Artigo de autoria de Jordan Conn, publicado orginalmente na edição nº 06 da Revista Atavista:
A jornada de Manute Bol do Sudão para a NBA e de volta
Eles sempre mencionam o leão. Não importa quem esteja falando sobre Manute Bol - companheiro de equipe, parente, fã ou amigo - sempre que contam histórias, inevitavelmente terminam no momento em que ele matou o leão. Dependendo de onde é contada, a história assume diferentes formas. Sentado sob uma árvore uma tarde perto da casa da família Bol em Turalei, Sudão, seu tio Bol Chol Bol me conta assim: Manute, um adolescente imponente encarregado de cuidar do gado de sua aldeia, viu um leão correndo pelo pasto, faminto e desesperado por sangue. O leão saltou, e Bol lançou uma lança, perfurando o predador no ar. Bol Chol Bol conta a história sem nenhum toque de hipérbole, sem sorriso de cumplicidade. Este é o Manute que sua aldeia conheceu: benevolente, destemido, quase sobre-humano. Um herói.
A versão comumente contada em seu lar adotivo, os Estados Unidos - repetida em artigos de jornal e por amigos próximos - mostra Bol capturando o leão enquanto ele dormia. Ciente de que o animal, que havia se deitado perto do gado, poderia atacar se acordasse, ele enfiou sua lança quando teve a chance. Alguns fãs levam a lenda ainda mais longe, alegando que ele usou apenas as mãos nuas. É assim que o cantor Kenn Kweder conta enquanto percorre bares da Costa Leste tocando "The Ballad of Manute Bol", um hino a uma das estrelas mais adoráveis da NBA. Kweder pode ter tomado algumas liberdades artísticas ao escrever a letra nos Anos 1980, mas quando ele começa a tocar e universitários bêbados começam a gritar, há apenas uma verdade: Bol empunhava suas mãos como armas, sua força, selvageria e vontade indomável deixando o predador mais feroz da natureza sem vida em suas mãos.
Quando Manute Bol chegou aos Estados Unidos vindo do Sudão em 1983, a história do leão chegou com ele. Quando se tornou o primeiro jogador africano da NBA, serviu como a anedota perfeita para ajudar os americanos a entenderem um dos homens mais estranhos que já tinham visto, um homem que vinha de um país que mal se alojava em suas consciências. Bol era alto - 2,10m quando chegou, ainda jovem, aos Estados Unidos, tão alto que precisava abaixar a cabeça sob o batente da porta e mal precisava se esforçar para enterrar a bola na rede. Tão alto que se elevava sobre os jogadores de 2,10m que dominavam a NBA. E Bol era magro — 84 kg quando chegou aos Estados Unidos, tão magro que seu esqueleto parecia desprotegido pela carne, coberto apenas por pele e músculos finos, cada membro um galho com suporte suficiente para manter o corpo funcionando. Magro o suficiente para que Woody Allen uma vez brincasse: "Manute Bol é tão magro que eles economizam dinheiro em viagens de carro; eles simplesmente o enviam por fax de uma cidade para outra". Bol também era negro, tão negro aos olhos dos jornalistas americanos que eles inventaram novas maneiras de dizer "negro" — "uma meia-noite sem lua", "mais escuro que a escuridão", expressões que pretendiam sinalizar que a cor da pele de Bol era a de um guerreiro, um homem de uma tribo, de uma terra desconhecida e de um povo desconhecido. A cor da pele de Bol era a de um homem que matou um leão.
No cânone da mitologia de Manute Bol, a história do leão é apenas um volume. Os outros emanam de contadores de histórias espalhados por dois continentes, cada um enfatizando um aspecto diferente da vida complexa e multifacetada de Bol. "Ele tinha essa arrogância", começa um ex-jogador da NBA, "essa estatura incrível". Outros se concentram menos na personalidade de Bol e mais em suas ações. De acordo com sua filha: "Ele faria qualquer coisa por seu povo". "Eu nunca diria uma palavra ruim sobre Manute", comenta seu agente, "mas preciso dizer que ele abandonou a família". Seu tio apresenta Bol aos ouvintes falando sobre como ele era forte quando bebê. Um amigo americano começa dizendo como ele era fraco em seus últimos dias. Em Turalei, uma jovem geração de meninos cresceu aprendendo sobre os triunfos de Bol em uma terra distante. "Ele era rico", um sobrinho se lembra de ter ouvido quando criança. "Ele era famoso". Para muitos em casa, no entanto, o sucesso no exterior importava pouco. "Manute", diz um compatriota, "é o Sudão".
Bol viveu uma vida digna de um homem com um corpo tão descomunal. A qualquer momento, era possível encontrá-lo em uma quadra de basquete ou em uma tela de televisão, em uma reunião do Congresso ou em uma zona de guerra, em uma cabana ou em uma mansão. Às vezes, ele jogava. Frequentemente, bebia. Independentemente do cenário, sempre se esforçava para garantir que todos ao seu redor estivessem felizes. Com o tempo, seus laços com os companheiros de equipe em quadra, vencendo jogos e entretendo a torcida, seriam substituídos por um com um jovem de sua aldeia devastada pela guerra, lutando para educar seu povo e libertar sua terra natal. Mas a cada momento, ele construía meticulosamente a lenda de Manute Bol.
Os companheiros riram e esperaram a resposta de Bol, mas ele não confirmou nem negou a acusação. No vestiário, ele não era um vaqueiro; não era um africano; era um jogador de basquete. "Vai se foder, Charles Barkley", disse ele.
Bol, na época membro do Philadelphia 76ers, durante um jogo de 1990
(Foto de John W. McDonough / Sports Illustrated)
1. Pés no chão
Até mesmo o nascimento de Bol permanece envolto em mitos. Aconteceu em 1962 - pelo menos é o que dizem os registros ocidentais, embora o próprio homem nunca tenha tido certeza - e, para sua mãe, Okwok, ocorreu após o parto de dois pares de gêmeos natimortos. Antes do nascimento de Bol, a família consultou um místico local, que lhe deu uma bênção e previu o nascimento de um menino saudável. Quando o menino nasceu, o chamaram de Manute, que significa "bênção especial" e é um nome comum para bebês nascidos à sombra de irmãos perdidos. No dia do seu nascimento, o tio de Bol gosta de afirmar que, quando ele mamava, seus pés tocavam o chão. Sua altura não era surpreendente. Seu pai tinha 1,93 m, sua mãe 1,98 m. Seu bisavô, Bol diria mais tarde, tinha 2,28 m. Quando os colonizadores britânicos exploraram o Sudão, alguns inventaram um nome para os altos e morenos membros da tribo Dinka que povoavam as regiões do sul: "gigantes fantasmagóricos".
Embora poucos aldeões se lembrem do atletismo de Bol na infância, sua força de vontade e persistência continuam sendo parte da tradição local. Muitos meninos Dinka em Turalei, que fica no sul predominantemente cristão e animista do Sudão, passam por rituais tribais nos quais seus corpos são desfigurados para simbolizar sua transição para a idade adulta. Por volta dos 8 anos, seus dentes inferiores são removidos. Mais tarde, suas testas são cortadas e linhas são cortadas em seus crânios para marcá-los como homens Dinka. Mas quando chegou a vez de Bol suportar cada um dos rituais, ele fugiu, caminhando por dias em busca de um novo lar. Primeiro, ele foi para Abyei, uma região que se estende pela fronteira com o norte predominantemente árabe e muçulmano do Sudão. Na segunda vez, ele foi para Babanusa, ainda mais fundo no norte do Sudão, onde experimentou pela primeira vez a vida como uma minoria racial. Em ambas as vezes, ele finalmente desistiu e voltou para casa, percebendo que não podia mais evitar a cerimônia. O místico extraiu os dentes de Bol e depois esculpiu sua testa.
Enquanto isso, os compatriotas de Bol estavam abraçando uma rara era de paz. Uma guerra civil assolou o Sudão de 1955 a 1972, matando entre 500 mil e 1,3 milhão de pessoas e desalojando centenas de milhares. Em seus últimos anos, quando Bol falava sobre sua infância, falava pouco sobre as doenças, milícias e fomes que assolavam a região, dizimando aldeias inteiras. Por ter chegado à adolescência em tempos de paz, teve o luxo de evitar a vida de soldado. Em vez disso, Bol tinha outras ambições. Quando criança, gabava-se de que um dia se tornaria chefe executivo, o homem mais rico e poderoso de Turalei, talvez de todo Twic, o condado vizinho. Ele era, na verdade, membro da família real local, neto do grande chefe Chol Bol. O pai de Manute, no entanto, era o segundo filho de Chol Bol, então, a menos que Bol se mostrasse muito mais digno do que qualquer um de seus primos, teria que se aliar a herdeiros mais diretos da chefia. Para Bol, porém, esses detalhes pouco importavam. Um dia, disse ele aos meninos da aldeia, governaria a todos.
Antes de se tornar chefe, porém, ele teve que cuidar do gado. As vacas são tidas em maior consideração do que a maioria das outras criaturas na cultura Dinka, tanto como símbolos de riqueza quanto como sustento para a vida. Junto com os outros adolescentes, Bol deixou a aldeia para trabalhar em um acampamento de gado.
Foi enquanto aprimorava suas habilidades na criação de animais que Bol atingiu seu pico de crescimento. No final da adolescência, ele já era mais alto que os homens de sua tribo. Um dia, um fotojornalista de um jornal em Cartum, capital do norte do Sudão, visitou Turalei e tirou uma foto de Bol. A foto chamou a atenção do primo de Bol, Nicola Bol, que havia se mudado para a capital e se destacado como um dos melhores jogadores de basquete do Sudão. "Eu não o via desde que ele era criança", diz Nicola sobre seu primo. "Nunca percebi o quão alto ele era, mas quando vi a foto pensei: 'Uau, ele precisa começar a jogar basquete'". Logo Bol foi recrutado para jogar em um time patrocinado pela polícia em Wau, uma cidade na mesma região de Turalei, perto da fronteira entre o sul do Sudão e Darfur.
Bol mudou-se para Wau e começou a frequentar os treinos, esforçando-se para aprender o jogo. Um dia, ele subiu a curta distância necessária para enterrar pela primeira vez e, ao retornar à terra, a rede prendeu-se em seus dentes da frente, arrancando-os de suas gengivas. Uma cerimônia tornou Bol oficialmente um homem dinka. Agora ele era oficialmente um jogador de basquete.
2. Mudando o jogo
Com 2,10 m de altura, Bol não precisou de muito tempo para aprimorar suas habilidades o suficiente para ser útil em quadra, e logo se transferiu do time de Wau para um maior em Cartum. Na capital do Sudão, Bol teve seu segundo gostinho da vida como minoria - como um cristão alto e moreno em uma cidade árabe onde as tensões raciais e religiosas eram altas. No entanto, Bol raramente dava a outra face quando as pessoas paravam seus carros para olhar boquiabertas ou o chamavam de abd - "escravo" em árabe. À medida que seu árabe melhorava, ele tentava se integrar, mas quando confrontado, Bol geralmente respondia com punhos, não palavras. "Eu lutei muito em Cartum", disse Bol mais tarde ao Washington Post. "Eu era ruim. Não aceito nada. Às vezes, posso dizer que nós, Dinkas, somos loucos. É isso que posso dizer. Nós não desistimos".
O basquete se tornaria sua fuga de toda a animosidade que o cercava em Cartum. Em junho de 1982, quando Bol tinha 20 anos, Don Feeley, técnico da Universidade Fairleigh Dickinson, em Nova Jersey, chegou a Cartum para ajudar a treinar a seleção sudanesa. Desde o momento em que Feeley viu o gigante esguio, ficou fascinado. Bol, ele sabia, era capaz de mudar um jogo de basquete. Com aquela altura, talvez, Bol pudesse alterar o curso de todo um programa universitário. Feeley mexeu os pauzinhos e conseguiu garantir promessas de bolsas de estudo na Universidade Estadual de Cleveland para Bol e seu amigo Deng Deng Nhial. Havia apenas um problema: Bol nunca havia frequentado um único dia de aula. Feeley ligou para Jim Lynam, o técnico do então San Diego Clippers, e o incentivou a selecionar Bol no draft da NBA de 1983, sem vê-lo. Normalmente, um jogador que nunca havia se apresentado diante de olheiros não teria chance de ser escolhido por um time profissional. Mas "2,10m" era tudo o que Lynam precisava ouvir. Ele escolheu Bol na quinta rodada, mas a escolha foi anulada porque Bol não havia declarado oficialmente sua intenção de participar do draft.
Bol e Deng se mudaram para Connecticut para se matricular na Universidade de Bridgeport, uma universidade da Divisão II da NCAA com padrões de admissão mais baixos que os da Universidade Estadual de Cleveland. Bol chegou ao campus algumas semanas antes do início das aulas, e a notícia de sua presença logo se espalhou. "Eu já ouvia falar desse cara há algumas semanas", diz John O'Reilly, que jogou ao lado de Bol nos Purple Knights. "Então, finalmente cheguei ao campus e o vi, e simplesmente não conseguia acreditar. Aquele corpo enorme, muito maior do que qualquer um que você já tivesse visto." Outro companheiro de equipe, John Mullin, estava treinando no ginásio de Bridgeport quando viu Bol pela primeira vez. "Ele estava sentado no saguão e, quando se levantou, foi como se seu corpo estivesse se desdobrando", diz Mullin. "Ele entra pela porta e tem que se abaixar, e então se levanta ereto, e eu não conseguia acreditar. Ele fica brincando e rindo o tempo todo, completamente confortável naquele ambiente."
Bol passou um ano em Bridgeport, e sua destreza nos bloqueios transformou a universidade em uma potência da Divisão II. As vitórias se acumularam, e Bol se tornou uma sensação nos campi universitários de pequeno porte do nordeste. Todos os jogos - em casa ou fora - estavam lotados. Os jogadores adversários encontraram seus torcedores torcendo contra a própria universidade, em vez de torcerem pelo gigante que corria e ria pela quadra, tratando os arremessos como mosquitos. Quando Bridgeport saiu do vestiário, "dava para ouvir o ar saindo dos pulmões de todos", diz O'Reilly.
Bol usou seu tempo em Bridgeport para se aclimatar à vida americana. Com acesso a cuidados médicos, ele substituiu seus dentes perdidos. Com acesso a pizza e cerveja, ele se entregava à bebida quase todas as noites. Ele desenvolveu uma reputação em todo o campus por seu jogo dominante, sua personalidade efervescente e, com o tempo, sua teimosia. Antes do início de sua primeira temporada, Bol estava de olho na camisa número 10, que O'Reilly havia usado anteriormente. Ele implorou a O'Reilly por ela, dizendo que faria qualquer coisa para obtê-la, mas seu companheiro de equipe permaneceu firme. No dia em que os jogadores foram apresentados à mídia, Bol ameaçou deixar o time: "Não posso ficar aqui se não usar a número 10", disse ele a O'Reilly. Eventualmente, O'Reilly cedeu (anos depois, quando Bol jogava pelo Golden State Warriors, um companheiro de equipe novato, Tim Hardaway, o abordou querendo usar o número 10. Bol inicialmente recusou, mas depois disse a Hardaway que o deixaria usá-lo, por US$ 500.000, todo o seu salário do primeiro ano. Hardaway recusou).
Depois de um ano em Bridgeport, Bol decidiu que estava pronto para os profissionais. Alguns amigos e conselheiros lhe disseram para continuar na faculdade, para aprimorar seu jogo e melhorar seu potencial no draft. Mas Bol já estava decidido. Ele precisava de dinheiro, tanto para si quanto para sua família, cada vez mais desesperada, no Sudão. E não havia dinheiro para ser feito como atleta universitário. Como suas habilidades eram tão inexperientes e seus concorrentes na Divisão II eram tão fracos, os conselheiros de Bol não tinham certeza de quão bem ele seria selecionado no draft da NBA. Então, seu agente, Frank Catapano, providenciou para que Bol jogasse com o Rhode Island Gulls, da Liga de Basquete dos Estados Unidos, uma liga menor incipiente que ofereceria uma competição melhor e uma chance de se apresentar diante dos olheiros da NBA.
Bol dominou. Em apenas oito jogos, ele provou que podia competir com os melhores talentos, e o Washington Bullets o selecionou na segunda rodada do draft da NBA, como a 31ª escolha geral e o jogador mais alto da história da liga (na primeira rodada, dois anos depois, eles selecionaram o mais baixo: o armador Muggsy Bogues, da Wake Forest University, com 1,60 m). "Muita gente achou que era apenas um golpe publicitário", diz Bob Ferry, então gerente geral do Bullets, sobre a escolha de Bol. "Mas eu estava falando sério. Achei que ele sabia jogar".
3. O Profissional
Ao chegar a Washington, Bol jogou de forma diferente de qualquer outro jogador antes ou depois, fazendo o impossível parecer fácil e o fácil parecer impossível. A maioria dos jogadores jamais conseguiria bloquear um arremesso a mais de meio metro de distância - estendendo as mãos para o alto para encontrar a bola no ápice - mas Bol fazia isso o tempo todo. "Ninguém conseguia arremessar por cima dele", diz Hardaway. "Costumávamos direcionar os jogadores em direção ao Manute porque sabíamos que ele bloquearia o arremesso deles. Você simplesmente não conseguia entender a distância que ele tinha até chegar perto".
Mesmo assim, Bol tendia a ser um constrangimento no ataque. Ele tinha dificuldades com as jogadas mais rotineiras, errando bandejas, bloqueando lances livres, deixando a bola cair ou rolando entre as pernas. Vários dedos da mão direita, usada para arremessar, estavam desfigurados, resultado de um defeito de nascença. "Parecia uma garra", diz Ferry. "Ele não conseguia esticar os dedos, e isso o machucava muito".
Mesmo assim, seus treinadores eram tão apaixonados por sua habilidade de bloqueio que ele jogou regularmente como calouro durante a temporada 1985/86, estabelecendo um recorde de calouro em uma única temporada da NBA com 397 bloqueios (tocos) - o segundo maior total, para qualquer jogador, na história da NBA. Ele alcançou essa marca apesar de ter uma média de apenas dois quartos por jogo, em uma época em que as regras proibiam marcar uma zona da quadra em vez de um adversário, o que tendia a desencorajar jogadores grandes de se manterem perto da cesta. "Se ele jogasse hoje", diz Hardaway, "seria um dos jogadores mais dominantes do esporte".
Fora das quadras, Bol era uma sensação, conseguindo patrocínios normalmente reservados a jogadores muito mais experientes. Ao longo de sua carreira, assinou contratos com a Toyota, Nike, Kodak e Church's Chicken - Bol, diziam os anúncios, "bloqueia sua fome com o Manute Bol Meal, que inclui uma perna e uma coxa de frango frito Church's". Jornalistas esportivos o adoravam porque ele sempre falava o que pensava ("Eu não digo nada a ele", disse Bol certa vez a repórteres, desculpando-se após uma briga em quadra com o pivô do Bulls, Jawann Oldham. "Se eu procuro briga, vou para o Líbano ou talvez para a Líbia e me torno fuzileiro naval"). Os companheiros de equipe o adoravam porque seus bloqueios encobriam seus erros. Ele até conseguiu se tornar membro da família de seu gerente geral, participando de jantares de Ação de Graças na casa dos Ferrys.
Em pouco tempo, Bol conseguiu trazer sua própria família para os Estados Unidos, convidando seu primo Nicola, que jogava pela seleção sudanesa de basquete, e a esposa de Nicola, Achuei, para se mudarem para sua casa em Maryland. Bol também ficou noivo de uma mulher dinka, Atong, e a levou para os Estados Unidos para se tornar sua esposa. Antes de conhecer Atong, ele teve problemas com o namoro. De volta ao Sudão, Bol já havia "fugido" — um termo que os dinkas usam para descrever uma união que ocorre antes da definição do dote —, mas o casamento se desfez quando as famílias brigaram pelo número de vacas. "As pessoas pensavam que, se você se casasse com Manute, sua vida não seria boa", diz Achuei, o primo por afinidade, que se tornou um dos amigos mais próximos de Bol. "Achavam que, por causa de sua altura, ele não viveria muito. Então, ele tinha problemas com mulheres. Ele queria se casar, mas as famílias das mulheres sempre diziam não". Bol ficou emocionado ao se casar com Atong, uma mulher que não estava disposta a ouvir aqueles que alegavam que seu corpo estava destinado a um colapso. Depois de conhecer Atong através de Achuei, Bol pagou um dote de 80 vacas pela mão dela.
Logo a casa dos Bol estava cheia de bebês, pois Atong e Achuei engravidaram quase na mesma época. Atong deu à luz uma menina, Abuk, a primeira dos quatro filhos dela e de Bol. Os médicos disseram a Achuei que ela também teria uma menina. Bol, no entanto, pensava o contrário. Ele insistiu que teria um "sobrinho" - os sudaneses do sul costumam usar rótulos familiares de forma intercambiável - e que o sobrinho se chamaria Manute. Nesse caso, porém, Bol teria que lutar para conseguir o que queria. Primeiro, havia a questão da biologia. O ultrassom deixara claro: o bebê de Nicola e Achuei seria uma menina. Segundo, havia a questão da tradição. Manute era um nome dado apenas a crianças cujos irmãos haviam morrido. Os dinkas desaprovariam se o casal chamasse seu primogênito de Manute.
Dias antes da data prevista para o nascimento do bebê, Manute fez seu discurso mais enfático. Ele havia encontrado uma maneira de contornar as preocupações deles, disse ele, uma desculpa para dar ao primogênito o nome reservado a uma família que havia sofrido uma grande perda. "Não tem problema nenhum em batizá-lo com o meu nome", disse ele, "porque vou morrer jovem".
Quando o trabalho de parto começou, os médicos ficaram preocupados. Não havia nada de grave, mas uma cesárea seria necessária. Do hospital, Nicola ligou para Manute. "Não faça nada", disse Bol. "Espere eu chegar." Católico convicto, ele chegou com água, que usaria para realizar uma bênção. Borrifou a água em Achuei, declarando que não seria necessária uma cesárea; o pequeno Manute nasceria bem. O trabalho de parto transcorreu sem complicações. Achuei deu à luz um lindo menino.
Bol ergueu o bebê no ar, sorrindo enquanto Achuei permanecia sentado, sem palavras, e Nicola observava. Então, ele beijou o menino na testa. Nicola olhou para Achuei e o acalmou: "Este bebê é Manute".
Ele encontrou a felicidade em sua família, mas conforme a carreira de Bol no basquete continuou, sua estatura com os Bullets diminuiu. Seus problemas no ataque persistiram, e ele logo foi rotulado como um jogador de papel, um cara que poderia entrar por alguns minutos e bloquear alguns arremessos, mas nunca ser um titular consistente. O tempo de jogo de Bol diminuiu em suas segunda e terceira temporadas, e em 1988 Washington o trocou para os Warriors. Naquele verão, ele encontrou problemas fora da quadra também. Em julho, ele foi preso e acusado de dirigir sob efeito de álcool em Maryland, e resistiu enquanto a polícia tentava contê-lo com algemas. Quando os policiais o informaram que um advogado nomeado pelo tribunal seria fornecido se ele não pudesse pagar o seu próprio, Bol revelou-se um aprendiz rápido quando se tratava de política americana. "Vocês mantenham seu advogado Ronald Reagan", ele disse a eles, de acordo com o Washington Post. "Eu vou manter meu advogado Jesse Jackson." Ele foi preso novamente por dirigir sob efeito de álcool em agosto daquele ano. Desta vez, ele recusou o teste de sobriedade, dizendo à polícia que Deus lhe deu duas pernas para se sustentar e que ele não deveria ter que se sustentar em uma. "O problema de Manute é que ele ainda não entende o funcionamento desta sociedade", disse Ferry ao Boston Globe sobre as prisões. "Ele não entende as nossas regras. Lembre-se, ele vem de uma sociedade onde é uma conquista simplesmente viver mais um dia. As coisas que são importantes para nós não são grande coisa para ele".
4. Sr. Álibi
Bol chegou ao norte da Califórnia no outono de 1988 para começar o treinamento com o Golden State. Ele se estabeleceu em uma casa modesta em Alameda, nos arredores de Oakland, na Baía de São Francisco. O técnico do Warriors, Don Nelson, há muito cobiçava os serviços de Bol. Nelson acreditava que poderia liberar o potencial que um homem daquele porte deve possuir inerentemente. Um dia, logo após ser negociado, Bol entrou na academia com seus companheiros de equipe para uma rodada de dois treinos diários. Alguns jogadores ainda estavam se esforçando para entrar em forma, mas Bol abordou Nelson com um pedido especial. "Treinador", disse ele, "temos que terminar o treino mais cedo hoje". Quando Nelson perguntou o motivo, Bol o informou que havia um assunto urgente: ele precisava ir para casa porque o técnico da TV a cabo estava chegando. Nelson riu, refletiu sobre o assunto e se dirigiu à sua equipe: "Pessoal, não vamos treinar por muito tempo hoje. Nutie precisa pegar a TV a cabo na casa dele".
"Não tem como ninguém na liga pedir algo assim", diz Winston Garland, que jogava pelos Warriors na época. "E não tem como um técnico deixar outra pessoa escapar impune". Mas Nelson amava Bol. Ele o deixava arremessar de três pontos, dando sinal verde para Bol se ele estivesse livre durante o contra-ataque secundário dos Warriors. Toda vez que Bol arremessava de longa distância, ele quebrava uma regra fundamental ensinada aos grandalhões nas quadras de basquete do mundo todo: caras altos devem ficar perto da cesta. Em vez disso, o mais alto de todos arremessava para longe, com os braços se movendo para trás e para a frente, a bola sendo lançada como se fosse de uma catapulta. Os Warriors frequentemente encerravam os treinos executando um exercício que terminava com Bol arremessando de três pontos. Às vezes, eles executavam o mesmo exercício no início do treino. Se Bol acertasse sua cesta de três pontos, o treino terminava ali mesmo, sem mais trabalho necessário. Nos jogos, a maioria das cestas de três pontos de Bol errava, mas algumas passavam pela rede, inevitavelmente seguidas por aplausos estrondosos. "Só um arremesso desleixado", descreve Rick Mahorn, que jogava pelo Detroit Pistons na época. "Ele conseguia, e você só olhava para ele e pensava: 'Não é uma merda?'".
Embora Bol tenha passado a amar seu arremesso de salto - "Ele começava a falar todo tipo de merda quando fazia arremessos de salto, como se fosse um jogador de beisebol de verdade ou algo assim", diz Mahorn - Bol ainda ganhava dinheiro bloqueando arremessos. Ele afastava possíveis enterradas e gritava para elas não tentarem marcar pontos nele novamente, adotando a frase favorita de todo bloqueador de arremessos: "Tire isso daqui!". Ocasionalmente, porém, os adversários levavam a melhor sobre Bol. Eles subiam para enterrar e ele subia junto, e por algum ato de habilidade, atletismo ou pura sorte, o adversário finalizava com uma enterrada por cima ou ao redor dos braços estendidos de Bol. "Ele odiava passar vergonha", diz Garland, "então estava sempre inventando desculpas". Talvez outro defensor tivesse perdido sua tarefa, ou talvez alguém tivesse bloqueado o caminho de Bol até o aro, mas sempre havia algo ou alguém que Bol podia culpar. Logo, os companheiros de equipe passaram a chamá-lo de Sr. Álibi: o homem com uma explicação para tudo.
Um dia, em novembro de 1988, os Warriors estavam jogando contra o Chicago Bulls, e Michael Jordan pegou a bola no perímetro, contornou o defensor e correu em direção ao aro. Bol e seu companheiro de equipe de 2,13m, Ralph Sampson, subiram com ele, a dupla de bloqueadores mais feroz da liga, enfrentando o melhor jogador da história do esporte. Mas Jordan continuou subindo e então lançou a bola para dentro da cesta, mandando Bol, atordoado, em direção ao banco, onde os companheiros riam, ansiosos para ouvir sua desculpa. "O que aconteceu?", perguntaram. Em resposta, Bol proferiu duas palavras que os jogadores dos Warriors nunca tinham ouvido juntas, unidas em uma frase que logo se tornaria onipresente nos asfaltos dos Estados Unidos. Eventualmente, a lenda diria que Bol criou esse ditado, embora alguns linguistas contestem essa afirmação. De qualquer forma, quando Bol o proferiu em seu barítono retumbante, com sotaque dinka, os jogadores dos Warriors explodiram como se tivessem acabado de ouvir a melhor piada de suas vidas: "My bad", disse ele, "My bad" (uma aplicação gramatical errada, cujo significado poderia ser traduzido como "Foi mal").
Pelo resto da temporada, os jogadores do Warriors repetiam isso sempre que cometiam um erro, sempre com a voz grave e gutural, na melhor das hipóteses, imitando Bol. Quando os jogadores foram trocados, a frase se espalhou, e em pouco tempo todos na liga estavam dizendo: "My bad".
Bol continuou bloqueando arremessos e arremessando de três pontos, e com a virada do outono para o inverno, um padrão surgiu nos jogos em casa do Warriors. Bol pegava a bola fora do arco; a torcida gritava "Arremesse!", então ele arremessava para longe; eles ofegavam quando a bola voava pelo ar e depois gemiam se errasse ou explodiam se caísse, e então voltavam a esperar Bol arremessar novamente. Ele ainda não era um grande jogador, nem mesmo um particularmente bom. Mas o barulho da torcida dizia o que as estatísticas não conseguiam: no final dos anos 1980, Bol era uma estrela.
Por ser uma estrela, o telefone de Bol tocava com frequência, trazendo elogios ou pedidos, apresentando-o a pessoas ansiosas por serem ajudadas por sua fama. E por ser uma estrela, Bol frequentemente não estava em condições de atender o telefone pela manhã - mais uma noite fora, mais algumas rodadas de Heineken ou Beck's. Bol odiava as manhãs. Se um fã se aproximasse dele à noite ou mesmo à tarde, ele oferecia um sorriso, até mesmo fazendo piadas sobre sua altura, se estivesse de bom humor. Sua simpatia natural era motivo de orgulho, e ele trabalhou duro para se tornar uma figura cult e o favorito dos fãs, apertando mãos e dando autógrafos. As manhãs, no entanto, eram diferentes. "Naquela época, voávamos em voos comerciais, então sempre tínhamos que acordar na manhã seguinte ao jogo e ir para o aeroporto", diz Hersey Hawkins, um ex-companheiro de equipe. "As pessoas sempre vinham e queriam falar com ele, dizendo coisas como 'Como é ser tão alto?' e ele apenas dizia 'Vá embora' e resmungava algo como 'Americanos idiotas'". "Nós sempre ríamos quando as pessoas se aproximavam dele, porque sabíamos o que estava por vir".
Mas, numa manhã no final de 1988, o telefone de Bol tocou com tanta insistência que ele foi forçado a se levantar e atender. Ele estava mal-humorado, mas ouviu a voz do outro lado da linha. O homem ao telefone falava dinka. Bol falava sua língua nativa em casa e com os outros sudaneses do sul que estavam espalhados pelos Estados Unidos, mas a maioria deles sabia que não devia ligar tão cedo. Naquela época, ligações do Sudão eram raras. As tarifas eram muito caras e as chances de usar um telefone, muito escassas.
Bol desligou, furioso. Algumas semanas depois, o homem - um representante do "Movimento de Libertação do Povo Sudanês", os rebeldes do sul do Sudão - visitou a área da Baía de São Francisco enquanto viajava pelos EUA para obter apoio para sua causa. Quando o interlocutor chegou, Nicola o alertou para não mencionar a conversa telefônica. Quando se encontraram pessoalmente, Bol começou a mudar de ideia. Ele gostava daquele cara, gostava de sua paixão, de suas ideias. Demorou um pouco para convencê-lo, mas o representante finalmente conseguiu. Era hora, decidiu Bol, de se juntar à luta.
Antigos adversários, Bol e Charles Barkley, membro do Hall da Fama,
tornaram-se companheiros de equipe e amigos na Filadélfia
"Se todos no mundo fossem um Manute Bol, este seria o mundo
em que eu gostaria de viver", disse Barkley certa vez
(Foto de Damian Strohmeyer / Sports Illustrated)
5. Uma Terra Amaldiçoada
"Quando Alá criou o Sudão, ele riu", diz um antigo provérbio árabe. Alguns interpretam o ditado como se Deus estivesse encantado com sua criação, enquanto outros acreditam que indica que o Todo-Poderoso é um sádico. Um jornalista britânico do século XIX, G.W. Steevens, pareceu adotar esta última visão quando escreveu: "O Sudão é um deserto amaldiçoado por Deus, um limbo vazio de tormento para todo o sempre".
O país agora conhecido como Sudão tem aproximadamente três regiões principais: o norte árabe e muçulmano, o oeste negro e muçulmano (conhecido como Darfur) e o sul negro, cristão e animista. A vila de Bol, Turalei, fica perto da intersecção de todos os três, tecnicamente no sul do Sudão, mas não muito longe de Darfur ou do país árabe. Da antiguidade ao século XX, o sul do Sudão foi regularmente saqueado por seus vizinhos do norte, fornecendo ao Egito e ao norte do Sudão marfim, ébano, ouro e escravos. Os britânicos chegaram no final dos anos 1800 e governaram o território de 1899 a 1956, primeiro em conjunto com o Egito e depois por conta própria. O nome Sudão deriva do árabe "bilad al-sudan", que significa "terra dos negros". Mas quando os britânicos renunciaram ao controle, eles agruparam os negros do sul e do oeste com os árabes do norte, concedendo a condição de estado a uma região fragmentada, descombinada e criada artificialmente.
No primeiro dia em que passou a existir como nação soberana, o Sudão já estava mergulhado numa guerra civil. Após um motim de oficiais do exército sulista, milícias pró-governo, compostas em grande parte por nortistas e darfurianos, devastaram o sul. A guerra durou de 1955 até que os dois lados assinaram um tratado em 1972. A paz durou pouco mais de uma década, e no ano em que Bol deixou o Sudão e foi para os Estados Unidos, os combates recomeçaram, com as aldeias escassamente armadas do sul se mostrando impotentes contra as milícias do norte, munidas de kalashnikovs e facões. Pouco depois de Bol chegar aos Estados Unidos, ele soube que seu pai havia morrido. Ele retornou ao Sudão para lamentar com sua família, mas o acesso à região dominada pelos dinkas do país foi barrado. Ao longo da guerra, Bol diria mais tarde, ele perderia 250 familiares, alguns morrendo nas mãos dos militantes, outros vendidos como escravos ou mortos pela fome induzida pela guerra.
Durante todo o seu tempo na NBA, Bol dava dinheiro a qualquer membro da família que pedisse. Não importava quem fosse — Bol sempre dava. "Há um problema na cultura dinka", diz Nicola. "Cada membro da família deve ser tratado da mesma forma que seu irmão mais próximo. Manute nunca descobriu como encontrar um equilíbrio entre o jeito americano e o jeito dinka". Apesar de fazer contribuições para familiares necessitados, Bol hesitou em se envolver na política, temendo que o governo de Cartum prejudicasse sua família ou restringisse suas visitas. Assim, durante a maior parte da década de 1980, o homem dinka mais famoso do mundo ficou à margem enquanto seu povo era massacrado.
Logo após receber aquele telefonema matinal em 1988, Bol mudou de ideia. Após se reunir com o representante do movimento SPLM, Bol ajudou a promover uma campanha de arrecadação de fundos chamada "Operação Linha de Vida Sudão", que fornecia ajuda a refugiados em todo o sul. Bastou isso para que seus temores se confirmassem. Em sua visita seguinte a Cartum, ele foi preso e as autoridades o acusaram de financiar a rebelião. Bol foi libertado após algumas horas, mas o incidente pareceu alimentar sua ânsia de contribuir. Meses depois, de volta a Washington, ele se encontrou com John Garang, o líder dos rebeldes do SPLM.
Orador eletrizante e guerreiro indomável, Garang galvanizou os sulistas e unificou o exército rebelde. Ao discursar diante de multidões, Garang pregava o marxismo. Em seus relacionamentos pessoais e profissionais, ele agia como um utilitário oportunista. "Garang era um especialista em sobrevivência — alguém que sabia se curvar ao vento e, ao mesmo tempo, manter seus objetivos políticos, alguém que sabia parecer tudo para todos", disse certa vez à BBC o cineasta e especialista em Sudão Peter Moszynski.
Bol ficou encantado com Garang, que lhe descreveu a desolação em sua terra natal. O SPLM vinha enfrentando dificuldades para obter apoio dos Estados Unidos, em parte devido às simpatias comunistas de seus líderes. Embora alguns países da África Oriental tenham apoiado o SPLM, o movimento teve dificuldades para levantar fundos suficientes. Garang contou a Bol que precisavam dos dinkas mais ricos para ajudar seu povo.
Nos anos seguintes, Bol contribuiu com US$ 3,5 milhões para o SPLM de Garang. De tempos em tempos, Garang ia a Washington e realizava reuniões clandestinas na casa de Bol. Eles posicionavam guardas do lado de fora, de olho em terroristas ou espiões, enquanto se refugiavam no porão, onde um grupo de sudaneses ricos — árabes e negros — discutia política e guerra. Bol informava Garang sobre a opinião popular entre os americanos, informando-o sobre o que esperar em reuniões com autoridades americanas. "Em Washington, Manute era o homem de John Garang", diz Ed Bona, primo de Bol. "Garang precisava de Manute". Bol fazia viagens secretas à zona de guerra, escondendo-se no mato com Garang e seus homens, envolvendo-se na estratégia e na política da guerra.
Além de suas visitas à mata, Bol viajou para campos de refugiados em Pinyudo, Etiópia, e em regiões controladas por rebeldes no Sudão. Ele pagou por comida extra para ser dada aos refugiados, que subsistiam principalmente com uma refeição por dia de grãos e feijões fornecidos por organizações humanitárias. Enquanto caminhava pelos campos, Bol viu rostos familiares. Pessoas com quem ele havia crescido em Turalei estavam agora espalhadas, muitos dos homens lutando na guerra, muitas das mulheres tentando sobreviver nos campos. Turalei em si não existia mais. Ela havia sido destruída, disseram-lhe, como muitas aldeias no sul do Sudão. O pedaço de terra que eles um dia chamaram de lar não era mais um lugar adequado para a vida.
Em uma viagem ao município de Pochala, controlado pelos rebeldes, no início dos anos 90, Bol parou, como costumava fazer entre as massas, para apertar as mãos. A essa altura, ele já havia se tornado uma lenda entre os refugiados, tanto por seu sucesso internacional quanto por seus esforços para ajudar o Sudão. Crianças se aproximavam, com os olhos arregalados, boquiabertas com o homem que haviam sido ensinadas a reverenciar. Bol estendeu a mão e tocou um menino, um que conhecia o nome de Bol há anos, que ouvira tudo sobre o homem alto e engraçado que havia deixado sua cidade natal, Turalei, agora vazia, para ir para a América. O menino tinha uma estrutura encolhida e olhos fundos, os dentes crescidos em direções diferentes, afastando-se uns dos outros como se cada incisivo e canino tivesse vida própria. Seu nome era Victor, ele tinha cerca de 12 anos e frequentemente sentia fome e medo. O menino se levantou e olhou para cima. Anos depois, ele ainda se lembraria das lágrimas nos olhos de Bol, desanimado com o menino cuja trágica situação ele pouco podia fazer para mudar. Victor não conseguia imaginar que um dia os dois se encontrariam novamente e que seria ele quem mudaria a vida de Bol.
6. Em Fuga
No momento em que a milícia chegou, Victor Anyar, de 8 anos, estava em um pasto, cuidando das vacas de sua família. Foi em algum momento do final da década de 1980 - os anos e os ataques se sucedem - quase uma década antes que ele encontrasse Manute Bol no acampamento de Pochala. Em Turalei, eles sabiam há dias que os murahaleen - os milicianos do norte - estavam chegando. Os soldados chegaram perto do anoitecer, a cavalo.
Victor se lembra de seu pai reunindo a família em um grupo, dizendo-lhes para ficarem onde estavam, organizarem-se, esperarem os assassinos passarem. Ele se lembra de que seu pai ficou parado por vários momentos, até que houve uma explosão e seu pai caiu, baleado pelos soldados, desabando no chão, morto. Victor correu. Para longe da aldeia, para longe das balas, para longe do pai que estava morto, da mãe e dos irmãos que gritavam, os quais ele provavelmente nunca mais veria. Os murahaleen matariam muitos meninos. Eles escravizariam várias meninas. Mas eles não pegariam Victor porque Victor era rápido, mais rápido do que nunca, correndo para longe do horror e para as profundezas da natureza, indo para longe das estradas até que não pudesse mais ouvir tiros e gritos, até que os únicos sons fossem os sons da natureza selvagem, o zumbido, o uivo e a trilha sonora estridente de uma noite sudanesa.
Na noite seguinte, os leões chegaram. Eram três, ele se lembra: uma mãe, um pai e um filhote. O filhote se aproximou de Victor e começou a coçar e cheirar sua pele. Victor gritou: "Vá embora!", desesperado para afastá-lo, mas com medo de despertar a ira da mãe. Finalmente, ele chutou e gritou, e quando a atenção do leão se dissipou, ele desapareceu, correndo novamente. Correu até sentir que não estava correndo, até que suas pernas pareceram ter parado de se mover e seus braços pararam de bombear e ele estava flutuando, empurrado, carregado ou impelido por uma força externa ao seu corpo, até que finalmente tropeçou em outros humanos, refugiados dinkas com os quais, pelo menos por enquanto, estava seguro.
Eles caminharam, atravessando o sul do Sudão, uma região aproximadamente do tamanho do Texas, em direção a um campo de refugiados na Etiópia, que faz fronteira com o leste do país. O grupo incluía cerca de 20 meninos e um líder adulto, seguindo marcas deixadas nas árvores para indicar o caminho. Às vezes, encontravam soldados do SPLA, a ala militar do SPLM, que traziam comida. "Comíamos naquela época", conta Victor. "Isso nos ajudou a não morrer".
Após três meses de caminhada, chegaram à Etiópia, onde começaram suas vidas como refugiados no campo de Pinyudo. Não havia escola. Victor viveu lá por três anos, até que um dia a violência o encontrou novamente. A Etiópia estava há muito tempo envolvida em sua própria guerra civil, e a luta se espalhou e ameaçou os refugiados, cujo campo compartilhava terras com o povo Anuak, uma tribo minoritária que havia sido oprimida pelo governo e se ressentia dos estrangeiros. Um dia, os Anuak atacaram o campo e, de repente, os refugiados estavam correndo novamente, dezenas de milhares deles ao mesmo tempo, desesperados para se libertar. Enquanto Victor corria, corpos caíam ao seu redor, a maioria com balas nas costas. O ataque à aldeia de Victor tinha sido caótico, com todos fugindo em direções diferentes, cada um procurando maneiras diferentes de escapar. Desta vez, pareceu mais ordenado, sistemático. Quase todos seguiram a mesma direção: de volta ao Sudão. Logo chegaram à fronteira, marcada pelo rio Gilo, infestado de crocodilos.
Enquanto as hordas de crocodilos desciam o rio, os crocodilos se aqueciam ao sol. Os refugiados tinham uma escolha: ficar para trás e esperar para serem baleados ou pular e correr o risco de serem comidos. Victor enfrentava um problema específico: ele nunca aprendera a nadar. Observou os meninos correndo para a água, alguns corpos ficando moles nas mandíbulas dos crocodilos. Observou outros perguntarem: "Quem sabe nadar?". Quando um menino mencionou que sabia, vários que não sabiam pularam em cima dele quando ele entrou na água, implorando para serem carregados. Mas o peso deles apenas empurrou o nadador para debaixo d'água, condenando todos eles.
Junto com vários outros meninos, Victor correu para uma parte menos movimentada do rio. Um homem nadou até a outra margem e amarrou uma corda a uma árvore, atravessando o rio com ela. Victor agarrou a corda e moveu as mãos uma após a outra, avançando lentamente.
Bol tenta bloquear um arremesso de Dan Majerle, do Phoenix Suns
(Foto de John W. McDonough / Sports Illustrated)
7. Grande gastador
No início da década de 1990, Bol já havia lucrado. Após a temporada 1989/90, o Golden State Warriors o trocou com o Philadelphia 76ers, e lá Bol se tornou milionário: seu salário anual ultrapassou US$ 1,25 milhão em cada um dos seus três anos com o time. Grande parte de sua nova fortuna foi destinada ao financiamento da rebelião no sul do Sudão, mas Bol se permitiu algumas indulgências.
Na maioria das vezes, ele pagava bebidas, para si mesmo, para seus companheiros de equipe, para amigos novos e antigos, para qualquer um que estivesse perto dele no bar. "Ele adorava ir a casas noturnas", diz Nicola. "Ele adorava a atenção, adorava garantir que todos se divertissem." Mesmo quando saía com companheiros de equipe muito mais ricos do que ele, Bol insistia em pagar a conta. "Às vezes, tínhamos que dizer a ele: 'Manute, nós também temos dinheiro. Tudo bem para nós pagarmos'", diz Hersey Hawkins, um companheiro de equipe nos 76ers.
Em quadra, Bol continuou bloqueando arremessos, convertendo bolas de três pontos e errando bandejas. Mesmo sem nunca ter se tornado um dos melhores jogadores da liga, ele permaneceu entre os mais populares. "Quando você chega à NBA, às vezes para de enxergar o basquete como um jogo e passa a encará-lo como um negócio", diz Hawkins. "Jogando com Manute, ele tinha um jeito de te levar de volta aos tempos em que você simplesmente amava jogar. Manute te fazia sentir como se você pudesse jogar de graça".
"Ele não tinha um único relacionamento de rivalidade na liga", diz Winston Garland, que jogou com Bol no Warriors. "Quando a buzina tocava, todos adoravam Manute. Antes do jogo, depois do jogo, todos queriam estar perto dele". Todos, exceto, ocasionalmente, crianças assustadas. Enquanto jogava pelo Philadelphia, Bol viu a família de Hawkins no túnel após uma partida e estendeu os braços para cumprimentar as crianças. As crianças choravam quando ele tentava abraçá-las, com medo da criatura gigante e alienígena que haviam encontrado. Bol riu e depois resmungou: "Os filhotes de Hawkins são dóceis, assim como o papai".
Na Filadélfia, Bol aproveitou a proximidade com Atlantic City, escapando para jogos de azar sempre que sua agenda permitia. Atong certa vez ganhou US$ 465.000 jogando caça-níqueis no Trump Taj Mahal. Na maioria das vezes, porém, Bol perdia. "Mesmo quando ganhava", diz Abdel Gabar Adam, amigo de Bol, "ele simplesmente gastava o dinheiro ali mesmo". Seu agente, Frank Catapano, conta: "Ele adorava jogar e não queria ouvir ninguém que lhe dissesse o que fazer com seu dinheiro. Ele fazia o que queria".
Bol, no entanto, via seus vícios como ferramentas para o bem. Ele usava happy hours e viagens de jogo como fóruns diplomáticos. Enquanto morava na Filadélfia, Bol fez amigos darfurianos e árabes, muitos dos quais mantinham influência política no Sudão. Embora alguns dinkas desaprovassem, Bol "acreditava que poderíamos todos viver em paz se nos conhecêssemos", diz Adam, um darfuriano.
Bol também se consolidou como ativista, emergindo como a face que o sul do Sudão mostrou à América. "Se eu estivesse no Sudão agora, estaria morrendo de fome com o resto do meu povo", disse ele certa vez em um banquete da Oxfam, uma cena recontada no livro de Leigh Montville, "Manute: The Center of Two Worlds", de 1993. "Eu como boa comida aqui na América e vou dormir à noite e, quando acordo de manhã, vejo algo na TV e me sinto péssimo. Não há nada que eu possa fazer. Tenho cerca de 70 pessoas desabrigadas na capital do Sudão. Elas não têm para onde ir".
Bol assinou com o Miami Heat em outubro de 1993 e prontamente pulou dois jogos da pré-temporada para participar de reuniões sobre o Sudão em Washington. O time o multou em US$ 25.000, mas doou o valor para uma instituição de caridade sudanesa. Ele discursou perante o Congresso, implorando por ajuda e alertando sobre um homem que vivia no Sudão e planejava a morte de americanos: Osama bin Laden. Como ele sabia da existência do então obscuro líder da Al-Qaeda, na época apenas um pequeno ponto no radar dos Estados Unidos, os familiares só podiam especular. "Manute era como um político, então ele conhecia todos os segredos", diz seu primo Achuei. "Ele sabia que Bin Laden estava matando pessoas no sul. O governo não diria que Bin Laden estava no Sudão, mas Manute sabia".
À medida que seu ativismo crescia, a carreira de Bol no basquete estagnou. Miami o dispensou em janeiro de 1994. Os Warriors lhe concederam outro contrato pouco antes da temporada 1994/95, mas menos de um mês após o início da temporada, Bol caiu no chão durante um jogo em Charlotte com uma ruptura na cartilagem do joelho. Oito dias depois, ele passou por uma cirurgia artroscópica.
Enquanto tentava se recuperar do joelho, Bol tentou uma nova profissão. Abriu um restaurante e boate em Washington chamado "Manute Bol's Spotlight", servindo coquetéis como "Manute's Slam Dunk" e "Bol's Blocked Shot". O restaurante era uma parceria com Deng Deng Nhial, o amigo que havia se mudado com Bol para os Estados Unidos mais de uma década antes, jogado pelo Bridgeport e permanecido no país. "Eles não sabiam o que estavam fazendo", diz Bona, primo de Bol, sobre o restaurante. "Manute nunca soube administrar seu dinheiro".
Após a reabilitação, Bol passou vários meses jogando pelo Florida Beach Dogs na Liga CBA, uma liga menor onde jogadores rejeitados e veteranos jogavam por salários de cinco dígitos e uma chance de manter vivos seus sonhos na NBA. Ele andava de ônibus, voava na classe econômica e nunca reclamava quando o dono o levava para dar autógrafos. Certa vez, Bol quebrou o toque de recolher na noite anterior a um jogo, bebendo até as 6 da manhã, mas a diretoria do time não conseguiu puni-lo. Ele arremessou todas as bolas de três pontos que queria. "Alguns jogadores têm muita liberdade", diz Eric Musselman, seu treinador na época. "Manute, nós o deixávamos fazer o que quisesse". Ele sentava em bancos de bar em Yakima, Washington, e Sioux Falls, Dakota do Sul, entretendo companheiros de equipe e espectadores com histórias de mundos que eles nunca conheceriam: a vila, o mato, a NBA.
Em poucos meses, Bol desistiu do acordo coletivo. O restaurante faliu. Ele tentou jogar na Itália e no Catar, mas a liga de nenhum dos dois países ofereceu um contrato aceitável. Após 10 temporadas na NBA, Bol havia economizado entre US$ 50.000 e US$ 100.000, estima Bona. Com isso no banco, ele voltou para Cartum.
8. Preso
Bol retornou a Cartum por motivos complexos, nenhum deles bons. Seu dinheiro já estava em grande parte gasto. Ele havia vendido sua casa na Califórnia e sua casa em Maryland estava prestes a ser retomada, então Bol se mudou para a casa de parentes que estavam hospedados em uma casa que ele mantinha na capital sudanesa.
Após anos de crescentes conflitos, seu casamento com Atong finalmente se desintegrou para sempre, e ela permaneceu nos Estados Unidos com os quatro filhos. A madrasta de Bol havia morrido em um acidente de carro, então ele assumiu os cuidados da meia-irmã, que morava em Cartum. E havia também a política, tanto de reconciliação quanto de vingança.
À medida que a carreira de Bol na NBA declinava, a guerra civil sudanesa parecia fazer o mesmo. Surgiu uma cisão entre os rebeldes do SPLM, e uma coalizão de líderes do sul se separou de Garang e negociou o "Acordo de Paz de Cartum". O tratado, que excluía Garang e o SPLM, levou a uma maior cooperação entre os rebeldes do sul e a Frente Nacional Islâmica, o movimento islâmico do norte liderado pelo presidente Omar al-Bashir na capital. A paz, pelo menos nominalmente, parecia a caminho do Sudão, e Garang, por muito tempo o líder inquestionável do sul, havia sido excluído.
O mesmo parecia acontecer com Bol. Embora outrora aclamado como um herói, uma peça-chave no futuro do novo Sudão, agora era ignorado. Não tinha mais dinheiro para oferecer, então a atenção que recebia diminuiu. "John Garang era um grande guerreiro, um homem brilhante, mas usava pessoas", diz Bona. "Quando Manute não pôde mais dar todo aquele dinheiro ao SPLM, Garang não teve mais utilidade para ele". O governo do norte, em Cartum, no entanto, achou que poderia usá-lo perfeitamente. Então Bol foi para a capital, onde recebeu um cargo ministerial como ministro da Juventude e Esportes do país, tratado como realeza pelos árabes que outrora o chamavam de escravo. "Isso chocou a todos nós", disse mais tarde Acuil Malith Banggol, ex-combatente do SPLA, ao jornal Independent de Londres. "Ele não é um político experiente, então deve ter sido vítima de palavras e promessas bonitas. Infelizmente, ele não falou conosco sobre isso". Bol acreditava que o tratado representava um grande passo à frente para o Sudão, ele disse mais tarde a amigos, e aproveitou a oportunidade para se juntar a um governo unificado.
Um evento no verão de 1998, no entanto, mudou tudo isso. Na noite de 20 de agosto, Manute sentou-se no terraço de sua casa em Cartum, observando bombas caírem do céu. Os EUA, ele logo descobriria, estavam atacando Cartum, lançando mísseis de cruzeiro contra uma fábrica farmacêutica que autoridades americanas acreditavam estar envolvida na produção de armas químicas para Bin Laden. O governo Clinton finalmente decidiu agir contra o homem sobre o qual Bol, entre outros, havia alertado há muito tempo. Eles não encontraram Bin Laden em um ataque lançado no mesmo dia contra um campo de treinamento no Afeganistão, e relatos posteriores questionariam se a fábrica de Cartum estava tramando algo nefasto. Mas para Bol isso não importaria: naquela noite, ele diria mais tarde, foi quando o governo sudanês começou a suspeitar que ele era um espião.
O tratado de paz, descobriu-se, era uma farsa. No sul, a matança continuou. E com Bol sob suspeita e a sharia, a lei islâmica, governando Cartum, o governo deu a Bol uma escolha: converter-se ao islamismo ou perder o emprego. Como muitos de Turalei, Bol era cristão há muito tempo, misturando o catolicismo com práticas e crenças tribais. Ele cresceu aprendendo a odiar e temer os muçulmanos. Ao longo dos anos, tornou-se amigo de muitos deles. Agora, estava disposto a trabalhar com eles. No entanto, não estava disposto a se tornar um deles.
Bol recusou o emprego. Não haveria salário nem carro grátis, como também lhe fora prometido. À medida que suas economias se esgotavam, Bol vendeu a casa em Cartum. Ainda desconfiando que ele fosse um espião, autoridades governamentais disseram a Bol que ele seria vigiado e que jamais o deixariam sair da cidade. Terminado seu casamento com Atong, ele se casou novamente, duas vezes. Em 1998, casou-se com Ajok, uma mulher de outra região do sul do Sudão. Mais tarde naquele ano, casou-se com Ayak, de Turalei. Bol mudou-se para uma casa alugada nos arredores da cidade, pagando US$ 200 por mês e dividindo o espaço com 14 parentes. Ele pediu dinheiro emprestado a Catapano, seu agente, embora Catapano agora diga que nunca esperava ser reembolsado. Poucos anos antes, Bol era milionário, atendendo pedidos de ajuda de seus compatriotas. Agora ele era a voz do outro lado da linha. O reumatismo tomou conta de suas articulações. Sem dinheiro para o tratamento, ele permaneceu imóvel, suportando a dor.
De volta aos Estados Unidos, Ed Bona acordou uma manhã com um e-mail em massa que soava desesperador, originado entre os amigos de Bol e encaminhado a todos aqueles que o amavam. Dizia que ele estava doente, que se não recebesse ajuda, morreria. Bona ligou para Bol. Ele não estava morrendo, disse Bol; ele estava preso e precisava de ajuda para escapar de Cartum. Bona e vários amigos em Connecticut começaram uma campanha na mídia para chamar a atenção para a situação de Bol. A NBC foi a Cartum para uma história. Um repórter, Declan Walsh, escreveu artigos para o The New York Times, o San Francisco Chronicle e o The Independent. Bona tentou arranjar uma passagem de avião, mas não conseguiu encontrar uma agência de viagens que lhe permitisse comprar uma nos Estados Unidos para Bol buscar em Cartum. Então, Bona ligou para um primo em Londres, que encontrou uma agência que cooperaria e lhe daria uma passagem para o Egito. Bol subornou autoridades locais para lhe darem um passaporte e validar seus planos de viagem. Ele apareceu no aeroporto pouco antes da partida para não dar tempo ao governo de perceber que ele estava saindo do país.
Alguém, no entanto, aparentemente percebeu o que estava acontecendo, e Bol foi retirado do voo logo após embarcar. Ele não tinha passagem, disseram as autoridades, embora seus computadores tenham confirmado que sim. Bol disse às autoridades que, se não o deixassem embarcar, ele marcharia diretamente para a sucursal da BBC em Cartum e contaria sua história. Por fim, as autoridades cederam. Bol, concluíram, causou mais problemas do que valia a pena. Ele conseguiu um assento em um voo posterior e, em 12 de julho de 2001, mais de três anos após seu retorno ao Sudão, partiu.
No Cairo, Bol trabalhou com a embaixada americana para obter vistos para si e sua família viajarem aos EUA. Ele conseguiu seus documentos e os de sua esposa, Ajok (Ayak permaneceria no Sudão), mas surgiram problemas quando Bol tentou obter um visto para sua meia-irmã, Achuil. Embora cuidasse dela desde a morte da mãe, Bol não tinha documentação que comprovasse ser o tutor de Achuil. Para reentrar no país sem a documentação, ele teve que solicitar o status de refugiado.
Bol esperou meses para se reunir com autoridades americanas sobre o pedido. Sentado, ocioso, no Cairo, em 11 de setembro de 2001, assistiu ao noticiário e viu as torres gêmeas em chamas. Quando soube que Bin Laden havia sido o responsável - o mesmo Bin Laden sobre o qual falara com membros do Congresso anos antes -, ficou desolado. Depois disso, ele afirmaria, para quem quisesse ouvir, que tudo poderia ter sido evitado se o governo americano tivesse ouvido seus alertas quando os fez pela primeira vez.
Poucos meses depois, seu pedido de imigração foi atendido. Três anos depois de chegar ao Sudão como dignitário, ele retornou aos Estados Unidos, refugiado.
9. Custe o que custar
No dia em que virou motivo de chacota, Bol usava calção vermelho, luvas pretas e o olhar severo de um homem que se importava pouco ou muito. Ele havia retornado aos Estados Unidos em 7 de março de 2002 e, agora, menos de três meses após seu retorno, havia conseguido outra oportunidade de competir em rede nacional. Desta vez, era boxe. Mais uma vez, seu tamanho o ajudou a conseguir o emprego, mas agora a habilidade importava pouco. Não era um esporte. Era um show de horrores.
Como o público americano logo suspeitaria, Bol estava um pouco desesperado. Ele morava em um apartamento vago em West Hartford, Connecticut, pago pela Catholic Charities. Logo após retornar aos EUA, ele se encontrou com Bona e vários amigos para discutir seu futuro. Ele teria oportunidades, pensava ele, de ganhar dinheiro com seu nome, encontrando compromissos para palestras e sessões de autógrafos e aceitando pequenos patrocínios para pagar contas. Com dinheiro suficiente, Bol poderia não apenas sustentar sua família, mas também ajudar Bona com a "Ring True Foundation", que ele havia criado para ajudar refugiados sudaneses. Eles pensaram em maneiras de colocar Bol diante de um público nacional, informando aos marqueteiros que ele estava de volta.
Em março, a Fox exibiu um especial chamado "Celebrity Boxing", colocando celebridades de segunda categoria e veteranos em um ringue para trocar golpes. A revista Time chamou isso de "o mais novo e lendário ponto baixo dos reality shows". Naturalmente, foi um sucesso. E quando Bol teve a ideia de participar de um "Celebrity Boxing 2", ele embarcou imediatamente. "Desde o começo, ele sabia no que estava se metendo", diz Bona. "Todos sabiam qual seria a reação. Ele não se importava. Ele achou que seria divertido competir pelos fãs. Ele não se preocupou com tudo isso". Em vez disso, ele se preocupou em encontrar um oponente. Bol sugeriu Dennis Rodman, o bad boy da NBA que pintava o cabelo, se vestia de mulher, era extravagante e falava palavrões, e que havia competido como lutador profissional após se aposentar da liga. Um dos amigos de Bol ligou para a Fox, e a emissora agarrou a chance de tê-lo lutando. A Fox pagou US$ 25.000 à maioria dos competidores, mas, de acordo com formulários da Receita Federal, a emissora pagou US$ 26.510 à Fundação Ring True, e Bona afirma que Bol recebeu US$ 25.000 adicionais. Com Bol a bordo, a Fox ligou para convidar Rodman para competir. Ele recusou. A emissora ofereceu uma alternativa: William "Geladeira" Perry. Perry havia sido um "defensive end" da NFL, a liga profissional de futebol americano, um homem acima do peso, do tamanho de uma bola de boliche, que se tornou uma sensação quando o Chicago Bears começou a colocá-lo como "running back". Assim como Bol, ele era uma aberração como atleta, talentoso, mas nada convencional, conhecido tanto por sua personalidade quanto por seu jogo.
Ao retornar aos EUA, Bol recebeu tratamento para reumatismo e começou a correr, treinando para se preparar para a luta. Ele era fã de boxe há muito tempo, indo a lutas entre sessões de apostas em Atlantic City. Ele também amava a luta livre profissional, com sua selvageria, teatro e comédia, tudo ao mesmo tempo. Ele não queria apenas vencer; queria que todos que assistissem dissessem que Bol e Perry tinham sido as atrações principais, os lutadores que fizeram tudo valer o preço do ingresso. Bol, ao que parecia, era a única pessoa nos Estados Unidos que não via o Celebrity Boxing como uma piada.
A luta durou três rounds, com Bol dominando do início ao fim. Perry, que havia engordado para cerca de 170 kg, desferia socos ocasionais, mas passava a maior parte do tempo se esquivando dos braços finos de Bol. Bol parecia lânguido, mas seu alcance era longo demais, com cruzados, jabs e, ocasionalmente, uppercuts. Por fim, Perry simplesmente se encolheu em seu canto. No final, Bol venceu por unanimidade, e quando o narrador da luta levantou o braço, Bol disse que só queria ter lutado com mais afinco.
Várias semanas depois, Bol e Bona foram a um jogo de playoff entre Celtics e Nets em Boston. "Entramos na arena e Manute quase causou um tumulto", conta Bona. "Eles gritavam: 'Vocês conseguiram! Vocês venceram o Geladeira!'" Bol riu, acenou e deu autógrafos, sorrindo enquanto gritavam seu nome. Bona ligou para um amigo: "Se alguma vez houve alguma dúvida se isso era ou não uma boa ideia", disse ele, "acabou". Mais uma vez, Bol era uma estrela.
A partir daí, as ofertas aumentaram. Ele assinou um contrato com um time de hóquei da liga menor, o "Indianapolis Ice", mas quando Bol vestiu o uniforme, seus pés começaram a inchar nos patins, e ele trocou o uniforme antes do primeiro jogo terminar. Assinou um contrato para se tornar jóquei no Hoosier Park, em Indiana. Fez provas de sedas e foi pesado com os outros participantes, mas nunca montou em um cavalo. À medida que o público ouvia mais sobre suas travessuras para arrecadar dinheiro, ele era chamado de santo ou lamentado como um caso de caridade. "Achei triste ele se transformando em um espetáculo", diz Catapano. Ele ligou para Bol, dizendo: "Quero te ajudar, mas não quero fazer de você um circo".
Enquanto reabastecia sua conta bancária, Bol reconectou-se com a diáspora sudanesa do sul. De repente, eles estavam por toda parte - de Omaha a Syracuse, de Atlanta a San Jose - americanos recém-estabelecidos, trazidos para os Estados Unidos como refugiados. Em sua maioria jovens e homens, popularmente chamados de "Garotos Perdidos do Sudão", logo estariam escrevendo livros e estrelando documentários. Para os Garotos Perdidos, Bol era um deus, o homem que fingiam ser enquanto brigavam por uma bola de basquete em Pinyudo. Ele viajou pelo país falando com grupos recém-chegados deles, incentivando-os a conquistar o respeito dos americanos. Mesmo tendo se tornado um figurante profissional, dizem amigos, Bol ainda seguia seus próprios conselhos, dedicando o máximo esforço a tarefas mundanas e sempre chegando na hora. Nos Anos 1980, Bol era um dos poucos sudaneses do sul que viviam nos Estados Unidos. Agora, quando reuniões eram realizadas para todos os residentes americanos da região de Twic, milhares de pessoas compareciam. Bol conheceu sobrinhos que nunca soube que tinha e os tratou como se fossem próximos há anos, viajando pelo país para aniversários e formaturas. Um deles, Mayom Majok, havia perdido o pai na guerra e, quando estava pronto para se casar, Bol fez os arranjos tradicionais.
Mas a renda diminuiu quando os problemas começaram. Um dia, em 2003, Ajok saiu furioso de casa durante uma discussão acalorada. Bol o seguiu, ainda discutindo, até que logo ambos chegaram a uma delegacia de polícia próxima. O casal foi preso por perturbação da paz. Então, em fevereiro de 2004, após outra discussão, Bol foi acusado de agressão de terceiro grau. Citando fontes anônimas, o New York Daily News relatou que Bol havia batido uma porta que atingiu a cabeça de sua filha Abuk e, em seguida, chamou a polícia. "As coisas aqui e no Sudão são muito diferentes", diz Abuk agora quando questionada sobre a violência de Manute, embora ela se recusasse a discutir detalhes. "Coisas que são aceitáveis no Sudão não são aceitáveis nos EUA". Diferenças culturais à parte, os incidentes lançaram uma sombra sobre a imagem de Bol.
Bona repreendeu Bol. "Eu dizia a ele: 'Você não pode fazer esse tipo de coisa'", conta Bona. "Eu disse a ele: 'Se você tiver uma discussão com sua esposa, saia de casa, vá até West Hartford e tome uma bebida'". Após as prisões, empresas e organizações relutaram em contratar Bol. A renda que ele vinha ganhando diminuiu e depois parou.
10. Quebrado
Bol não sabia que o motorista estava bêbado. Talvez fosse ingênuo; talvez estivesse distraído. Seu advogado insiste que o próprio Bol não estava bêbado, mas em noites como aquela, ele raramente recusava pelo menos um ou dois copos. Era uma noite de verão de 2004 no cassino Mohegan Sun, em Connecticut. Bol tinha acabado de passar a noite jogando e assistindo a um jogo da WNBA. Ele estava sozinho e impossibilitado de dirigir, com a artrite prejudicando seus joelhos, então chamou um táxi.
"O carro é um problema na minha família", disse Bol certa vez a um amigo. "Ele mata pessoas". Se a guerra era a maior ameaça à família Bol, talvez o veículo motorizado fosse a segunda maior. Pelas suas contas, os carros haviam matado 19 de seus parentes. Naquela noite, o motorista do táxi não só estava bêbado, como também usava a carteira de habilitação suspensa, acelerando pela rodovia com Bol no banco de trás. "Diminua a velocidade", implorou Bol, "ou me deixe sair". O taxista desceu a Rota 2 gritando até perder o controle, colidir com um guard rail, rodar por duas faixas e bater em uma saliência. Bol e o motorista voaram de seus assentos e depois para fora do carro. Bol ficou inconsciente. O taxista teve uma parada cardíaca; em poucas horas, ele estava morto.
As macas dos paramédicos eram curtas demais para segurar Bol, então eles prenderam duas juntas e o transportaram de helicóptero para um hospital, onde ele foi colocado em suporte de vida. Ele tinha duas vértebras quebradas e um joelho deslocado. Para melhorar a circulação, os médicos fundiram temporariamente seu pulso e mão esquerdos ao abdômen. Seu rosto estava mutilado e seu pescoço perfurado; a carne de uma das pernas parecia ter sido toda arrancada.
Bol sobreviveu, mas nunca mais seria o mesmo. Ele andava com uma bengala e lutava para ficar de pé. Outrora o maior atleta que seu país já vira, Bol se tornaria apenas mais um idoso aos 41 anos. Ele passou meses no hospital, usando sua inteligência e perspectiva para encantar os repórteres que vinham ouvir sobre o horror que ele havia vivenciado. "Toda a carne da minha mão esquerda sumiu", disse ele ao Chicago Sun-Times. "Acho que a estrada a levou".
Mas, pela primeira vez na vida, palavras de desespero se infiltraram no vocabulário de Bol. "Eu me perguntava: o que fiz de errado com Deus?", disse ele ao Boston Globe. "Já estive em zonas de guerra antes e nunca levei um tiro. Por que isso está acontecendo comigo agora?". Suas contas médicas aumentaram. Ele não tinha plano de saúde.
Alguns de seus colegas de faculdade organizaram um jogo de ex-alunos em Bridgeport para arrecadar dinheiro para suas contas, reunindo ex-jogadores da região. Um amigo fez réplicas da camisa número 10 de Bol em Bridgeport. Bol apareceu, e novamente a multidão se aglomerou para vê-lo, como nos velhos tempos. "Bol estava falando suas bobagens de sempre para todo mundo", diz John O'Reilly, um colega de equipe, mas a energia e o contágio que antes o tornavam o rei do campus de Bridgeport haviam diminuído. "Dava para perceber que ele estava com muita dor", diz John Mullin, um colega de faculdade. "Ele estava curvado. Ele deixou de ser um cara muito extrovertido e amigável, e isso o afetou um pouco".
Muitos de seus amigos ajudaram, mas Bol se sentiu irritado por uma pessoa que nunca ligou: John Garang. Embora o relacionamento deles tivesse esfriado, Bol esperava votos de melhoras do líder de sua terra natal. De volta ao Sudão, as negociações de paz estavam novamente em andamento, e desta vez Garang - e não os líderes de grupos rebeldes dissidentes - estava profundamente envolvido. Uma série de negociações e pequenos passos diplomáticos levaram à assinatura do "Acordo de Paz Abrangente" em janeiro de 2005, encerrando oficialmente a guerra. Bolsões de violência continuariam a surgir por todo o sul entre as milícias rebeldes, mas a violência que assolava o Sudão havia 22 anos havia acabado. Finalmente, Bol pôde ir para casa.
Ele chegou à sua antiga aldeia, a uma nova Turalei, reconstruída por refugiados que retornavam, e lá encontrou o menino. O menino que conhecera em Pochala, Victor - aquele com os dentes nodosos e briguentos que fugira de Turalei para o mato, longe dos leões, apenas para viver na miséria por mais de uma década, que emergira do mar de miséria do acampamento apenas para conhecer e tocar Bol - estava de volta. Só que ele era um homem agora, e estava cercado por crianças, todas amontoadas sob a sombra de uma árvore. A árvore, ao que parecia, era uma escola. O menino agora tinha um título: diretor.
11. Humilde de Coração
Após a visita de Bol a Pochala no início dos Anos 1990, Victor Anyar permaneceu em campos de refugiados por mais uma década. Sua luta diária pela sobrevivência persistia, e seus momentos de conforto eram raros. Pochala explodiu em violência um ano após a chegada de Anyar, então ele se mudou para um campo no noroeste do Quênia chamado Kakuma, que em suaíli significa "lugar nenhum". Em Kakuma, eles recebiam rações a cada duas semanas. Normalmente, era o suficiente para uma refeição por dia, mas frequentemente os membros da tribo indígena local, os Turkana, vinham ao campo pedindo comida. Se você compartilhasse suas rações, eles o tratavam bem. Se você recusasse, eles o fuzilavam. Anyar sempre compartilhava.
No acampamento havia uma escola, mas Anyar diz que aprendeu pouco. Fez amigos, embora estivessem unidos principalmente pela miséria compartilhada. Manteve a esperança de um dia partir, mas os relatos do Sudão pareciam desoladores; por pior que fosse a vida em Kakuma, era o paraíso comparado à casa de Anyar. "A vida era estranha", diz ele.
Mas um dia, o acampamento fervilhava de rumores sobre um novo plano para levar alguns dos meninos de Kakuma e enviá-los para a América, o lugar mais rico do mundo, um lugar onde todos viveriam como chefes, e o lugar onde Manute Bol fizera fortuna. Anyar mal podia esperar para chegar lá. Logo os meninos estavam partindo, rumo a lugares desconhecidos. Eles enviariam cartas de volta ao acampamento, onde Anyar e seus amigos aprenderam mais: só se podia casar com uma mulher na América, e no inverno o frio fazia Kakuma parecer uma fornalha. À medida que grupo após grupo partia para seu novo lar, Anyar continuava esperando por sua oportunidade. Finalmente, em 2001, foi convocado para entrevistas. Contou sua história, explicou que em Kakuma não tinha família, que precisava da promessa da América para reconstruir sua vida. Havia formulários para preencher, depois mais reuniões para comparecer e, finalmente, recebeu a notícia: iria para a América. Depois de mais de uma década em campos de refugiados, ele teria uma cama, um estômago cheio, um lar.
Até que um dia tudo mudou. Houve um ataque, disseram refugiados e trabalhadores a Anyar, não em Kakuma, no Sudão ou mesmo na Etiópia, mas no único lugar onde não deveria haver ataques, onde todos eram ricos e a paz era garantida. Um avião colidiu com um prédio alto, depois outro avião com outro prédio. Os prédios caíram. O mundo parou.
As políticas de imigração dos EUA se tornaram mais rigorosas e nenhum outro "Garoto Perdido" seria admitido - pelo menos não por enquanto. Em Kakuma, Anyar sentou-se em sua cabana, derrotado. Ele nunca veria o país com o qual sonhara, nunca se reuniria com os amigos que haviam partido para uma vida melhor. Ex-refugiados eram agora estudantes universitários, operários de fábrica, seguranças e garçons de fast-food - construindo suas próprias vidas, desfrutando de uma liberdade que nunca haviam conhecido. Um deles correria a corrida de 1.500 metros pelos Estados Unidos nas Olimpíadas. Anyar continuou comendo grãos e feijão. Ele continuou se esforçando a cada ciclo de 15 dias, tentando fazer suas rações durarem.
Anyar finalmente deixou Kakuma e foi para Nairóbi, na esperança de encontrar trabalho lá ou continuar para outro campo de refugiados do outro lado do país. Lá, ele conheceu um missionário chamado Bob Bentley, que morava perto com a esposa e os dois filhos e trabalhava em uma Igreja de Cristo local. Quando Bentley conheceu Anyar, ficou impressionado não com sua história angustiante - quando se lida com refugiados, ouvimos muitas histórias angustiantes - mas com seu potencial para se tornar pastor. "Em Mateus 11, Jesus diz: 'Sou manso e humilde de coração'", diz Bentley. "Isso, para mim, descreveu Victor. Ele não era um gigante acadêmico nem nada, mas tinha o coração de um líder, o coração de um servo. E Jesus escolheu pessoas que eram um bando desorganizado."
Bentley pagou para que Anyar tivesse seu próprio apartamento e aulas de inglês na escola cristã local. Anyar se tornou parte da família Bentley e logo estava prosperando. Seu inglês melhorou mais rápido do que em Kakuma. Ele não precisava mais se preocupar em economizar suas rações. Estava feliz e em paz.
Mas com o Acordo de Paz Abrangente, surgiu de repente uma esperança para sua terra natal, e Anyar decidiu que talvez fosse hora de retornar. Embora tivesse visto seu pai ser baleado, pensou que talvez outros membros da família ainda estivessem vivos, esperando por ele. Pediu a Bentley que o enviasse de volta a Turalei.
Anyar chegou e reencontrou amigos que não via desde o dia em que os murahaleen chegaram. Encontrou a mãe e o irmão morando não muito longe de Turalei, em outra vila em Twic. Mas agora que estava em casa, Anyar precisava descobrir o que fazer com sua nova vida. Uma infância passada pulando de campo de refugiados em campo de refugiados deixa um homem com poucas habilidades. Onde antes as crianças cresciam aprendendo a cuidar de cabras e gado, agora uma geração inteira voltava para casa sem saber como fazer qualquer coisa. Ninguém na família de Anyar falava inglês, então ele começou a ensinar seus sobrinhos, os três filhos do irmão com quem acabara de se reconectar. Todos os dias, eles se sentavam sob uma árvore e Anyar dava aulas.
Começou a se espalhar a notícia de que havia um professor debaixo da árvore. Mais crianças vieram, e seus pais decidiram dar-lhes oportunidades que a maioria delas nunca teve. Anyar foi ao mercado anunciar, garantindo que todos soubessem que, na Turalei reconstruída, a educação estaria disponível para todos. Eventualmente, Anyar trouxe outros professores, que encontraram mais árvores. Anyar contatou o governo local e recebeu financiamento. Talvez pela primeira vez, Turalei teve uma escola oficialmente reconhecida.
Foi então que Bol apareceu. Bol disse a Anyar que se lembrava dele dos campos, e Anyar disse a Bol que precisava de dinheiro. Bol imediatamente decidiu adotar a causa de Anyar. O homem que nunca frequentou a escola na vida até aparecer em Bridgeport financiaria a educação da próxima geração de sua aldeia.
Enquanto os sudaneses do sul, em lugares como Turalei, reconstruíam suas casas, as milícias a cavalo e com facões partiram para outros lugares, deixando um rastro de cadáveres espalhados por novas extensões de terra. Em 2003, o inferno se mudou para Darfur.
As notícias aterrorizantes chamaram a atenção dos americanos, incluindo um pastor nos subúrbios de Kansas City, Tom Prichard, que em 2004 se tornou diretor executivo da "Sudan Sunrise", uma organização dedicada à educação e à paz no Sudão. Como quase qualquer americano que se interessasse seriamente pelo Sudão, Prichard não demorou muito para conhecer Bol.
Tudo começou com US$ 20.000. Quando Bol abordou Prichard com uma proposta em 2008, era tudo o que ele queria. Apenas US$ 20.000 para ajudar Anyar a construir sua escola, para dar aos filhos de Turalei quadros-negros, mochilas e um teto. Prichard embarcou. Ele e Bol começaram a viajar juntos para Turalei, e a Sudan Sunrise enviou pedreiros para supervisionar a construção e educadores para treinar os professores locais. Eles trabalhavam durante o dia e conversavam e bebiam uísque à noite. Amigos e familiares de Bol, de todas as partes de Twic, vinham sentar-se aos seus pés, onde discutiam política e trocavam histórias.
Bol nunca se tornou chefe executivo, como previra quando menino. Mas, diz Prichard, "todos o tratavam como um chefe. Os outros chefes se reuniam só para ouvi-lo falar". À noite, Bol dormia como os outros aldeões, exatamente como fazia anos antes, em uma cabana de tukul, com baratas às vezes caindo do telhado e caindo nas camas. Durante décadas, a política e a guerra o mantiveram longe de casa. Agora ele estava de volta, bebendo, rindo e construindo uma escola, banhando-se no suor que grudava em seu corpo no calor de três dígitos, dando boas-vindas aos bichos que invadiam sua cabana. Que as baratas caíssem. Que os cães selvagens uivassem e os mosquitos zumbissem. Bol estava em casa e feliz.
As manhãs, no entanto, continuaram sendo um problema. Em certa ocasião, Anyar decidiu surpreender Bol levando as crianças da escola para cantar uma música em sua casa. Grogue, Bol saiu de sua cabana e encontrou dezenas de crianças cantando e sorrindo, ali para agradecer e celebrar o homem encarregado de financiar sua educação. Elas aprenderam a mesma lição que o representante do SPLM aprendera por telefone em 1988. Você não acorda Bol, não importa quão importante seja sua causa. "Vocês não veem que estou dormindo?", disse ele. "Saiam daqui". Ele acenou para que se afastassem e se retirou para sua cabana, apenas para reaparecer horas depois, ansioso para brincar com as crianças. Embora o pavio curto de Bol fosse lendário, sua capacidade de esquecer uma discussão também o era. Em seus dias de jogador, ele às vezes se envolvia em uma briga na quadra e, dois ou três minutos depois, fazia piadas, deixando seu oponente furioso. "Nunca o vi com raiva e senti que ele realmente falava sério", diz Matthew Kohn, documentarista que viajou ao Sudão com Prichard e Bol várias vezes.
Bol estava focado na escola, coordenando a logística e servindo como ponte entre a aldeia e os voluntários. Em algum momento, ele começou a pensar além daquela escola, pensando além de Turalei, em toda Twic, até mesmo em todo o Sudão. Um dia, ele simplesmente começou a dizer: "Vou construir 41 escolas". Ele queria que elas se espalhassem por todo o sul e até mesmo algumas em Darfur e no norte. Embora representasse uma nação fragmentada, Bol pregava a reconciliação entre religiões, raças e tribos. "Manute queria fazer algo por cada pessoa marginalizada no Sudão", diz Abdel Gabar Adam. "Isso é muito incomum". Na escola em Turalei, Bol insistiu que todas as crianças seriam bem-vindas.
Após o término da construção do primeiro prédio, uma placa foi colocada: "Escola Primária Manute Bol Turalei". Bol não se importou em dar seu nome à escola - na verdade, ele até se opôs, embora timidamente. Prichard queria chamá-la assim, tanto por causa do comprometimento de Bol quanto porque não prejudicaria a arrecadação de fundos associar um nome famoso aos seus esforços. Alguns amigos de Bol, no entanto, estavam preocupados. "Na cultura dinka, não se erguem monumentos nem se dá nome a nada em homenagem a alguém que ainda esteja vivo", diz Bob Justin, um amigo próximo da família de Turalei. "Dar seu nome a algo enquanto ainda se está vivo é quase como um sinal", diz ele. "É como dizer que você vai morrer".
12. Escolha
Durante sua passagem pela NBA, Bol quase sempre bebia Heineken. Os companheiros de equipe riam disso. "Heineken, Heineken, Heineken", diz Rick Mahorn. Em viagens pela África, Bol zombava das cervejas quenianas e ugandenses, considerando-as inaceitáveis para seu paladar. Durante sua passagem pela CBA, ele se tornou mais sofisticado, ensinando os jovens sobre bebidas destiladas finas, especialmente Grand Marnier.
Ao beber com o homem que se tornaria o primeiro presidente da República do Sudão do Sul, no entanto, Bol mudou de ares. Na casa de Salva Kiir Mayardit, beberam um vinho tinto sul-africano. Após a assinatura do Acordo de Paz Abrangente em janeiro de 2005, o sul conquistou autonomia e passou a ser governado em grande parte por seu próprio governo. Um plano foi posto em prática para levar a independência um passo adiante: em 2011, os sulistas votariam em um referendo para decidir se se separariam completamente do Sudão.
Em 2005, o ex-líder do SPLM, John Garang, foi empossado como primeiro vice-presidente do Sudão e, essencialmente, presidente do sul do Sudão. Quando Garang morreu em um acidente de avião no final daquele ano, Kiir assumiu o cargo. Embora a amizade de Bol com Garang tivesse azedado, ele permaneceu próximo de Kiir, e os dois faziam questão de se encontrar sempre que Bol viajava por Juba, a capital de fato do sul do Sudão. Enquanto Garang via Bol como um peão, dizem amigos e parentes, Kiir o via como um aliado e um companheiro. Eles se sentavam no escritório de Kiir bebendo vinho, falando de política e guerra até as 2 ou 3 da manhã. Kiir pertencia ao SPLM, que agora competia com vários outros partidos políticos do sul do Sudão, e com a aproximação das eleições de 2010, Bol prometeu apoio inabalável. Ele acreditava que o SPLM deveria ter a chance de governar, especialmente porque foram eles que lutaram e negociaram pela paz.
No final de uma viagem ao Sudão na primavera de 2010, Bol visitou Kiir na noite anterior ao seu voo de volta para os EUA. O presidente estava exausto, incapaz de falar por muito tempo, mas arranjou tempo para discutir política com o amigo. A temporada eleitoral se aproximava e o SPLM estava em campanha para manter o controle do sul do Sudão. Kiir enfatizou a importância das próximas eleições. Os sulistas precisavam eleger políticos que pressionassem pelo referendo de independência. Embora o sentimento popular inclinasse-se fortemente para a secessão, grupos de sulistas acreditavam que era melhor permanecer unidos em um novo e pacífico Sudão. Bol e o presidente ficaram animados ao discutir os desafios que o SPLM enfrentaria. E nos pontos mais amplos, eles concordaram: era essencial que o partido mantivesse o controle e pressionasse pela aprovação do referendo.
Embora fizesse amizade com pessoas de todo o espectro político e étnico, Bol não era de manter a cabeça fria ao falar de política. Ele sabia que estava certo e que, se você fosse contra ele, estaria errado, e ele deixava isso claro, muitas vezes em voz alta, fazendo com que alguns de seus amigos jurassem que nunca mais discutiriam política com ele. Da mesma forma, se concordasse com você, ele se energizava com suas crenças compartilhadas, transformando conversas em planos e planos em ação antes mesmo de a conversa terminar. Então, enquanto se sentava com o presidente naquela noite, com partida marcada para os EUA no dia seguinte, Bol levou apenas 20 minutos para decidir ficar no Sudão e fazer campanha pelo SPLM. Ao ajudar o SPLM, Bol acreditava, ele estaria ajudando os sulistas a caminharem rumo à independência.
Nos meses seguintes, quando amigos e familiares falavam dessa reunião, diziam que o presidente havia pedido a Bol para ficar. Mas Bob Justin, uma terceira pessoa presente naquela noite, insiste que Bol tomou a decisão sozinho. De qualquer forma, o presidente estava feliz por ter o maior ícone do seu país fazendo campanha ao seu lado. Ele disse a Bol que organizaria e pagaria seu transporte, coordenando a logística de Bol durante a campanha.
Bol cancelou o voo de volta e pegou a estrada, viajando de caminhão de vilarejo em vilarejo, com o corpo tremendo a cada vez que o caminhão saltava sobre crateras nas estradas de terra. Sua artrite piorou à medida que seus esforços políticos se intensificavam. Nas semanas seguintes, mais voos para os EUA foram reservados, e ele cancelou todos. "Dormi demais", disse ele a Prichard após perder um voo. "Fiquei acordado até tarde para assistir a um jogo".
Logo, o corpo de Bol começou a se deteriorar. Ele usou uma bengala por anos, mas, enquanto viajava pelo país, passavam-se dias em que não conseguia mais andar, em que o maior homem que a maioria das pessoas já vira tinha que ser carregado de um lugar para outro, uma boneca de pano nos braços de seus companheiros de tribo. Mesmo assim, as pessoas se aglomeravam para ver os restos frágeis e imóveis de um homem outrora poderoso, para ouvi-lo falar, vê-lo sorrir, para ter a oportunidade de contar aos outros sobre aquela vez em que conheceram Manute Bol. Apesar de suas limitações, Bol transmitia sua mensagem. Os guias o tiravam do carro e o colocavam em uma cadeira sob uma árvore, onde ele se sentava e esperava a chegada dos moradores. Então, ele proferia uma acusação, incitando os espectadores a impulsionar seu país para a frente, a votar no partido que havia levado o sul do Sudão a este ponto, seu ponto mais alto na história moderna. Circulavam relatos de outros partidos tentando subornar, oferecendo comida e dinheiro aos moradores em troca de seus votos. "Pegue o dinheiro deles", Bol se lembraria de dizer mais tarde, "mas não dê a eles seus votos".
A notícia de que sua artrite havia piorado se espalhou, então o presidente insistiu que Bol retornasse da campanha eleitoral e procurasse ajuda médica. O presidente levou Bol de volta a Juba e depois a Nairóbi, onde ele poderia receber cuidados adequados. O estado de saúde de Bol melhorou e logo ele insistiu em retornar ao Sudão. Ele voou para Juba e depois de volta a Turalei, retomando seu trabalho político. Seus candidatos favoritos estavam muito à frente nas pesquisas. Em abril de 2010, o SPLM dominou a eleição, abrindo caminho para a eventual secessão do sul. O estado de Bol, Warrap, elegeu a primeira governadora do país, uma mulher que Bol havia defendido. O Sudão do Sul estava a caminho da liberdade, ele acreditava.
Mas enquanto o país continuava a se curar, Bol permaneceu imóvel, chafurdando em agonia. A dor, que antes se alojava profundamente em suas articulações, agora subia até a pele. Erupções cutâneas se espalhavam por seu corpo, e a coceira era tão intensa que o imobilizou novamente. Bol retornou a Juba, onde recusou ajuda de amigos e ficou em um quarto de hotel, aguardando um voo de volta aos Estados Unidos para receber tratamento em Kansas City. Seu avião chegou atrasado a Washington, após o último voo ter partido para Kansas City. Bol se hospedou em um hotel próximo, com o corpo exausto e esgotado pela viagem e pela dor implacável.
De manhã, Prichard ligou para Bol para acordá-lo. Mais uma manhã, mais uma interrupção indesejada do sono de Bol. Só que desta vez foi diferente. Bol não gritou, faltava-lhe energia para isso. Não latiu. Em vez disso, chorou. "Não posso ir ao aeroporto", disse a Prichard. "Simplesmente não consigo". Prichard ligou para o gerente do hotel, que chamou uma ambulância para levar Bol às pressas ao pronto-socorro.
Bol ficou no hospital, atendendo telefonemas e cumprimentando visitantes, insistindo que estava bem. Seu corpo contava uma história diferente. "Ele estava incrivelmente fraco", diz Prichard. "Ele estava realmente lutando". Os rins de Bol falharam e ele foi colocado em diálise. Ele sangrou internamente, mas os médicos tiveram dificuldade em descobrir qual órgão era a fonte.
Um dia, no hospital, Prichard sentou-se ao lado de Bol, que descansava em sua cama, sem saber que logo morreria. A conversa mudou para política, com Bol exultando com o sucesso de seus candidatos nas eleições recentes. Eles conversaram sobre a escola, o referendo iminente, a esperança que emergiu depois que a matança finalmente parou. Fraco, frágil e à beira da morte, Bol ofereceu um sorriso débil. "Eu consegui", disse ele. "Eu consegui".
13. Em repouso
Lamentos, cânticos e orações irromperam numa manhã de junho em Turalei, a aldeia caótica e desconsolada, abalada pelas palavras que acabavam de ouvir. Houve um tempo em que levava meses para entregar uma mensagem ao seu maior herói, quando uma mulher tinha que contar a um homem que tinha que contar a outro homem que tinha que enviar uma carta, levada de carro, depois de avião, depois de carro novamente, até uma casa suburbana nos Estados Unidos. Agora, a notícia de sua morte viajava a mesma distância em um instante. Em Washington, o médico contou ao primo de Bol. Esse primo ligou para Nicola em Juba. Nicola ligou para Bob Justin em Turalei. Justin contou aos chefes. Os chefes contaram à aldeia.
O presidente Salva Kiir providenciou o retorno do corpo de Bol para casa. Cerca de 10.000 pessoas desembarcaram em Turalei, vindas da América, da Europa, de toda a Twic e de todo o Sudão, para se despedir. Seu tio, Bol Chol Bol, examinou o corpo. Ele o cutucou. De fato, era Bol.
Cerimônias memoriais foram realizadas em Washington, na Catedral Nacional e em Kansas City, onde membros dos diferentes universos de Bol compareceram para prestar suas homenagens. Jogadores de basquete contaram histórias da quadra. Diplomatas contaram histórias das salas de reunião.
Sete meses depois, em janeiro de 2011, os sudaneses do sul foram às urnas para votar no referendo pela separação do Sudão. Em Londres, na noite anterior à votação, Achuei conta que teve um sonho. Ela estava em Turalei, sob a árvore favorita de Bol, e lá estava ele, sentado em sua cadeira, cercado por entes queridos, passando o dia rindo e conversando. Ela acordou na manhã seguinte, imprimiu uma bandeira do sul do Sudão, pegou uma foto de Bol e foi a uma seção eleitoral criada para a diáspora sudanesa. "Manute", disse ela enquanto colocava seu cartão na urna. "Isso é para você. Isso não é para mim". Com Achuei como seu representante, Bol havia votado no mesmo nível de 98,5% das pessoas que compareceram às urnas. Ele votou sim. Sim à formação da República do Sudão do Sul. Sim à noção de que seu povo deveria ser livre.
Eles seriam livres, sim, mas, em sua maioria, ainda seriam pobres, sem educação e vulneráveis a doenças e surtos de violência. No ranking "Povos Ameaçados", compilado pela Minority Rights International, o Sudão é o segundo país mais perigoso do mundo, atrás apenas da Somália e à frente do Afeganistão e do Iraque.
Na primavera de 2011, focos de conflito eclodiram em todas as regiões fronteiriças, enquanto as forças do norte lutavam para tomar o controle das áreas disputadas antes da declaração de independência do sul, em 9 de julho. Em Abyei, a região que Bol visitou quando fugiu de casa ainda criança, 80 mil pessoas foram deslocadas. Cerca de 15 mil delas invadiram Turalei. No final de junho, uma milícia renegada atacou Turalei a pé, e 11 pessoas foram mortas. Dos mortos, dois eram primos de Manute. Embora o sul estivesse à beira da independência, muitos na região temiam outra guerra. Só que, desta vez, não seria mais uma guerra civil, mas apenas uma guerra entre dois Estados. "Espero que a comunidade internacional consiga impedir a guerra antes que ela comece", diz Rudwan Dawod, ativista de Darfur e ex-amigo de Bol. "Será uma guerra entre países".
Em busca de um lugar para ficar, muitos refugiados montaram acampamento não muito longe da escola de Bol. A escola se destaca como a joia da coroa da vila, a melhor escola pública da região, um farol de esperança para o futuro de Turalei, de Twic, da República do Sudão do Sul. Eis a aparência desse farol: ela amontoa mais de 100 alunos em uma sala de aula apertada e agitada, e conta com professores com muita paciência e determinação, mas pouca educação e remuneração, a maioria dos quais nunca concluiu o ensino médio, e nenhum deles ganha mais de US$ 3 por dia. O diretor, Anyar, às vezes esquece a ortografia e a pronúncia, e sabe que precisa de mais educação, mas não tem os meios para adquiri-la. Depois de retornar a Turalei, ele teve dois filhos. No ano passado, ambos morreram. Ele sorri aqui e ali, principalmente ao falar de sua esposa, Verônica. "Muitos dias", diz ele, "me sinto triste".
A escola passa meses sem fornecer alimentos, até que Prichard voa dos Estados Unidos para persuadir burocratas do Programa Mundial de Alimentos a fornecer refeições diárias. Passa meses sem água limpa, até que um engenheiro sul-africano vem de Cartum para consertar a bomba do poço da escola. Quando as chuvas chegam, o campus inunda, e as crianças se arrastam para a aula todas as manhãs, esbofeteando e se esquivando de mosquitos infectados. Em julho de 2011, havia dois prédios e planos para uma cozinha e mais cinco salas de aula, mas ainda assim muitas aulas acontecem sob uma árvore.
Bol queria 41 dessas escolas. Um ano após sua morte, eles ainda estão trabalhando na número 1.
Em uma manhã de abril, algumas dezenas de khawajas — o termo mais comumente usado pelos dinkas para estrangeiros — chegaram à cidade. As crianças saíram de suas cabanas e seguiram a multidão até a praça da vila, onde todos se reuniram para admirar os estrangeiros e relembrar Bol. Era um momento de celebração — da vida de Bol, da iminente independência do sul do Sudão, de uma quadra de basquete que acabara de ser construída pela USAID. Uma comitiva de oradores subiu ao pódio, alternando-se entre khawajas e dinkas. Eles exaltaram as virtudes de Bol e pregaram a importância do esporte, dizendo que o atletismo pode manter as crianças longe das ruas e proporcionar a elas maneiras mais saudáveis de passar o tempo — os mesmos clichês repetidos em centros de juventude em bairros centrais por todos os Estados Unidos. Um homem negro gritou o nome de Bol em comemoração. Um homem branco listou todas as maneiras pelas quais os Estados Unidos ajudaram o sul do Sudão. Depois, os moradores locais começaram a dançar, e logo os khawajas se juntaram a eles, tocando tambores, agitando-se e movendo-se com todo o talento esperado de pessoas brancas de meia-idade praticando dança tribal. Representantes de todos os reinos em que Bol outrora atuou - os reinos do governo e das organizações sem fins lucrativos, dos esportes e da educação, dos dinkas e khawajas - estavam todos ali, sorrindo e apertando as mãos. O inevitável atrito benigno que ocorre quando mundos colidem foi amplificado pela ausência do homem que os conectava a todos.
A dança diminuiu e o basquete começou enquanto a celebração se transferia da praça para a quadra e todos se reuniam para o jogo inaugural. Os jogadores começaram a enterrar - na terra dos Dinkas, alguém sempre consegue enterrar - cada enterrada batendo em um dos aros novinhos em folha até que ele cedesse da tabela. E logo depois que o aro quebrou, os khawajas partiram, de volta ao seu avião, a caminho de Juba. Os aldeões se dispersaram e retomaram suas atividades diárias, as crianças tocando tambores nas garrafas de Coca-Cola que sobraram dos khawajas, os adultos retornando às suas lojas ou casas, alguns adolescentes jogando bola no aro mole que tinham acabado de receber. Se você caminhasse em direção aos limites da aldeia, afastando-se do mercado e passando por uma longa fileira de cabanas de tukul, seria possível ver um monte solitário de terra, a terra empilhada mil vezes sobre si mesma. Você encontraria flores espalhadas e guirlandas brilhantes, uma cerca para deter as hienas e os cães selvagens. No topo da pilha de terra você encontrará dois galhos presos juntos em forma de cruz.
Se você perguntasse por aí, ouviria falar de planos para construir um túmulo ali. Mas, no instante seguinte à partida dos visitantes, encontraria apenas terra. Terra, pedras e o chão, com falcões circulando no alto, o sol em guerra contra tudo o que jaz abaixo. Não haveria lápide, nenhuma placa, nada que indicasse de quem é o corpo que repousa ali. Nada que dissesse: "Aqui jaz Manute Bol".
Eles sempre mencionavam o leão. Aonde quer que Bol fosse, mesmo no fim da vida, queriam ouvir sobre a vez em que ele matou o predador sanguinário. Velhos amigos pediam para ele contar a história novamente. Novos amigos imploravam para ouvi-la pela primeira vez. Bol detestava. Depois de todos esses anos nos Estados Unidos, de todo o tempo que ele passou animando arenas por todo o país, de todo o esforço que ele fez para garantir um futuro para o povo do sul do Sudão, as pessoas ainda perguntavam a Bol sobre aquele maldito leão.
Um dia, já no final da vida, Bol sentou-se com um grupo de amigos, e desta vez foi a vez de Tom Prichard. Prichard havia se aproximado de Bol, o que ajudou a alimentar suas paixões, então parecia razoável que ele ouvisse sobre o leão. Bol continuou dizendo que não queria contar, que já tinha contado tantas vezes que estava cansado de contar, que não era grande coisa e que não precisava ser discutido. Prichard continuou insistindo até que Bol respondeu com um dar de ombros, deixando Prichard sem saber se ele estava falando sério ou brincando. Prichard nunca mais perguntou.
O legado de Manute Bol: a próxima geração ingressa em
uma nova quadra de basquete em Turalei em maio de 2011
(Foto de Jordan Conn)



