negro", como todos lhe chamavam, jogou pela Seleção da Argentina até 1955. González tinha 31 anos e muito mais basquete para oferecer, mas uma das páginas mais escuras da história argentina recaiu sobre ele e seus companheiros. A Ditadura Militar autoproclamada "Revolução Libertadora" emergiu em 1955 e tomou o poder, e para esmagar o Partido Justicialista e tudo que tivesse relação com Juan Domingo Perón, também proibiram a todos aqueles que haviam tido qualquer relação com sua ideologia política. Uma grande quantidade de desportistas ficou proibida de atuar, entre eles, os campeões do mundo liderados por González. Nas palavras do capitão: "Nosso único delito foi haver jogado basquete", declarou certa vez em uma entrevista ao "Equipo DeporTEA". E mesmo tendo sido campeões de 1950!


Ao lado de Ricardo González, brilhava Oscar Furlong, o primeiro MVP do basquete mundial. Ele foi o herói que mudou a partida final, que começou com os "ianques" dominando o jogo à base de seus centímetros a mais. A mudança começou a partir da entrada em quadra de Del Vecchio (que fez 14 pontos naquele jogo), foi ele quem rompeu a parcimônia do quinteto alvi-celeste e lhe deu outra cara, passando sua equipe a ter um domínio que não havia conseguido previamente, liderada em pontuação por Oscar Furlong, que fez jus à escolha que estava por vir de melhor jogador em quadra, após anotar 20 pontos. Ele terminou como o máximo pontuador da equipe na competição, com 67 pontos, três a mais do que Ricardo González (64 pontos). Eles foram os dois grandes heróis do time argentino de 1950. Curiosamente, Oscar Furlong posteriormente mudou de esporte, passando ao tênis, e tendo se convertido em técnico/capitão do time da Argentina que alcançou a Semi-final da Copa Davis de 1977, no qual jogavam Guillermo Vilas, Ricardo Cano e José Luis Clerc.

No basquete, com a Seleção da Argentina, além daquela Medalha de Ouro no Mundial de 50, Furlong e González lideraram o time na obtenção das Medalhas de Prata nos Jogos Pan-Americanos de 1951 (Argentina) e 1955 (México), e participaram dos Jogos Olímpicos de Londres 1948 e Helsinki 1952.


Luna Park, tarde de 3 de novembro de 1950. Pela Avenida Corrientes circulavam em ambos os sentidos milhares de carros com trabalhadores que deixavam sua jornada laboral. A hora prevista para o início da partida é 22 horas, mas às 7 horas o Luna já está lotado de gente. Segundo diz a lenda, havia mais de 20.000 pessoas dentro do ginásio. Era tanta gente que nem os jogadores argentinos, que chegavam desde sua concentração no Club Atlético River Plate, puderam descer comodamente até os vestiários.

Nas palavras de Juan Carlos Uder: "Era impressionante. Quando chegamos ao Centro, já nos deparamos com uma enorme quantidade de pessoas que não haviam conseguido entrar no ginásio. Não conseguíamos descer do ônibus. A polícia teve que interceder e fazer com que nosso ônibus ficasse com a porta colada à de entrada do Luna". Não cabia mais uma alma no Luna Park.

Nas palavras de Menini: "Vou ser um pouco soberbo, mas sempre é dito que aquele jogo foi definido pelo Del Vecchio no segundo tempo, e está certo, mas também com a minha entrada aconteceu algo parecido no primeiro tempo. A partida estava apertada, e quando eu entrei colocamos 10 pontos de diferença".

Final do Mundial de 1950 no Luna Park, em Buenos Aires

Depois de vencer o 1º tempo por 34-24, a Argentina viu aos Estados Unidos se aproximarem no placar no 2º tempo, aproveitando-se da maior estatura de sua equipe (tinham quatro jogadores com mais de 1,95 metro), até conseguir colocar 40-37 a seu favor. Canavesi mandou então para a quadra o jogador mais fora do padrão que tinha no banco de reservas, um garoto da cidade de Rosário, Hugo Del Vecchio. Nas palavras do próprio treinador: "Del Vecchio tinha uma grande facilidade para pontuar em contra-ataque ou com dribles, mas fazia tudo ao contrário do que os livros recomendavam". O certo é que, com sua entrada, a Argentina liquidou o jogo na segunda metade do segundo tempo. Del Vecchio anotou 14 pontos que acabaram com qualquer sofrimento até o fechamento da partida em 64-50. A Argentina ganhou da linha de lances-livres (meteu a mesma quantidade de pontos em lances-livres que em arremessos de quadra, graças às 38 faltas cometidas pelos EUA) e frente a um rival que terminou com 4 jogadores em quadra, pois teve 8 eliminados com 5 faltas.

Quando o sinal soou, todas as luzes do ginásio se acenderam, e a multidão invadiu a quadra. Celebrada a festa na quadra e no vestiário, quando o ônibus com os campeões deixou ao Luna Park e subiu à Rua Corrientes, as pessoas saíam dos bares, dos teatros e das confeitarias para saudar a passagem dos campeões. Alguns levantavam seus copos, outros incendiavam os jornais da tarde em forma de tochas para demonstrar sua gratidão. Ali nasceu a "Noite das Tochas", como ficou sendo lembrada. A festa dos campeões foi no restaurante El Tropezón, em Callao 200, um lugar famoso a ponto de estar numa letra de tango cantada por Carlos Gardel. Os jogadores permaneceram lá até o amanhecer. Os heróis "Negro" González, "Balazo" Del Vecchio, "Pichón" Contarbio, "Flaco" Furlong, "Riojano" Bustos, "Buscapé" Pérez Varela, "Cuasimodo" Viau, "Garufa" Menini, "Cabeza" Uder... o primeiro fato mítico da história do basquete argentino.


Síntese de todos os jogos da Argentina no Mundial de 1950:

Argentina 56 – França 40 (23 de outubro)
Parciais: 30 x 17 / 26 x 23 (56 x 40)
Argentina: Del Vecchio (0), Contarbio (14), Pérez Varela (2), Liva (0), Furlong (12), Viau (4), Menini (5), González (13), Uder (3), Monza (0) e López (3).
França: Perrier (10), Swidzinski (2), Perniceni (0), Guillou (2), Marsolat (0), Salignon (3), Marcelot (7), Desaymonet (0), Dessemme (14), Vacheresse (2), Chalifour (0) e Monclar (0).

Argentina 40 – Brasil 35 (28 de outubro)
Parciais: 22 x 21 / 18 x 14 (40 x 35)
Argentina: Bustos (0), Contarbio (8), Pérez Varela (2), Furlong (15), Viau (0), Menini (7), González (7), Uder (2) e López (1).
Brasil: Pereira (2), Meyer (5), Motta (1), Acevedo (8), Freitas (5), Macedo (0), Giménez (0), Monteiro (5), Gemignani (6), Márquez (1) e Bonfietti (2).

Argentina 62 – Chile 41 (30 de outubro)
Parciais: 36 x 17 / 26 x 24 (62 x 41)
Argentina: Bustos (0), Del Vecchio (7), Contarbio (9), Pérez Varela (7), Liva (0), Furlong (5), Viau (7), Menini (4), González (15), Uder (0) e López (8).
Chile: Gallo (3), Munos (7), C. Fernández (2), Mahana (5), Figueroa (0), L. Fernández (3), Bernedo (3), Zavala (13), López (0), Sánchez (5) e Ostoic (--).

Argentina 66 – França 41 (31 de outubro)
Parciais: 38 x 19 / 28 x 22 (66 x 41)
Argentina: Bustos (4), Del Vecchio (10), Contarbio (4), Pérez Varela (5), Furlong (12), Viau (6), Menini (6), González (7), Uder (6), Monza (2) e López (4).
França: Perrier (9), Swidzinski (4), Guillou (0), Marsolat (7), Salignon (12), Marcelot (5), Desaymonet (0), Dessemme (3), Chalifour (0) e Monclar (1).

Argentina 68 – Egito 33 (1 de novembro)
Parciais: 35 x 15 / 33 x 18 (68 x 33)
Argentina: Bustos (3), Del Vecchio (5), Contarbio (1), Pérez Varela (6), Liva (2), Furlong (3), Viau (8), Menini (4), González (15), Uder (11), Monza (8) e López (2).
Egito: Tadrous (5), Hafez (5), Catafogo (2), El Khein (0), Haff (5), Saleh (2) e Mohammed (14).

Argentina 64 – Estados Unidos 50 (3 de novembro)
Parciais: 34 x 24 / 30 x 26 (64 x 50)
Argentina: Bustos (1), Del Vecchio (14), Contarbio (8), Pérez Varela (4), Furlong (20), Viau (2), Menini (7), González (7), Uder (1), Monza (0) e López (0).
Estados Unidos: Slocum (8), Langdon (6), Stanich (11), Reese (3), Kahler (5), Metzger (3), Parks (2), Jacquet (2), Fisher (0), Heffley (6) e Williams (4).



Fonte: BasquetPlus