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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

San Lorenzo 2017-18: agressividade, ousadia e estratégia grandiosa

É muito difícil que uma equipe de basquete da América do Sul, ou mesmo de outro esporte no sub-continente, consiga viabilizar o mesmo nível de ousadia que a gestão de basquete do San Lorenzo de Almagro aspirou na temporada 2017-18. Pensou grande, "fora da caixinha", sendo ousada, determinada a subir ao degrau mais alto a nível continental, e conseguindo viabilizar economicamente uma estratégia agressiva de montagem de elenco.

O San Lorenzo estava há um tempo fora do cenário basquetebolístico argentino. Decidiu voltar na temporada 2015-16, e já na largada mostrou ousadia econômica para viabilizar um projeto grande. Investiu pesado, e logo na sua temporada de reestreia já montou uma equipe apta para brigar pelo topo do cenário nacional. A base montada para temporada foi composta por um tripé de grandes contratações: o armador Nicolás Aguirre, MVP do título do Quimsa na temporada anterior (2014-15), Marcos Mata, ala que havia jogado a temporada anterior no Brasil, defendendo o time do Franca, e o ala-pivô da "Geração de Ouro" Wálter Herrmann, campeão brasileiro 2014-15 com o Flamengo, e MVP da Liga Argentina em 2013-14. O time reunia, portanto, os dois MVPs da Liga Argentina nas duas temporadas anteriores. Juntavam-se a eles dois estrangeiros: Courtney Fells, dos Estados Unidos, e Tautvydas Lydeka, da Lituânia. Para comandar ao projeto, o experiente Julio Lamas, multi-campeão da Liga Argentina (chegou a seu 4° título nacional com este time do San Lorenzo). O quinteto titular: Nicolás Aguirre, Courtney Fells, Marcos Mata, Wálter Herrmann e Tautvydas Lydeka.

Campeão nacional em 2015-16, a diretiva não estava satisfeita, claramente aspirava vôos maiores, e estava disposta a subir um degrau de cada vez até alcançar algo realmente grandioso. Para a temporada 2016-17, investiu em mais três contratações de peso: mais dois jogadores da Seleção Argentina - Selem Safar e Gabriel Deck - e mais um nome que estava obtendo destaque na Liga Brasileira, o pivô norte-americano Jerome Meyinsse, tri-campeão com o Flamengo nas temporadas 2013-14, 2014-15 e 2015-16 (além de campeão da Liga das Américas e do Mundial Interclubes em 2014). Para os play-offs, o clube ainda se reforçou com o mexicano Pérez Kauffman. O quinteto de Julio Lamas, que conseguiu o segundo título nacional consecutivo, foi formado por Nicolás Aguirre, Alex Pérez Kauffman, Marcos Mata, Gabriel Deck e Jerome Meyinsse. No banco, o ala-armador Selem Safar o e ala-pivô uruguaio Mathias Calfani.


A grendeza de pensamento do San Lorenzo levou o clube a ser a primeira agremiação argentina a ser convidada para disputar a Pré-Temporada da NBA, feito que nas duas temporadas anteriores chegaram por convite para equipes brasileiras - Flamengo e Bauru - e em outubro de 2016 levou o time de Lamas a enfrentar ao basquete profissional mais forte do mundo. O San Lorenzo entrou em quadra no Ginásio Air Canada Centre, em Toronto, no Canadá, para enfrentar ao Toronto Raptors. Veja os detalhes do jogo San Lorenzo x Toronto Raptors.

14/10/2016 - Toronto Raptors 122 x 105 San Lorenzo
Parciais: 32 x 22 / 21 x 33 (53 x 55) / 34 x 27 (87 x 82) / 35 x 23 (122 x 105)
Raptors: Norman Powell (17), Fred VanVleet (31), Pascal Siakam (16), Drew Crawford (17) e Lucas Nogueira (5). Téc: Dwane Casey. Banco: Brady Heslip (8), Bruno Caboclo (6), E.J. Singler (10), Jarrod Uthoff (0), Jakob Poetl (12) e Yanick Moreira (0).
San Lorenzo: Nicolás Aguirre (17), Guillermo Díaz (2), Marcos Mata (18), Gabriel Deck (16) e Jerome Meynisse (22). Téc: Julio Lamas. Banco: Santiago Scala (13), Selem Safar (0), Matías Sandes (7) e Mathías Calfani (10).

Duas vezes campeão nacional consecutivamente tendo recebido um honroso convite para entrar em quadra diante de uma franquia da NBA, o San Lorenzo já havia subido importantes degraus, mas sua diretiva não estava satisfeita, queria subir mais degraus e ousar ainda mais. E na temporada 2017-18 mostrou o que significava pensar realmente grande.

Para substituir os estrangeiros do grupo, foram contratados dois nomes que se destacaram na temporada 2016-17 com a camisa do Estudiantes de Concórdia, ambos eleitos para o Quinteto Ideal da Liga Argentina naquela temporada, o ala-armador Dar Tucker, nascido nos Estados Unidos e com passaporte da Jordânia, e o pivô Javier Justiz Ferrer, da Seleção de Cuba. Eles se juntavam a um forte tripé titular, formado por Aguirre, Mata e Deck, e com peças fortíssimas na rotação: José Vildoza, da Seleção Argentina Sub-23, Selem Safar, o uruguaio Calfani e o experiente Matías Sandes. Um elenco fortíssimo, que começou a temporada literalmente já fazendo história. Mostrando o quão grandioso eram seu pensamento e seus objetivos, o San Lorenzo começou a temporada indo medir forças com o alto escalão do basquete da Europa, marcando dois amistosos diante do topo da tabela da Liga Espanhola, diante de ninguém mis ninguém menos que Real Madrid e Barcelona.

Amistosos? Só ter a honra de enfrentá-los já era bastante? O pensamento grandioso do projeto do San Lorenzo não enxergou assim. Numa passagem histórica pela Espanha, o time azul-grená venceu os dois jogos.


12/09/2017 - San Lorenzo 84 x 81 Real Madrid
Parciais: 24 x 19 / 17 x 23 (41 x 42) / 18 x 26 (59 x 68) / 25 x 13 (84 x 81)
Real Madrid: Facundo Campazzo (16), Santi Yusta (7), Rudy Fernández (13), Trey Thompkins (8) e Gustavo Ayón (4). Banco: Fabien Causeur (10), Melwin Pantzar (3), Jaycee Carroll (8), Jeffery Taylor (5), Jonas Maciulis (0), Felipe Reyes (5) e Usman Garuba (2). Téc: Pablo Laso
San Lorenzo: Nicolás Aguirre (2), Dar Tucker (25), Marcos Mata (3), Gabriel Deck (17) e Javier Justiz Ferrer (10). Banco: José Vildoza (6), Matías Sandes (11) e Mathías Calfani (10). Téc: Gonzalo Garcia

15/09/2017 - San Lorenzo 95 x 85 Barcelona
Parciais: 31 x 19 / 25 x 20 (56 x 39) / 19 x 23 (75 x 62) / 20 x 23 (95 x 85)
Barcelona: Phil Pressey (10), Rakim Sanders (0), Rodions Kurucs (6), Adrien Moerman (21) e Ante Tomic (5). Banco: Petteri Koponen (5), Thomas Heurtel (12), Marc García (0), Aleksandar Vezenkov (12), Sergi Martínez (4), Volodymyr Gerun (10) e Atoumane Diagné (0). Téc: Sito Alonso
San Lorenzo: Nicolás Aguirre (5), Dar Tucker (19), Marcos Mata (14), Gabriel Deck (24) e Javier Justiz Ferrer (14). Banco: José Vildoza (5), Matías Sandes (1) e Mathías Calfani (13). Téc: Gonzalo Garcia

O projeto de basquete do San Lorenzo, no entanto, não cansava de subir degraus. A meta seguinte era o topo do continente. Acabar com o jejum de equipes da Argentina, e ser Campeão da Liga das Américas. Um tri-campeonato argentino não era suficiente. Ter enfrentado um time da NBA? Ter vencido a Real Madrid e Barcelona? Nada era suficiente, queria-se mais!

Para mostrar até onde poderia chegar sua ousadia, a agremiação argentina foi atrás de nomes com passagem importante pela NBA. Primeiro apostou no ala-pivô DeJuan Blair, 7 temporadas de NBA, 424 partidas em 4 temporadas pelo San Antonio Spurs (de 2009-10 a 2012-13), 1 temporada pelo Dallas Mavericks (2013-14) e 2 temporadas pelo Washington Wizards (2014-15 e 2015-16).


DeJuan Blair
No total, jogou 12 partidas pelo San Lorenzo, com médias de 10,3 minutos, 4,1 pontos e 4,2 rebotes por jogo.
Na 1ª Fase da Liga das Américas, jogou 2 partidas, com 11,6 minutos, 10,5 pontos e 3,0 rebotes por jogo


Não satisfeito com os números de DeJuan Blair, o San Lorenzo o dispensou e foi atrás de outro nome "padrão NBA", contratando ao pivô canadense Joel Anthony, 10 temporadas de NBA, 490 partidas em 7 temporadas por Miami Heat (de 2007-08 a 2013-14), passagem por Boston celtics (2013-14), mais 2 temporadas no Detroit Pistons (2014-15 e 2015-16) e 1 temporada no San Antonio Spurs (2016-17). Com a camisa do San Lorenzo, viveria sua primeira experiência no basquete fora da NBA.


Joel Anthony
Na 2ª Fase da Liga das Américas, jogou as 3 partidas, com 20,8 minutos, 2,3 pontos e 4,0 rebotes por jogo.
Na Fase Final, jogou 2 partidas (semi-final e final), com 11,3 minutos, 3,0 pontos e 3,0 rebotes por jogo.
Nos 5 jogos, ficou, portanto, com médias de 17,0 minutos, 2,6 pontos e 3,6 rebotes por jogo. Um desempenho relativamente inferior ao de DeJuan Blair.

Joel Anthony diante do Ferro Carril Oeste

No basquete interclubes das Américas, as equipes argentinas desejavam voltar a ser protagonistas. Na Liga Sul-Americana, no acumulado até 2012, em 17 edições haviam sido 12 títulos da Argentina e 5 do Brasil; na sequência, porém, de 2013 a 2016, as equipes brasileiras conquistaram 4 títulos consecutivos, seguido por um título do Guaros de Lara, da Venezuela. Na Liga das Américas, nas 4 primeiras edições, a Argentina havia conquistado o título 3 vezes, duas com o Peñarol de Mar del Plata e uma com o Regatas Corrientes. No entanto, o último título argentino havia sido na edição de 2011, com um jejum de 6 edições sem que uma equipe argentina conseguisse ser a campeã, e como agravante da queda de competitividade, entre 2014 e 2016 sequer houve uma equipe argentina no Quadrangular Final ("Final Four"). O basquetebol da Argentina tinha o desejo de voltar ao topo da América Latina, e os planos do San Lorenzo era atender a este anseio nacional.

Elenco na Liga das Américas 2018
1: Nicolás Aguirre - José Vildoza
2: Dar Tucker - Selem Safar
3: Marcos Mata - Mathías Calfani
4: Gabriel Deck - Matías Sandes - Gani Lawal
5: Javier Justiz Ferrer - Joel Anthony

Campanha na Liga das Américas 2018
1ª Fase: 101 x 96 Mogi das Cruzes (Brasil) / 116 x 51 Español de Talca (Chile) / 87 x 82 Paulistano (Brasil)
2ª Fase: 83 x 59 Fuerza Regia (México) / 68 x 64 Mogi das Cruzes (Brasil) / 73 x 65 Ferro Carril Oeste (Argentina)
Fase Final: 101 x 78 Estudiante de Concórdia (Argentina) / 79 x 71 Mogi das Cruzes (Brasil)


Final da Liga das Américas 2018

25/03/2018 - San Lorenzo 79 x 71 Mogi das Cruzes
Parciais: 20 x 25 / 20 x 13 (40 x 38) / 19 x 12 (59 x 50) / 20 x 21 (79 x 71)
San Lorenzo: Nicolás Aguirre (11), Dar Tucker (15), Marcos Mata (11), Gabriel Deck (22) e Javier Justiz Ferrer (8). Téc: Gonzalo Garcia. Banco: José Vildoza (0), Selem Safar (8), Mathías Calfani (4) e Joel Anthony (0).
Mogi: Larry Taylor (20), Jimmy Dreher (10), Shamell Stallworth (8), Tyrone Curnell (22) e Caio Torres (0). Téc: Jorge Guerra, Guerrinha. Banco: Víthor Lersch (0), Guilherme Filipin (8), Fabrício Russo (2) e Wesley Sena (1).


Com agressividade, ousadia e uma estratégia grandiosa, o San Lorenzo atingiu o nível que esperava. O título de Campeão da Liga das Américas 2018 coroava seus acertos, numa progressão ano a ano desde que o projeto foi montado. A sequência de títulos nacionais consecutivos foram uma constante natural neste processo, que mirou sempre ao topo do continente como seu objetivo principal.


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