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domingo, 31 de agosto de 2025

Origens e heranças deixadas pela Geração Dourada da Argentina


No dia 28 de agosto de 2004, a Seleção Argentina de basquete masculino conquistou a Medalha de Ouro Olímpica, naquele que constitui um dos sucessos esportivos mais importantes da história do esporte argentino, e um dos maiores feitos da história do esporte mundial. Poucas horas antes, a seleção masculina de futebol, a maior paixão nacional dos argentinos, também havia conquistado uma medalha de ouro. O país estava em êxtase naquele momento inesquecível!


A história daquela conquista inicia-se, de certa forma, dois anos antes, no Campeonato Mundial de 2002, quando o time de basquetebol masculino da Argentina começou a mudar a história do basquete mundial para sempre. Na Copa do Mundo de Indianápolis, a Seleção Argentina enfrentou à invicta Seleção dos Estados Unidos da América formada inteiramente por jogadores da NBA, e os derrotou por 87 a 80. Esta vitória, liderada pelos destacados Emanuel Ginóbili, Luis Scola e Andrés Nocioni, foi um marco que quebrou a invencibilidade do 'Dream Team" em competições internacionais desde 1992, ano a partir do qual houve a entrada de jogadores da NBA nos campeonatos do "Mundo FIBA".

A derrota dos Estados Unidos não foi apenas um golpe no orgulho norte-americano, mas também um alerta para o nível crescente do basquete internacional fora da NBA. Como reconheceu o ex-técnico dos Estados Unidos Larry Brown: "Estávamos mais sintonizados e prestando atenção com a Europa, talvez com Itália, Rússia e Iugoslávia. Mas a Argentina? Eu não tinha nenhuma ideia sobre eles. Argentina é futebol". A partir de então a Argentina não seria mais "só futebol", seria também basquete masculino em mais alto nível!

Dois anos depois, nas semi-finais das Olimpíadas de Atenas em 2004, a Argentina derrotou novamente aos Estados Unidos, desta vez por 89 a 81, provando de forma definitiva que o que havia acontecido antes não havia sido mero acaso, e assim consolidou seu status como potência do basquete mundial. Manu Ginobili, mais uma vez, foi a estrela do jogo com 29 pontos. A vitória argentina não foi apenas um feito esportivo, mas também uma prova da química e do trabalho em equipe daquela geração.

Ginóbili vs LeBron James em Atenas 2004

A edição de 2004 dos Jogos Olímpicos estava, como sempre, repleta de grandes estrelas do basquete mundial. É muito válido relembrar a algumas delas: sem dúvida uma das grandes estrelas, e quem mais dominou em termos de pontos, foi o espanhol Pau Gasol. Naquela época ele jogava pelo Los Angeles Lakers e acabou com média de 22,4 pontos por jogo. O outro espanhol que também pode ser destacado naquela edição foi o armador Juan Carlos Navarro, que fez um bom torneio numa Seleção Espanhola que terminou na 7ª posição.

Talvez o jogador mais marcante de Atenas 2004, no entanto, era o chinês Yao Ming, que chegou com seus 2,29 metros e tudo para ser a grande sensação da competição. A estrela do Houston Rockets terminou com 20,7 pontos por jogo numa equipa que terminou em 8º lugar na competição.

A tradicional e sempre difícil Lituânia tinha 2 grandes pilares ao longo da competição em que terminou em 4º lugar, perdendo a possibilidade de levar o bronze frente aos Estados Unidos. De um lado estava Arvydas Macijauskas, que somou 15,9 pontos por jogo, e também se destacou Saras Jasikevicius, que marcou 14,1 pontos em média.

Outras estrelas que apareceram em Atenas foram Dejan Bodiroga que enfrentou a Argentina por Sérvia e Montenegro, Gianluca Basile, que era o destaque na vice-campeã Itália, e Papadopoulos na anfitriã Grécia, que também contava com o jovem Vassilis Spanoulis, que viria a ser um dos maiores da história do basquete grego.

Os nomes mais badalados, no entanto, sem dúvida, estavam no "Team USA", que embora não estivesse com alguns dos grandes nomes da NBA naquele momento, contava com grandes figuras da melhor liga do mundo, como LeBron James, Allen Iverson, Tim Duncan, Carmelo Anthony e Dwyane Wade, que eram os nomes mais notáveis carregados pelo time favorito de todas as Olimpíadas desde 1992.


No fim, quem mais brilhou foi o eterno Manu Ginobili, que terminou com 19,3 pontos por jogo, além de outro que teve ótima média de pontos, Luis Scola, com 17,6 por partida. Mas o destaque argentino não eram suas individualidades, a equipe se destacou pelo impecável trabalho coletivo realizado e pela compreensão dos papéis de cada uma das partes dentro de quadra. Cada um também entendeu que mesmo não sendo protagonista, poderia ser decisivo em determinados momentos ou partidas da competição, como Walter Herrmann contra a Grécia. Como resultado do impactante desempenho daquela geração de argentinos no basquete, no total foram 8 jogadores daquele time que conquistou a Medalha de Ouro em Atenas 2004 que pisaram e puderam jogar na NBA, maior liga profissional de basquete do planeta. E abriram portas, pois na sequência destes oito, viriam também a passar pela NBA outros como Pablo Prigioni, Facundo Campazzo, Nicolás Laprovíttola, Nicolás Brussino, Gabriel Deck e Leandro Bolmaro, nomes que tiveram aquela geração como referência, não só técnica, como de mentalidade. Definitivamente lhes plantou a afirmação: "Sim, se pode!". Isto deveu-se, sem dúvida, à barreira que a Geração Dourada conseguiu quebrar. Mais uma conquista deste grupo de jogadores extraordinários.



A IMPORTÂNCIA DA LIGA ARGENTINA PARA A GERAÇÃO DOURADA

A Liga Argentina os formou, a Europa terminou de lapidá-los: aonde treinaram e estrearam os jogadores da Geração Dourada? Todos eles passaram pela Liga Nacional da Argentina antes de irem para a Europa ou para a NBA, onde terminaram de ser formados a nível técnico mundial.


Começando pelos armadores, Pepe Sánchez passou duas temporadas na Liga antes de ir para a NCAA, liga universitária dos Estados Unidos. O armador jogou pelo Deportivo Roca e pelo Estudiantes de Bahía Blanca entre 1994 e 1996, completando 106 partidas no total. A partir daí foi para o basquete universitário aos 19 anos, sendo um dos dois primeiros argentinos na NBA. Depois desenvolveu a maior parte de sua carreira na Europa, vencendo a Euroliga com o Panathinaikos e a Liga ACB, da Espanha, com o Unicaja Málaga, além de passar por Real Madrid e Barcelona.

Ale Montecchia, por sua vez, desde sua estreia em 1990 até 1999 foi uma figura de destaque na Liga Argentina. Disputou 442 partidas por Sport Club de Cañada de Gómez, Olimpia de Venado Tuerto e uma última temporada no Boca Juniors, vencendo uma Liga Nacional e uma Liga Sul-Americana. Do Boca foi para o Velho Continente aos 27 anos, onde jogou entre Itália e Espanha por Reggio Calabria, Pamesa Valencia e Armani Olimpia Milano até 2006.

Hugo Sconochini passou quase toda a sua carreira na Europa, mas os primeiros dois anos foram na Liga Argentina. Foi jogador juvenil do Sport Club de Cañada de Gómez em 1988 e 1989, completando 34 partidas da Liga. De lá foi para Reggio Calabria, da Itália, aos 19 anos, e depois passou por Olimpia Milano, Virtus Roma, Panathinaikos, Kinder Bologna, Tau Cerámica e Piacentina.

Manu Ginóbili teve seu grande desenvolvimento em três temporadas na Liga Argentina. Entre 1995 e 1998 disputou 126 partidas, a primeira temporada no Andino de La Rioja, e as duas seguintes no Estudiantes de Bahía Blanca, onde demonstrou todo o seu crescimento, alcançando média de 24,9 pontos por partida em 1997/98. Nesse contexto foi eleito Melhor Estreante e Maior Evolução. Ele então se mudou para Reggio Calabria, da Itália, aos 20 anos, depois ganhou tudo no Kinder Bologna e se tornou uma lenda, ganhando quatro anéis da NBA com o San Antonio Spurs.

Carlos Delfino era o mais jovem em Atenas 2004 e tinha disputado apenas uma temporada e 14 jogos da Liga Argentina. Esteve no Libertad Sunchales em 1998/99, depois transferiu-se para o Unión de Santa Fé, na Liga B (2ª Divisão), e finalmente aterrou em Reggio Calabria, no Velho Continente, antes de completar 18 anos. A partir daí brilhou no Fortitudo Bologna e jogou 8 temporadas na NBA.

Andrés Nocioni foi outro que se destacou antes de deixar a Liga Argentina. Depois de estrear no Racing e jogar no Olimpia de Venado Tuerto, foi fundamental no Independiente de General Pico, onde foi vice-campeão e disputou 175 jogos. Do Olimpia foi para a Tau Cerámica, da Espanha, aos 20 anos, para ter uma carreira lendária na Europa e ser figura no Chicago Bulls na NBA.

Walter Herrmann estreou no Olimpia de Venado Tuerto e só saiu depois de vencer a Liga com o Atenas de Córdoba, sendo o MVP. Disputou 243 partidas na Liga. Então seguiu para o Fuenlabrada, da Espanha, aos 23 anos, para mais tarde se tornar figura e campeão da Liga ACB pelo Unicaja Málaga e depois chegar à NBA.

Rubén Wolkowyski foi um caso único até aquele momento, pois brilhou na Liga Argentina e depois foi direto para a NBA, tornando-se o primeiro argentino por lá junto com Pepe Sánchez quando tinha 27 anos. Desde sua estreia em 1993 pelo Quilmes até a temporada 1999/00 pelo Estudiantes de Olavarría, disputou 359 partidas, também atuando no Boca Juniors, e tendo sido campeão e MVP da Liga.

Luis Scola brilhou em três temporadas com 101 jogos pelo Ferro Carril Oeste entre 1995 e 1997, já com contrato assinado com o Saski Baskonia, da Espanha. Foi para a Espanha aos 18 anos e brilhou no Velho Continente, chegando então à NBA. Foi o inevitável "Grande Capitão" da Seleção Argentina.

Gaby Fernández foi peça-chave na reposição de garrafão da Geração Dourada. De 1995 a 2001 jogou por Ferro Carril, Boca Juniors e Estudiantes de Olavarría, tendo sido campeão da Liga e disputado 296 partidas. Aos 25 anos foi jogar na França e depois teve grande evolução, primeiro na Espanha pelo Tau Cerámica e depois na Itália pelo Varese.

Fabricio Oberto dominou a Liga entre 1993 e 1998 como pivô do Atenas de Córdoba, sendo parte daquele "time grego" que dominou e é considerado um dos melhores da história da Liga, varrendo o Boca na final e sendo eleito MVP. No total disputou 217 partidas pelo time de Córdoba até ir para o Olympiacos aos 22 anos. Ainda passou com destaque por Tau Cerámica e Pamesa Valencia, na Espanha, antes de ganhar um anel de Campeão da NBA ao lado de Manu Ginóbili no Spurs em 2007.

Por fim, para se falar de um homem da Liga Nacional, deve-se falar de Leo Gutiérrez. Em 2004 foi o único representante da competição local na equipe de Rubén Magnano em Atenas. Na Liga Argentina brilhou como o jogador mais vencedor da história. Antes disso, ele havia ido para a Europa em 2002, aos 24 anos, para o LEB Oro (2ª Divisão da Espanha), embora depois de uma temporada tenha retornado à Liga e continuado a deixar sua marca em sua terra.



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quinta-feira, 17 de abril de 2025

Reflexões sobre a derrocada do Basquete Argentino entre 2023 e 2024


Artigo escrito por Fabián García, e publicado em 28 de fevereiro de 2024 no site Basquet Plus sob o título "Reflexionando sobre la realidad de Argentina, hoy". Abaixo a reprodução traduzida do artigo original, acrescida das fichas dos respectivos jogos mencionados:



A partida perdida para o Chile exacerbou a sensação de que está tudo ruim, quase um ano exato depois da derrota perante a República Dominicana. Tentamos analisar as causas e a situação. Os jogadores argentinos, decepcionados com a derrota, hoje sentem uma enorme pressão.

Em 26 de fevereiro de 2023, uma ducha de água fria desmoronou sobre os entusiastas seguidores e torcedores do basquete argentino. Doze minutos fatídicos de fechamento tinham provocado a derrota mais dura em muitos anos, como mandante, frente a um rival supostamente inferior (Rep. Dominicana), como consequência a Argentina ficava, pela primeira vez em 41 anos, fora de um Campeonato Mundial de Basquete (e eram 7 vagas das Américas, que ficaram com: Canadá, Estados Unidos, Porto Rico, República Dominicana, México, Venezuela e Brasil). O golpe foi duríssimo, mas não foi o último.

Eliminatórias das Américas para a Copa do Mundo de 2023
26/02/2023 - ARGENTINA 75 x 79 REPÚBLICA DOMINICANA - Ginásio Polidesportivo Ilhas Malvinas, Mar del Plata, Argentina
Parciais: 24 x 19 / 18 x 16 (42 x 35) / 22 x 19 (64 x 54) / 11 x 25 (75 x 79)
ARG: Facundo Campazzo (10), Nicolás Laprovittola (10), Nicolás Brussino (7), Gabriel Deck (27) e Marcos Delia (10). Téc: Pablo Prigioni. Banco: Carlos Delfino (2), Maximo Fjellerup (0), Leandro Bolmaro (3), Juan Pablo Vaulet (0), Patricio Garino (3) e Tayavek Gallizzi (3).
DOM: Jean Montero (22), Gerardo Suero (13), Andres Feliz (11), Angel Delgado (7) e Eloy Vargas (6). Téc: Néstor "Che" Garcia (argentino). Banco: Rigoberto Mendoza (5), Victor Liz (8), Juan Suero (2), Gelvis Solano (2), Antonio Pena (3), Juan Guerrero (0) e Jhonatan Araujo (0).





O Elenco Argentino 2023
Armadores: Facundo Campazzo (Estrela Vermelha, Sérvia), Nico Laprovittola (Barcelona, Espanha), Maximo Fjellerup (Girona, Espanha) e Carlos Delfino (Pesaro, Itália)
Alas: Gabriel Deck (Real Madrid, Espanha), Marcos Delia (Wolves, Lituânia), Nico Brussino (Gran Canaria, Espanha), Pato Garino (Girona, Espanha), Juan Pablo Vaulet (Manresa, Espanha) e Leandro Bolmaro (Salt Lake City Stars, G-League, EUA)
Pivô: Tayavek Gallizzi (Instituto de Córdoba)



Em agosto de 2023, outra vez como mandante (antes em Mar del Plata, agora em Santiago Del Estero), um time de Bahamas fortalecido como nunca por 3 de seus jogadores de NBA, vencia duas vezes a Argentina e lhe tirava a última chance de ir aos Jogos Olímpicos de Paris de 2024, após cinco participações consecutivas (2004, 2008, 2012, 2016 e 2021). A sensação, muito argentina, foi a de que se desmoronava o mundo em cima. 

Em 16 de agosto de 2023 a Argentina perdeu para Bahamas por 89 x 101 no Ginásio Cidade de Santiago Del Estero. O grupo tinha três, e dois avançavam ao Quadrangular Final. A partida decisiva deste quadrangular voltou a colocar Argentina e Bahamas frente a frente, no mesmo local, em 20 de agosto daquele ano. Desta vez, quem perdesse estava fora. Bahamas voltou a vencer.

Pré-Olímpico das Américas para as Olimpíadas de 2024
26/02/2023 - ARGENTINA 75 x 82 BAHAMAS - Ginásio Cidade de Santiago Del Estero, Santiago Del Estero, Argentina
Parciais: 26 x 22 / 16 x 20 (42 x 42) / 21 x 17 (63 x 59) / 12 x 23 (75 x 82)
ARG: Facundo Campazzo (14), Carlos Delfino (15), Nicolás Brussino (5), Gabriel Deck (21) e Francisco Cáffaro (4). Téc: Pablo Prigioni. Banco: Lucio Redivo (6), Maximo Fjellerup (0), Patricio Garino (2) e Juan Fernández (8).
BAH: Travis Munnings (16), Lourawls Nairn (0), Buddy Hield (15), Eric Gordon (27) e Deandre Ayton (10). Téc: Christopher Demarco. Banco: Franco Miller (9), Garvin Clarke (0), Kentwan Smith (5), David Nesbitt (0) e Jaraun Burrows (0).





Isso voltou a acontecer em 2024 com a queda perante o Chile como visitante pelas Eliminatórias para a Copa América de 2025, ainda que não tenha sido uma derrota causadora de eliminação alvi-celeste. Era um rival que não vencia à Argentina no basquete desde 1955. Duro!



Eliminatórias para a Copa América 2025
25/02/2024 - ARGENTINA 77 x 79 CHILE - Coliseu Municipal Antonio Azurmendy Riveros, Valdivia, Chile
Parciais: 11 x 26 / 31 x 27 (42 x 53) / 18 x 6 (60 x 59) / 17 x 20 (77 x 79)
ARG: Facundo Campazzo (16), Leandro Bolmaro (12), Nicolás Brussino (11), Gabriel Deck (20) e Marcos Delia (6). Téc: Hermán Mándole. Banco: Juan Marcos (3), Gonzalo Corbalán (2), Lucio Redivo (0), Juan Fernández (7) e Gonzalo Bressan (0).
CHL: Franco Morales (17), Darrol Jones (8), Sebastián Herrera (8), Manuel Suárez (29) e Felipe Haase (7). Téc: Juan Córdoba. Banco: Sebastián Carrasco (5), Felipe Inyaco (3), Carlos Lauler (0), Ignácio Carrion (2) e Aitor Pickett (0).





Há uma causa para tudo isso? Não, são muitas, e de diversas índoles e origens. Não estão ordenadas por importância. São aleatórias.

1. O DESAFIO

Em primeiro lugar, não se pode deixar de dizer que a Argentina viveu um conto pouco comum com sua Geração Dourada. A equipe se despediu nas Olimpíadas Rio 2016 depois de 15 anos de sonhos cumpridos, tendo esticado cinco mais de vida pela permanência de Luis Scola na seleção (ressaltando que Carlos Delfino segue em atividade e esteve nestas partidas de 2023 e 2024).

Não havia lógica, ainda mais sendo a Argentina, em pensar que o choque do fim de tal geração não seria sentido em algum momento. Não queremos entrar em terrenos escorregadios, mas muitas vezes vemos que os argentinos acreditam serem diferentes do resto do mundo, que podem mudar um país sem modificar seus comportamentos, que podem passar de um time de ouro a outro de ouro simplesmente porque sim, como se fosse destino... Para este tipo de raciocínio, embora tudo tenha sido festejado como merecia - e talvez o vice-campeonato mundial de 2019 não tenha ajudado - uma geração de ouro não substituiria a outra de ouro porque é assim que as coisas são. Não foi assim. Nem será assim. Todas as grandes gerações da história do basquete (Brasil, Porto Rico, Iugoslávia, Croácia, Rússia e agora Espanha) tiveram lacunas na sua história, porque isso não aconteceria com a Argentina, que nunca foi sequer uma potência no basquete?

Hoje nos espera o mundo inteiro
não é para menos, a coroação
brota o encanto do solo prateado
e não venha até mim com contos raros,
que Che, Gardel ou Maradona,
são os número um, assim como sou eu
e argentino eu sou, graças a Deus
(La Argentinidad al Palo, de Bersuit)

E isso se espalhou muito rápido entre as pessoas, que ainda não perceberam o que aconteceu e pensam que, por terem três jogadores na Euroliga, o Chile tinha que ser esmagado. E antes para a República Dominicana e depois para Bahamas. Isso fez com que, pela primeira vez em nada menos que 30 anos, o time pareça em dívida e os jogadores sintam isso. Desde a Década de 1990 não víamos um time tão pressionado para vencer. Emocionalmente a equipe está sofrendo, e isso fica evidente sempre que faz um jogo de "não pode perder". Bem, ele perdeu todos os três jogos. A quantidade de atrocidades que foi dita nas redes não tem fundamento. Nem aconteceu quando a Argentina ficou de fora pela primeira vez de uma semifinal importante, na Turquia em 2010, sendo arrasada pela Lituânia, ou quando não passou das oitavas de final da Copa do Mundo seguinte, na Espanha. Mesmo com alguns "GDs" na equipe. A tolerância, rara na Argentina, já não existe mais.


2. A CHEGADA DE FABIÁN BORRO À PRESIDÊNCIA DA CONFEDERAÇÃO

A saída de Scola, e também a de Sergio Hernández, depois de Tóquio, moveram toda a estrutura que vinha funcionando de memória. Todos sabiam como jogava a Argentina, o que pensava Hernández, o que faria a equipe, como se Scola fosse estar sempre para tapar os buracos, etc. Depois de 2021 já não estavam mais os dois líderes. Isto implicou também na saída de um grupo que se havia comprometido muito na gestão de Federico Susbielles, altamente bem avaliada pelos líderes da Geração Dourada desde que em 2014 havia chegado como interventor à CABB de Germán Vaccaro, a quem eles tinham derrubado. Assim terminaram saindo também Silvio Santander, Gabriel Piccato e Maxi Seigorman do corpo técnico, e Facundo Petracci, Sebastián Uranga e outros dos escritórios administrativos. Até Germán Beder, o chefe de imprensa. Entre 2019 e 2021, quase não ficou ninguém da velha administração. De alguma forma, a vitória de Borro (produto em boa medida da desatenção de Susbielles com as províncias que votaram na CABB durante sua campanha política para ser intendente de Bahía Blanca). Algo se rompeu que, estima-se, era a ideia de Luis e do resto. Uma continuidade de Susbielles que permitiria, após a aposentadoria de Scola, a sua chegada à Confederação Argentina para arrancar um plano moderno sob sua liderança. Por isso 2019 é chave nesta história.

Borro, não tão fiel ao seu estilo, embora tenha limpado a CABB do quadro de funcionários que estava praticamente 100%, inicialmente tentou uma convivência amigável com Scola e Hernández, que haviam apoiado publicamente a Susbielles (como Ginóbili e vários outros), e quando veio a saída do Ovelha Hernández, foi para alguém que (digamos honestamente) foi apoiado de forma bastante unânime por treinadores, dirigentes e seguidores do basquete em geral (agora todos dizem que não, mas isso não é surpreendente): Néstor "Che" García. A experiência com o "Che" foi muito ruim. Previsivelmente ruim? Acreditávamos, talvez ingenuamente, que os problemas pessoais de Che seriam superados pelo seu desejo indiscutível de liderar a Argentina. Nós estávamos errados. É claro que não foi Che quem elaborou um plano que tivesse o futuro sem Scola como eixo. Néstor sempre foi bom em campo. Não no planejamento. Nesse aspecto, nunca esteve rodeado de pessoas que tinham um plano como objetivo central. Naquela época, como agora, pensávamos que era necessário um Diretor Esportivo para comandar o navio, como Julio Lamas, também amigo de Che. E inquestionavelmente respeitado pela imprensa, colegas e todos. Mesmo com um passado de sucesso trabalhando com Borro no Obras. Isso não aconteceu. E então o que aconteceu, aconteceu. Che saiu e pela primeira vez em 30 anos, procurou-se um treinador após a demissão do técnico da Seleção Argentina.

Quanto à organização - por decisão própria, por razões econômicas, ou por qualquer outro motivo - o leque de programas que existia, em termos de detecção de talentos, planos de altura e assim por diante, foi quase completamente modificado. E havia consideravelmente menos pessoas trabalhando. Obviamente, nem a pandemia nem a queda acentuada da economia argentina, com a inflação nas alturas, ajudaram. Mas é tudo dinheiro ou recursos? Se tivéssemos que responder rapidamente, diríamos não. Porque senão não se consideraria que vieram 15 jogadores da Europa para a janela contra o Chile (3 da equipe técnico-médica), incluindo caras como Giovannetti, Bocca, Bressan ou Corbalán, que praticamente não jogaram.

É ótimo que você possa começar a conviver com os grandes, mas primeiro você tem que estabelecer as bases de uma estrutura que reúna o plano macro. Insistimos: a Confederação precisa de um Diretor Esportivo, de peso, que reúna quem sabe e entende para criar um plano global, pelo menos, para 10 anos. E um assistente de primeira linha em tempo integral, como o próprio Casalánguida, Santander ou outro (não há muitos com essas características). E com o que acabamos de dizer não se pode citar a falta de dinheiro. A questão é como otimizar o que existe. A Argentina voltará a realizar um período concentrado de treinamentos em Alicante, na Espanha, em julho. Certamente será um grande investimento. Excelente que seja feito. Mas parecem continuar a ser situações aleatórias específicas sem um eixo e um projeto maior.


3. O NOVO TREINADOR

A escolha de Pablo Prigioni não teve muitos adversários ou críticos, embora agora possa parecer que ninguém o apoiou firmemente. A maioria dos seus colegas concordou que ele era uma pessoa qualificada, trabalhando na melhor liga do mundo, jovem, ansioso e com a mente aberta para mudar a equipe para um sistema de jogo que levasse em conta as capacidades atuais da Seleção Argentina. Alguém diferente de seus anteriores. Com Prigioni, pela primeira vez, ocorreu um fato diferente: ele não foi técnico nem na Argentina nem na Europa. E o novo sistema de janelas fazia com que, às vezes, ele não pudesse estar presente. Porém, conseguiu viajar à Argentina em fevereiro de 2023 na decisiva janela contra Canadá e República Dominicana, e depois reunir um único mês de trabalho contínuo que teve desde que assumiu o cargo em 2022, para buscar solidificar sua ideia de jogo que, como se sabe, foca muito no que as estatísticas mostram sobre eficiência de chutes, espaços, etc. Estilo muito NBA e, por enquanto, pouco compreendido ou aceito pelo público argentino. Isso não é culpa de Prigioni, que está convencido não só deste sistema, mas de que ele é o melhor para esta fase da Argentina.

Por outro lado, como Prigioni estava na NBA e não podia estar na janela da Copa América, foi decidido que Herman Muelo, um de seus assistentes, o substituiria. Não foi Leandro Ramella, que liderou a Argentina nos Jogos Pan-Americanos (algo que nunca foi totalmente compreendido se ele não continuasse depois), nem foi Gonzalo García (assinou com a Seleção do Panamá), nem Leo Gutiérrez (ausente há um ano). Mándole é, seguramente, quem melhor se adapta ao estilo que Prigioni quer impor. Na verdade, ele é o primeiro assistente do Varese de Luis Scola, talvez o mais convencido desse sistema. E ao mesmo tempo Nico Casalánguida regressou. Situação estranha e confusa.

A questão é: como montar um projeto com um novo sistema de jogo, com um treinador nos Estados Unidos, outro na Itália e a maioria dos jogadores - todos no caso desta janela - na Espanha (10) e na Itália (2)? Chegam 3 ou 4 dias antes do jogo após uma viagem de 12 horas (mínimo). Não é fácil nem será fácil, e não está claro se existem muito mais opções. Se a Argentina escolheu Prigioni como técnico, sabia que isso iria acontecer. E, nesse caso, foi fundamental ter um primeiro assistente a tempo inteiro, na Argentina, com experiência em organizar e montar todo o trabalho que nem Pablo nem Mándole podem fazer enquanto estiverem na NBA ou na Europa. Planejamento, rastreamento de jogadores, configuração. Agora Nico Casalánguida está de volta, mas em que função enquanto não há competição?

Definitivamente, a Argentina não pode montar uma seleção da Liga Nacional. Não porque não possa competir, por exemplo, nestas janelas de Eliminatórias da Copa América, mas porque não teria muita utilidade no futuro. Pode, claro, incluir promessas jovens (ou não tão jovens), ou até mesmo acrescentar algumas que atuam na região. Exemplos: Bautista Lugarini, Franco Baralle, José Vildoza, Agustín Barreiro. O que está claro é que, como nunca antes, a Argentina tem quase todos os seus talentos no exterior: veteranos, médios e jovens. Algo como acontece com poucos no mundo, basicamente só em países africanos. Aqui as debilidades macroeconômicas do país cobram a sua conta, com uma grande evasão de talentos, muitos atuando no Brasil e no Uruguai.

Faz menos de um ano e estava no papel a possibilidade de se aproximar de alguém que há anos está muito envolvido em todas essas questões, como é Silvio Santander. Ou, pelo menos, era nisso que se acreditava. Mas a oferta formal nunca chegou. Todos sabemos que a Confederação não dispõe de grandes recursos e que muitas coisas são pagas via Enard, como toda a logística interna dos dois jogos de Mar del Plata e do Chile (viagens e hotéis). Este último, com a eleição de Javier Milei, teremos que ver se permanecerá o mesmo. Eles dizem que sim. Vamos ver. De resto, não é preciso ser muito inteligente para acreditar que é preciso otimizar ao máximo o que está disponível e, para isso, é fundamental uma estrutura de pessoas que o CABB não tem hoje. Já não há talento suficiente, por isso todo o resto deve ser potencializado.


4. O FATOR SCOLA

Luis Scola é uma questão central nesta história. Não é fácil medir o aspecto mais difícil desta queda esportiva que foi a aposentadoria de Luis Scola. Sempre se suspeitou, e acabou se confirmando, que seria mais difícil para a Argentina substituir a Luis do que a Manu Ginóbili. E foi assim. Devido às características do jogador, Manu pode estar oculto. Scola não. E Luis Scola foi o eixo central da Argentina durante quase 25 anos. A era moderna e de sucesso do país no basquete. A Argentina jogou de certa forma porque tinha Scola. Mesmo na Copa do Mundo de 2019, com Luis já funcionando como um quatro mais moderno, com chute de três pontos, em um ambiente mais dinâmico. Mas também gerando situações perto da cesta.

De qualquer forma, a saída de Luis não só mudou 180 graus o sistema de jogo da Argentina, mas também algo muito mais importante: o líder saiu dentro e, principalmente, fora de quadra. Aquele que exigiu que todos se comprometessem, aquele que esteve atento ao comportamento do grupo, aquele que pressionou as lideranças para que as concentrações fossem as melhores possíveis, aquele que até conseguiu que as equipas da NBA emprestassem condições facilitadas. A Argentina perdeu num piscar de olhos, com tudo o que se pode discutir com o Luis sobre ideias e métodos, o cara que administrou absolutamente tudo. As três vertentes da questão: a esportiva dentro de quadra, a esportiva-organizacional fora e a organizacional pós-aposentadoria na extremidade. Ele era o único que poderia fazer isso? Todas as três coisas juntas, sim.

A nova Argentina, além disso, não tem líderes. E isso não é uma crítica. Campazzo, Lapro, Deck, Brussino, Delía, para citar os históricos, têm ascendência sobre os companheiros, mas isso é outra coisa. Na verdade, nenhum deles também está como líder em suas equipes. Facu Campazzo comandou o Real Madrid, assim como a seleção, em quadra, mas ao lado dele havia Llull, Rudy, Chacho, como líderes da equipe. Mais vocais. Deck é o tenente ideal dessa mesma equipe. Calmo e submisso. No Barcelona agora não há muitos, porque precisamente esses jogadores não fechavam muito com Jasikevicius, e embora o lituano tenha saído, há uma liderança bastante horizontal, com muitos na fila: Vesely, Kalinic, o próprio Lapro... mas não muito marcada. Os demais são importantes no seu elenco, mas não são líderes.


5. O PLANO

A mãe de todas as batalhas: se tivéssemos que fazer uma definição curta da Argentina seria "um país sem plano". Com boas intenções algumas vezes, outras não muito claras, mas com uma componente cultural de resolver as coisas com o sistema do "veremos mais tarde". Um dia para a esquerda, no dia seguinte para a direita, acelerando muitas vezes nas curvas. Chegue ao destino rapidamente, pois não dá tempo. A teoria é que na Argentina em geral não existe um plano porque a maioria não resiste à espera pelos resultados de um plano. Processos de médio e longo prazo, conforme exigido até o final da Geração de Ouro. Vamos ser honestos: a Geração Dourada não foi produto de um plano. Precisamente, foi mais um milagre argentino, cuja semente de origem foi o único processo que poderia ser considerado um plano, de altíssimo impacto, como a Liga Nacional, que por sua vez foi favorecida por diferentes marés (Lei Bosman, etc) que convergiram em uma equipe mágica. A tempestade perfeita. Mas não era um plano. Saiu assim. Ou melhor, eram planos dos seus treinadores em cada processo (Vecchio, Lamas, Magnano, Hernández), e não da liderança. E um dia acabou.

A situação é extremamente complexa. Não é dramático. A Argentina tem muitos pontos positivos para tentar voltar a ser competitiva a nível internacional. Continua a revelar talento, continua a ter jogadores com carácter especial para jogar, continua a ter excelentes treinadores. Mas não tem uma direção clara. Para sair dessa situação de origem multifatorial, quem entende diz que a primeira coisa é ter um bom diagnóstico e depois saber lidar com isso. Caso contrário, as coisas provavelmente acontecerão quase por acaso. E, como sabemos, na maioria das vezes perdemos no acaso.




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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A Revolução do Basquete Argentino


A segunda colocação da Argentina no Mundial de Indianápolis em 2002 surpreendeu o mundo do basquete internacional, e transformou o basquete numa febre dentro da própria Argentina, fazendo todos buscarem entender o que havia transformado resultados até então bastante medianos a nível internacional naquele sucesso, que se manteve de forma consistente nos anos seguintes. O retrato desta revolução no basquete é contado através de um repasse pela história do basquete na Argentina.

O técnico León Najnudel detestava escutar a um colega treinador pregar como um autoelogio: "Eu fiz o fulano". Agarrava então à sua inseparável e volumosa carteira e buscava as fotos de seus filhos - Nicolás e Iván - para ironizar: "Eu somente fiz a estes dois na minha vida. Todo o resto é uma grande mentira, porque nenhum treinador produz a um jogador de basquetebol".

Sua sútil reação estava relacionada diretamente com o conceito que ele ensinava: "Um jogador é filho de três fatores, segundo sua ordem de incidência: 1) suas aptidões potenciais (o que traz desde o berço); 2) o meio entorno no qual compete; e 3) a influência de seu treinador".

Foi sobre esta definição que se sustentou a criação da Liga Nacional da Argentina. León destacava que "depois do inato, vem a importância da qualidade da competição interna como o mais decisivo para o crescimento técnico; além de sempre ter entendido e repetir que os jogadores argentinos estavam muito dispersos por todo o país, o que fazia que não pudessem competir entre os melhores e contra os melhores, não havia quantidade nem qualidade de competição". Compartilhou esta ideia com José Maria Félix "Yo­yo" Cavallero, treinador e amigo, que trazia uma experiência no basquete da Espanha nos Anos 1970.

Assim lançaram a Liga Nacional numa sexta-feira, 17 de setembro de 1982, em Buenos Aires, numa iniciativa da Revista El Gráfico. Proposta: "revolucionar o basquetebol argentino". A aprovação na Confederação Argentina de Basquete foi conseguida por unanimidade (14 votos a 0), após uma luta por 18 meses, numa quinta-feira, 15 de março de 1984, na Assembleia Extraordinária realizada em Posadas.

Mundial 2002: Manu Ginóbili abraça a Pepe Sánchez
em frente a Victoriano - A Medalha de Prata


Formosa, 26 de março de 1983: a palestra de León Najnudel que esclarecia ao país. Na primeira fila assistiam Horacio Muratore, futuro presidente da CABB e membro do Central Board da FIBA:


Em 30 de abril de 1983 se realizou a primeira reunião de clubes para a gestão de "Chungo" Butta, histórico dirigente do Echague de Paraná. A Declaração do Paraná foi assinada e destacava: "Que o aperfeiçoamento da competição interna resultará numa elevação do máximo objetivo buscado: o maior nível da Seleção Nacional".

A primeira definição, em 1984, foi a de que o Campeonato Argentino de Clubes, que se disputaria na sequência, serviria de classificação para a Nova Liga, colocada sob o jargão de "etapa de transição", organizando-se a 80 equipes participantes em três níveis de uma "pirâmide competitiva", com os níveis "A", "B" e Regional. O campeão deste torneio foi o Deportivo San Andrés. Enfim a Argentina tinha a um campeonato de basquete atraente, único, estável e nacional, sendo jogado por toda uma temporada durante 9 meses.

O sonhado dia de início foi uma sexta-feira, 26 de abril de 1985, com três partidas da primeira rodada. O salto inicial de honra foi concedido ao próprio Najnudel, uma justa recompensa por ter sido o propulsor da proposta – numa partida entre San Lorenzo vs Argentino de Firmat, realizada no Ginásio do Obras Sanitárias (entre os 16 participantes, estas equipes terminaram em 14º e 11º lugares, respectivamente, naquela temporada). Em outro encontro, o Atenas de Córdoba, que viria a ser 7 vezes campeão, jogou em Bahía Blanca contra o Pacífico, no Ginásio do Independiente, um ginásio tão pequeno, que naquele dia os jogadores cordobeses tiveram que fazer seu aquecimento na rua. As dimensões da quadra não estavam dentro dos limites que Mario Milanesio afirmou com o tradicional humor cordobês: "Para arremessar de três desde a zona morta, um tem que ser como Charles Chaplin e colocar os pés na horizontal, porque as linhas se juntam uma sobre a outra...". A falta de uma boa infraestrutura geral ainda era uma marca pendente, e que avançava lentamente.

Sexta-feira, 26 de abril de 1985, a primeira bola ao alto, das mãos
de Najnudel, eEnfrentavam-se na bola ao alto: Goggings (Argentino de Firmat)
 e Stanford (San Lorenzo)


Na coleção da Revista El Gráfico, assim está descrito o que acontecia na Argentina naquele momento: “Foi uma verdadeira explosão, que demonstra que o basquete sobrevive no país". Além de ter sido um caso de verdadeira federalização do esporte no território argentino.


FERRO, O PRIMEIRO GRANDE
A competição adotou também uma prática presente já em quase todo o mundo naquele momento: incluir jogadores estrangeiros - fundamentalmente norte-americanos - nos plantéis. Por que?

Porque, oriundos de um basquete com nível superior, contribuíam para aumentar e sustentar a qualidade técnica do espetáculo, ajudando como rivais ou companheiros de equipe no desenvolvimento dos jogadores nacionais, em busca de mais paridade a nível internacional. Nas 18 primeiras temporadas - entre 1985 e 2002 - a Liga Nacional Argentina registrou 1.190 vagas ocupadas por estrangeiros, tendo 145 deles tido passagem pela NBA, 10 dos quais tendo conseguido obter um anel de campeão na NBA. Em alguns casos, primeiro chegaram à Argentina, e depois foram à NBA.

O primeiro craque da Liga: Miguel Cortijo.
Uma temporada no Ferro.


O primeiro bi­campeão, em 1985 e 1986, foi o Ferro Carril Oeste, de Luis Martínez, que aproveitou o impulso gerado por Najnudel em Caballito a partir de 1976, permitindo que um clube argentino fosse campeão sul-americano pela primeira vez.

Era a época na qual brilhava o santiaguino Miguel Cortijo, o primeiro craque da Liga Argentina. Como descreveu Martínez: "Jogávamos com três norte-americanos, o terceiro era o Miguel", comparando o nível técnico do companheiro ao dos estrangeiros importados pelo Ferro.

O primeiro título da Liga Nacional foi conquistado a partir da troca dos dois norte-americanos do elenco, saíram os lentos Brent Tillman e McFarlan, e entraram Glenn Mosley, um ex-NBA, e Ron Charles, gerando a facilidade à equipe de contar com quatro "torres" juntas em quadra: Uranga, Mosley, Charles, Tourn ou Maggi. Com a riqueza de um plantel com "duas usinas" na criação, porque a Cortijo se somava Gabriel Darrás. "Era como um carburador de dupla boca", exaltava o então assistente-técnico César Putallaz.

A largada tinha sido muito preguiçosa do campeão. Martínez conta uma curiosa história: "A equipe tinha destruído a Tillman, que realmente não sabia jogar, e por causa disso o resto dos garotos se rebelaram. No fim, eles simplesmente não lhe passavam mais a bola nunca!".

Em 1986, o Ferro Carril Oeste acabou produzindo um recorde que se manteve ao longo do tempo: perdeu apenas 7 partidas, a quantidade mais baixa em toda a história da Liga. A estrutura da equipe era a mesma campeã no ano anterior, mas com a presença confiável de outros dois novos norte-americanos: o arremessador branco Michael Schlegel e o defensor negro Carl Amos.

O estrangeiro mais vezes campeão da Liga: Carl Amos
Campeão pelo Ferro Carril e duas vezes com o GEPU 


A segunda Liga marcou um fato gratificante para o basquete do país: todos os jogadores argentinos que estavam no exterior regressaram, atraídos pela nova competição: Gustavo Aguirre (voltou do Brasil ao Estudiantes de Concórdia), Esteban Camisassa e Gabriel Milovich (também do Brasil para o Unión de Santa Fé), Germán Filloy (outro do Brasil para o Atenas de Córdoba), Ricardo Garcia Fernández (da Espanha ao Deportivo San An­drés) e Luis González (do Brasil ao Ferro Carril Oeste).

Nesta etapa inicial, o orçamento somado dos 16 clubes da "Primeira A" e dos 36 da "B" - ou seja, um total de 52 clubes - era calculado em 2 milhões de dólares. Passado o tempo, só na elite do basquete argentino esta cifra já superou aos 11 milhões de dólares, mostrando o grande crescimento que houve na Liga Nacional do país.

O televisionamento pela TyC Sports (uma partida por rodada), algo que nos Anos 1980 não existia e parecia ser impossível nesta frequência, começou na temporada 1991/92 e significou um contrato de mais de 50 milhões de dólares até 2007, e depois se prorrogou até 2013.

Sabe quantos quilômetros foram recorridos em total em 1986 pelas 16 equipes da Primeira Divisão? 368 mil. O que significa isto? O trajeto que existe da Terra à Lua, ou em se dar nove vezes uma volta ao redor da Terra.


NASCE UMA LENDA
Na continuação começou a se edificar o império mais prestigiado na história da Liga Argentina: Atenas de Córdoba. Um campeão lendário com 7 títulos conquistados. Em 18 edições somou 869 partidas jogadas, com 609 vitórias (70,09%) e 260 derrotas (29,91%). O denominador comum de sempre: permaneceu sem se ausentar jamais em 848 partidas consecutivos desde o começo. O líder desta equipe: Marcelo Milanesio. Um ídolo com carisma inigualável, um armador de luxo, um símbolo aclamado.

Dentro das contínuas trocas de jogadores que caracterizou a Liga, conspirando com a necessidade de identificação que tem o público com seus jogadores, o Atenas se preocupou, através dos anos, de contar sempre com jogadores nascidos ou ao menos identificados com Córdoba. Outra particularidade é que, no mesmo contexto, só 6 treinadores passaram pelo banco de reservas cordobês: Wálter Garrone, Rubén Magnano, Medardo Ligorria, Pablo Coleffi, Mario Milanesio e Horacio Seguí.

O primeiro título do Atenas, em 1987, foi ganhando a série final de play-offs na quarta partida por 3-1. Dirigido por Wálter Garrone, o clube teve a virtude de contar com uma equipe na qual todas as posições estavam muito bem cobertas por jogadores que sabiam como cumprir suas missões muito bem: Marcelo Milanesio (armador), Héctor Campana (escolta arremessador), Germán Filloy (ala), Prato (ala-pivô) e Donald Jones (pivô). Um time completo e perfeito!

"Pichi" Campana matou a final contra o Ferro com 39 pontos convertidos, logo após ter se recuperado de uma operação delicada no joelho esquerdo, enquanto Fillol anulou defensivamente por completo ao uruguaio Tato López. Córdoba foi uma sinfonia verde. O segundo título, em 1988, foi coroado no Monumental. Ganho de forma contundente nos play-offs finais, consagrando-se outra vez em Buenos Aires: 3-0 sobre o poderoso River Plate.

Se a série decisiva foi sem sobressaltos, na semi­final contra o Pacífico de Bahía Blanca, o Atenas sofreu momentos de angústia, estando à beira de ser eliminado, sem ter podido contar com suas estrelas Germán Filloy e Pichi Campana, que se lesionaram no último minuto e na mesma jogada no terceiro jogo. Em Tres Arroyos, mostraram-se fortes, sendo catapulta para dois jovens de 19 anos conhecidos como "As Torres Gêmeas": Carlos Cerutti (2,04 m) e Diego Osella (2,05 m). Marcou também como um ponto de inflexão para um armador até então meio coadjuvante, e que começaria a brilhar cada vez mais: Marcelo Milanesio. Pensador e inteligente, um eixo de estratégia para uma equipe. Para muitos, foi desde então que se acentuou o famoso estilo de jogo de controle do basquete de Córdoba. Sem deixar de mencionar a característica de ataques rápidos. Atenas se impôs por 77-62, empatou a série semi­final e então, como mandante, ganhou a série por 3-2.

Mas o deus dos pontos nessa época inicial foi o uruguaio Wilfredo "Fefo" Ruiz, do Estudiantes de Bahía Blanca, máximo anotador das três primeiras edições da Liga, com uma média de 31,8 pontos por jogo. Em 1988 ele se mudou de casa, passando ao Olimpo por 23 mil dólares. Wilfredo Ruiz ostenta a maior média geral da história entre todos os jogadores que passaram pela Liga Argentina, com 28,6 pontos por partida nas 5 edições que disputou.

O uruguaio Fefo Ruiz no Estudiantes de Bahía Blanca
(diante do norte-americano Ernie Graham)


O Ferro repetiu a conquista em 1989, desta vez sob o impacto do norte-americano James Thomas, na única vez na qual León Najnudel ganhou a Liga Nacional. Atenas, por seu lado, voltou a conquistar o título na chamada "Liga curta" de 1990, que foi antecipada e encurtada porque neste ano a Argentina organizou o Campeonato Mundial e, ademais, a partir da temporada 1990/91 houve a modificação do calendário, jogando-se de setembro a junho, para coincidir com a temporada internacional.

O cordobeses varreram por 3-0 ao Sport Club de Cañada de Gómez, número 1 da temporada regular, ainda que vindo de ter enfrentado a trágica morte de Carlos Cerutti em um acidente automobilístico. A torcida fazia que se lembrassem do falecido ala-pivô do Atenas: "se sente! se sente! Palito está presente!".

Reconhece? O futuro treinador Marcelo Nicola
começava no Sport Club de Cañada de Gómez, aos 15 anos
ele esteve em quadra por 37 partidas entre 1987 e 1988


O feito de que as 6 primeiras edições da Liga se repartiram equitativamente entre Ferro e Atenas fez com que entre eles nascesse o primeiro clássico da competição. O histórico registrou 70 partidas entre eles, com 42 triunfos para Córdoba e 28 para os portenhos. No entanto, na final de 1987, por cima da rivalidade, as duas torcidas deixaram a rivalidade de lado pela exaltação nacional, e deram um grande espetáculo ao cantarem juntas: "Argentina! Argentina! Argentina!".

O ano de 1990 marcou o esplendor de Pichi Campana e suas façanhas em pontuação. Jogando pelo River Plate, conseguiu o máximo de média de pontos em uma temporada, com uma cifra impressionante: 44,2 pontos por partida. Ele meteu 62 pontos ao Sport no ginásio do Ri­ver (recorde para um argentino na Liga) e em toda a sua trajetória seria 4 vezes o maior pontuador, e de forma consecutiva, entre 1989 e 1992, e 4 vezes também foi eleito o melhor jogador. Totalizou 16.148 pontos convertidos em 706 partidas disputadas. Uma média global ao longo de 17 temporadas de excelentes 22,8 pontos por jogo.

Em 1988, por ideia de Horacio Seguí e Chiche Gornatti, começou como complemento a realização do Jogo das Estrelas. Ao longo das diversas temporadas, a atração passou por Mar del Plata, Córdoba, Buenos Aires, Bahía Blanca, Santiago del Estero, Neuquén, San Luis e Villa Carlos Paz.


NOME NOVO E DIFERENTE
Foi uma ascendência forte, mas fugaz. GEPU – Gimnasia y Esgrima Pedernera Unidos – de San Luis. Não tinha tradição no basquete argentino o seu lugar de procedência, porque San Luis nunca havia tido destaque no basquete. GEPU era a fusão de dois clubes, e mostrava uma relação muito particular com a empresa Eventos Deportivos S.A. Tudo dependia do poder político e econômico do senador Alberto Rodríguez Saá e de seu irmão, o governador Adolfo Rodríguez Saá, o mesmo que posteriormente teria uma passagem relâmpago como presidente da Argentina. Muitas vezes a equipe viajou com passagens pagas pelo Senado.

Desta forma mostrou o que outros clubes não podiam ter naquele momento: uma importante capacidade financeira. Assim construíram um ginásio, El Ave Fénix, com capacidade para 2.980 pessoas e, através de suas cinco temporadas ativo na "Liga A", conseguiu atrair importantes jogadores: Gustavo Fernández, Carlos Romano, Raul Merlo, Luis Villar, Pichi Campana, Diego Maggi, Juan Espil, Esteban Pérez, Hernán Montenegro... e até um técnico norte-americano: Kevin Mackey.

Final orquestrada em 1986: Hernán Montenegro (Olimpo) contra Miguel Cortijo


GEPU foi criado em 1989. Jogou sua primeira Liga em 1990, ficando em 12º lugar. Para chegar ao título de campeão, com a marca de "defender e jogar rápido", contando com os máximos pontuadores da história da Liga. Pichi Campana na temporada 1990/91 teve 31,5 pontos de média, numa equipe que ainda tinha o poder nos rebotes de Carl Amos e Diego Maggi, e a Daniel Rodríguez de técnico. E Juan Espil na temporada 1992/93 com 28,8 pontos de média, além de outra frente ofensiva com Esteban Pérez (21,7 pontos por jogo) e com Orlando Ferratto no seu banco. Na temporada 1994/95, o GEPU já não estava mais presente.


UM CAMPEÃO A CADA ANO
O país abraçou a competição. A expansão foi verdadeiramente nacional. Em 6 temporadas seguidas houve um campeão diferente a cada ano, entre 1992 e 1997. Em 1992 começou a nova corrida vitoriosa em Córdoba, com o Atenas. Em 1993 foi em San Luis, com o GEPU. Em 1994 chegou a Mar del Plata, com o Peñarol.

Sessenta mil pessoas saíram para receber o ônibus do novo campeão nacional ao longo dos 17 quilômetros que se estenderam desde Sierra de los Padres até Mar del Plata no regresso desde General Pico, após liquidar por 4-1 à série final contra o Independiente de lá, que tinha sido o número 1 da temporada regular e tinha a vantagem como local na final.

60 mil pessoas saíram para receber ao Peñarol em Mar del Plata
O capitão Richotti os saúda desde a sede da prefeitura


Com uma base mantida desde a temporada anterior: Marcelo Richotti assegurando uma transição rápida, Ariel Bernardini com um gatilho de arremessos certeiros, e Diego Maggi marcando presença no garrafão como pivô, comandados pelo técnico Néstor "Che" García, quem definiu: "Era Esteban de la Fuente, o queria sim ou sim. É o melhor defensor da Liga, e conhece o jogo como poucos. O Peñarol tinha cerca de 20 jogadas ofensivas, e Esteban era o único do time que as sabia todas, desde todos os lugares". Fechando, a dupla estrangeira da consagração, após terem sido provados 7 estrangeiros, foi formada pelo grandão ex-NBA Wallace Bryant (2,13 m) e pelo potente Sam Ivy.

Relembra Néstor García que "até a lesão de Bernardini (ruptura do tendão de Aquiles na 5ª rodada da 2ª fase, contra Regatas de San Nicolás), nós éramos uma equipe que jogava um basquete muito bonito, de contra-ataque, e que baseava seu jogo na tremenda capacidade de arremesso de Ariel... Depois tivemos que ser mais contidos, para fazer prevalecer nosso jogo interior que, certamente, era muito importante". Aquela equipe chegou a 17 partidas consecutivos sem perder, um recorde.

Em 1995 se gritou "sou dos Pampas/ sou dos Pampas/ dos Pampas eu sou!". Independiente de General Pico, clube de uma cidade que então tinha 41.921 habitantes, coroou-se campeão fundamentado num triângulo composto pela sagacidade do armador Facundo Sucaztky, a eficácia multifuncionalidade por toda quadra de Esteban de la Fuente (o melhor jogador da temporada) e a garantia para pontuar e para marcar do norte-americano Melvin Johnson (o melhor estrangeiro, e que detêm o recorde histórico de partidas jogadas por um não-argentino na Liga, com 449 aparições). Seu técnico, Mario Guzmán, explicou o estilo: "Nunca servimos para controlar o jogo. Na realidade, nós sempre nos sentimos mais cômodos correndo e arremessando...". E a tudo isso há que se agregar um bombardeio com um tremendo poderio de três pontos (um altíssimo 45,9% de eficácia no agregado de toda a equipe), somando-se Jorge Zulberti e Pablo Lamare aos três já citados.

A tragédia também sacudiu esta temporada. Em 2 de fevereiro de 1995, Gimnasia y Esgrima perdeu por 122-114 para o Boca Juniors em Comodoro Rivadavia. Parte do público se enfureceu contra os árbitros Eduardo Alagastino e Alejandro Chiti. Fora do Ginásio Sócios Fundadores houve uma chuva de projéteis. Uma pedrada golpeou a cabeça do espectador Julio Norberto Lecumberri, de 72 anos, e o produziu um coágulo cerebral que o levou a óbito após quatro dias de agonia. Espantoso, triste e trágico! O agressor, Leonardo Alberto Oyarzún, de 21 anos, foi preso e condenado a 3 anos de prisão por "homicídio culposo".


A BANDA E OS RENEGADOS
Uma linda produção fotográfica de El Gráfico com o Olimpia de Venado Tuerto, na qual a equipe aparece desempenhando o papel de uma orquestra, é a melhor definição do campeão de 1996, que na mesma temporada, treinada por Horacio Seguí, já havia sido o primeiro vencedor da 1ª edição da Liga Sul-Americana no Brasil. "A melhor banda da América do Sul", ressaltava o título da nota.

Orgulho de Venado Tuerto: "A melhor banda da América do Sul"
o grande Olimpia de Horacio Seguí


O técnico Horacio Seguí fez uma comparação ao falar sobre uma razão determinante do sucesso de sua equipe: "Nos momentos chave de uma partida, quando a bola queimava, Jorge Racca se converteu em nosso Michael Jordan...". O "Batman dos Pampas" foi o pontuador imparável da temporada, com 26,6 pontos de média, e o líder da conquista do título.

Seus aliados, num plantel com muita química, eram a velocidade de condução de Alejandro Montecchia, a versatilidade e a energia contagiante de Michael Wilson, o poder de pontuação de Todd Jadlow (campeão com a Universidade de Indiana de Bobby Knight), a forte personalidade de Sebastián Uranga, e um jovem que somava chamando a atenção por seu imenso talento: Lucas Victoriano.

O excelente nível destes jogadores é dado por um feito muito indicativo: Montecchia passou pelo basquete da Espanha e da Itália, Racca pelos basquetes da Espanha e da Grécia, Victoriano vestiu a camisa do Real Madrid na Espanha e também jogou na Itália, além de Guiñazú que atuou na Espanha. Uma equipe com jogadores que construíram um grande curriculum.

O Independiente de Mario Guzmán galopou em La Pampa
Campeão de 1995 desde General Pico


A consagração de um clube tão popular como Boca em 1997, tão arraigado no futebol, ampliou a atenção do país para o basquete. Dirigido por Julio Lamas, venceu mais facilmente do que era pensado a série final (4-1) sobre o Independiente, dos Pampas, treinado pelo porto-riquenho Flor Meléndez.

Arrancou aquele ano com um feito inédito para o basquete argentino: uma pré-temporada de 16 dias e 8 amistosos por França, Espanha e Portugal. Definiu Luis Villar: "Eu a chamo de Equipe dos Renegados, porque a maioria de seus integrantes chegou ao clube com fome de vingança por uma nova oportunidade".

O suporte no jogo foi dado pelo porto-riquenho Jerome Mincy com médias de 20,2 pontos e 9,2 rebotes por partida, líder dentro e fora da quadra. Sua frase preferida foi o lema de cabeceira do grupo: "Nem muito em cima, nem muito embaixo, sempre no meio".

Outra sustentação ofensiva era o temido arremesso em jump de Ariel Bernardini (18,4 pontos de média), que voltou depois da uma ruptura de seu tendão de Aquiles que por uma complicação posterior esteve a ponto de lhe deixar ruim para a vida inteira. Mas a verdadeira chave da conquista do campeonato foi posta pelo norte-americano Byron Wilson (média de 21,5 pontos) nos play-offs, com suas penetrações "de Michael Jordan".


A LENDA CONTINUA
O domingo 7 de janeiro de 2001 foi o dia mais triste da história da Liga Argentina. Estudiantes de Bahía Blanca enfrentava ao Libertad em Sunchales. Vítima de um colapso cardíaco (hipertrofia miocárdica) se foi um jovem de 23 anos: Gabriel Riofrío. Foi irreparável! Seus companheiros da Seleção Argentina o levaram presente, ainda sob a euforia do vice-campeonato mundial ganho em Indianápolis em 2002: "Gabi, sempre conosco". Impossível esquecê-lo.

Dor na alma: a morte de Gabriel Riofrío


Um marco histórico na vida da Liga Nacional se deu na série final de 1998, porque foi jogada no Luna Park, cenário mítico dos esportes argentinos, e porque não dizer de toda a cena cultural do país. E lotou! Oito mil pessoas se juntaram lá na última noite. É recorde. Mas também porque a atuação do Atenas de Córdoba, com um Fabricio Oberto muito desequilibrador, foi realmente excelente, arrasando ao Boca Juniors e completando em 4-0 definitivo, o primeiro e único numa série melhor de sete partidas, que começou na temporada 1990/91.

Momento inesquecível em 1998: o Luna Park lotado e um extraordinário Oberto


Se antes o clube de Córdoba já havia entrado no salão das lendas, este momento grandioso o catapultou ainda mais. E a famosa frase "a lenda continua", exaltando sua vigência, caiu-lhe justa. Disputou 12 finais das 18 primeiras realizadas.

Esta dupla "roubou" a história: Marcelo Milanesio e Pichi Campana
comemorando para o Atenas sobre a tabela no Luna Park


A Sociedade de Estrelas que formaram Marcelo Milanesio (quem mais jogou, e foi 7 vezes campeão) e Pichi Campana (quem mais pontuou, e foi 5 vezes campeão com o Atenas) foi incomparável e se constituiu a principal identificação com Córdoba. Lustraram a linhagem de campeões que caracterizou a seus homens, e onde se acumulam os títulos conseguidos na Liga por Diego Osella (5), Germán Filloy (4), Mario Milanesio (3), Bruno Lábaque (3), Roberto Costa (2), Mario Laverdino (2) e Leandro Palladino (2), sem esquecer a Fernando Prato (1), Luis Villar (1) e Fabricio Oberto (1).

Esta gente "ganhou tudo", 12 títulos oficiais entre 1987 e 2002: 7 Ligas Nacionais Argentinas, 2 Campeonatos Sul­Americanos, 2 Ligas Sul­Americanas e 1 Campeonato Pan-americano. E sempre se caracterizou por ter "o melhor plantel de argentinos".

A cereja da torta foi o 8° McDonald Championship realizado em Paris em 1997. Estiveram a 9 segundos e 6 décimos de jogar a final contra os Chicago Bulls de Michael Jordan. Uma cesta de três do lituano Arturo Karnisovas, do Olympiakos Piraeus, da Grécia, impediu tal façanha. Mas o Atenas, depois de uma extraordinária atuação internacional que o deixou em terceiro, tinha sido mais lendário do que nunca.

Na última Liga do Século XX surgiu o reinado do Estudiantes de Olavarría, do técnico Sergio Hernández, liderado pelo pontuador infernal J.J. Eubanks (27,5 pontos de média). Um de seus jogadores, o "Colorado" Wolkowyski, como num conto de fadas, concretizava um sonho que parecia difícil de ser alcançado: que um argentino jogasse na NBA. Essa mesma noite, a de 31 de outubro de 2000, no Madison Square Garden, Pepe Sánchez se anteciparia com uma histórica estreia e ratificava o que até então era impossível. Algo que ratificou Emanuel Ginóbili.

Estudiantes de Olavarría 1999/2000 (comemora J.J. Eubanks)
uma campanha recorde: 80,3% de aproveitamento


Em seu bi-campeonato, com outro plantel, no qual sobressaíam Danny Farabello, Paolo Quinteros e Byron Wilson, Estudiantes produziu a melhor campanha de todas quando consideradas temporadas de 50 ou mais partidas, obtendo o recorde de 80,3% em triunfos.

Seu último ato foi um feito: depois de 848 partidas se retirou campeão – como merecia – Marcelo Milanesio, fechando um ciclo glorioso e inigualável. Aquela noite de 13 de maio de 2002 foi histórica, de emoção e nostalgia. Um feito a mais para justificar o ápice daqueles sonhos iniciados em 1982 e os 20 anos de trabalho sem interrupções.

O primeiro jogo de Marcelo, o salto em Bahía Blanca contra Pacífico


OS 49
Nas duas primeiras décadas, desde 1985, participaram 49 clubes nas 19 edições da Primeira A da Liga Nacional. Esta foi a procedência: Buenos Aires e Santa Fe com 10, Capital Federal 8, Córdoba 5, Tucumán 3, Entre Ríos, La Pampa e Río Negro com 2; Santia­go del Estero, Chaco, Neuquén, Chubut, San Luis, La Rioja e Misiones com 1.

Só 3 clubes jogaram todas estas 19 primeiras edições: Atenas de Córdoba, Ferro Carril Oeste, e Estudiantes de Bahía Blanca. Das 24 federações afiliadas, 15 tiveram representação alguma vez, sendo que as quatro com mais equipes foram as mesmas federações que mais ganharam o velho Campeonato Argentino: Capital Federal (18 títulos), Buenos Aires (13), Santa Fe (11) e Córdoba (9).


OS 10 CAMPEÕES DA NBA
Nestas duas primeiras décadas, dos 145 jogadores estrangeiros com antecedentes de terem jogado na NBA e que também atuaram na Liga Argentina, 10 foram campeões nos Estados Unidos.

Stacey King: 3x campeão da NBA com o Chicago Bulls
pelo Atenas de Córdoba só jogou 6 partidas


São eles: Joe Pace (Washington Bullets em 1978), Mark Landsberger (Los Angeles Lakers em 1980 e 1982), Earl Cureton (Philadelphia 76ers em 1983 e Houston Rockets em 1994), Larry Spriggs (Los Angeles Lakers em 1985), William Thompson (Los Angeles Lakers em 1988), John Long e Fennis Dembo (Detroit Pistons em 1989), Stacey King (Chicago Bulls em 1991, 1992 e 1993), Ricky Blanton (Chicago Bulls em 1993) e Mario Ellie (Houston Rockets em 1994 e 1995, e San Antonio Spurs em 1999).


FEZ A ARGENTINA CRESCER
Texto abaixo é escrito pelo jogador reconhecido como o símbolo histórico da Liga Argentina. Esteve nas 18 primeiras temporadas. Sempre jogou pelo Atenas de Córdoba e chegou a fazê-lo por 649 partidas seguidas.

Por Marcelo Milanesio:

Basta conseguir um vídeo das primeiras edições – 1985, 1986, 1987 – para se dar conta da diferença e de como o que ocorreu depois foi abismal. De como se cresceu uma barbaridade, com uma permanente evolução, tanto na defesa como no ataque.

A Liga Argentina foi algo sensacional. O basquete argentino progrediu graças à sua competição, que cada vez foi mais exigente e abriu as portas para todos os jogadores de basquete do país.

Foi provado com as conquistas internacionais, ganhando-se mais do que nunca: uma Medalha de Ouro nos Jogos Pan-Americanos em Mar del Plata em 1995. Voltar a participar dos Jogos Olímpicos depois de 44 anos, em Atlanta 1996. O Sub-22 Campeão Pan-Americano em Rosario em 1993 e em Ribeirão Preto em 2000. Medalha de Bronze no Mundial Juvenil (Sub-19) do Canadá em 1991 e 4º lugar em Portugal em 1999, e também 4º lugar no Mundial Sub-22 de Melbourne em 1997. Medalha de Bronze no Mundial Sub-21 de Saitama, Japão, em 2001, e a Medalha de Ouro - pela primeira vez na história - na Copa América de Neuquén em 2001. No ano anterior, ademais, tendo sido Campeões Sul­Americanos em todas as categorias, desde cadetes até o adulto. Na Liga Sul­Americana, os clubes da Argentina ganharam 5 dos 7 primeiros campeonatos realizados. A Argentina chegou com 3 jogadores à NBA. E então aconteceu o ápice, espetacular e brilhante, mostrado em Indianápolis 2002, com o Vice­campeonato do Mundo, tendo vencido ao invencível "Dream Team". Tudo isso foi por mérito da exigente competição interna dada pela Liga.

É só ter a lembrança de quando o Monte Líbano, do Brasil, jogava contra os times argentinos nos Anos 1980: parecia uma equipe da NBA, tamanha a facilidade com que passava por cima e atropelava por mais de vinte pontos de diferença. Já na época da Liga, e jogando reforçados com estrangeiros, foi-se tirando a desvantagem devagar até se alcançar as vitórias.

Com o passar dos anos, aumentou o nível dos treinamentos, praticando-se o dobro ou o triplo mais do que antes, foi-se falando cada vez mais de estratégia, estudando-se mais a fundo aos rivais. Ver à NBA pela televisão também ajudou muito a todo este processo. Avançou-se em todas as frentes, até no piso das quadras, nos aros, nas bolas, na vestimenta, na qualidade do transporte para se viajar...



Fonte do texto acima: Revista El Gráfico
https://www.elgrafico.com.ar/articulo/%C2%A1habla-memoria!/34420/la-revolucion-del-basquet


Veja também:

Os alicerces da revolução pela qual passou o basquete argentino foram fincados um pouco antes, história que pode ser conhecida no texto: Declaração do Paraná: marco revolucionário na história do basquete argentino.


A História da Liga:

Entre os Campeões de 1984 a 1999, nas 16 primeiras edições, estão San Andrés, Ferro Carril Oeste, Atenas de Córdoba, Gimnasia Pedernera, Peñarol de Mar del Plata, Independiente de General Pico, Olimpia de Venado Tuerto e Boca Juniors.

Entre os Campeões de 2000 a 2015, nas 16 edições seguintes, estão Estudiantes de Olavarría, Atenas de Córdoba, Boca Juniors, Ben Hur de Rafaela, Gimnasia de Comodoro Rivadavia, Libertad Sunchales, Peñarol de Mar del Plata, Regatas Corrientes e Quimsa.

E entre os Campeões a partir de 2016 estão San Lorenzo, com cinco títulos consecutivos, Instituto de Córdoba, Quimsa, Boca Juniors, Gimnasia de Comodoro Rivadavia, ...


A partir da década de 2000, passou-se a fazer também a escolha dos cinco melhores da temporada por posição. Veja os escolhidos: Quintetos Ideais por temporada na Liga Argentina


E veja quem foram os maiores: Top 100: As Lendas da Liga Argentina de Basquete e complementando a escolha dos Melhores da História da Liga Argentina, e os escolhidos como MVP de Todas as Temporadas.