.

domingo, 19 de maio de 2019

Oscar Robertson e Russell Westbrook: os reis dos triplos duplos

O triple-double (triplo-duplo) é um feito extraordinário no basquete. Ele indica e ressalta a capacidade abrangente de um jogador para controlar todos os principais fundamentos do jogo. O jogador ao realizá-lo, mostra que domina a arte de pontuação, a tarefa fisicamente extasiante de pegar rebotes, e o dever fino de acertar passes decisivos que fazem o jogo ser não só individual, mas coletivo.

O primeiro grande mágico de domínio pleno do triplo-duplo dentro de uma quadra de basquete foi Oscar Robertson. Sua carreira no total teve 189 triplos-duplos (181 em temporada regular e 8 em playoffs). Em temporada regular, o segundo colocado, com 43 triplos-duplos a menos que ele, foi Magic Johnson. E esta distância diz tudo. Oscar Robertson estava a frente de seu tempo, por isto ninguém chegou perto de igualar esta marca durante muito, muito tempo.

Oscar Robertson, do Cincinnati Royals

Robertson realizou a maior parte destes triplos-duplos nos seis primeiros anos de sua carreira (1961 a 1966). É impressionante! Se vemos sua média acumulada nestas suas seis primeiras temporadas, o que se enxerga são 30,4 pontos, 10,7 assistências e 10,0 rebotes por jogo! Impressionante! De outro planeta!


Na temporada 1961-62, Oscar Robertson obteve 41 triplos-duplos na Temporada Regular. Uma marca que demorou 55 anos para ser superada!

Oscar Robertson chegou na NBA na temporada 1960-61. Ele foi um salvador há muito aguardado pelo Cincinnati Royals. A franquia tinha feito uma campanha moribunda nas duas temporadas anteriores. Jack Twyman vinha tentando valentemente levar sua equipe adiante, tendo inclusive estado, junto a Wilt Chamberlain, na mesma temporada, entre os primeiros jogadores a alcançar a média de mais de 30 pontos por jogo. Com a chegada de Robertson, sua vida melhorou muito.

A chegada de Oscar Robertson teve um impacto imediato no time do Royals, empurrando-os para uma campanha com 33 vitórias e 46 derrotas, bem melhor do que nas duas temporadas anteriores. Ainda que calouro, Robertson registrou uma média impressionante. O garoto calouro conseguiu médias de 30,5 pontos, 10,1 rebotes e 9,7 assistências. Quase uma média triplo-dobro! O "Big O" teria de se contentar com o prêmio de "Calouro do Ano", além de entrar no Quinteto Ideal da temporada e de ter sido nomeado o MVP do All-Star Game naquele ano.

Embora os Royals não tenham ido bem nos playoffs, o time estava claramente numa rota ascendente, e isto se devia à chegada de um jogador tão devastador e único. O jovem Oscar Robertson, é de certa forma, o ponto de inflexão da chegada da explosão muscular dos jogadores de raça negra no basquete profissional dos EUA. Robertson, assim como Chamberlain, põe de cabeça para baixo a dinâmica de um jogo onde a presença dos jogadores de raça branca ainda era plena maioria, e num contexto no qual o racismo e os conflitos raciais colocavam a sociedade dos Estados Unidos em cheque.

Robertson era relativamente pesado para um armador. Porém, ele tinha agilidade suficiente, e usaria sua força física para levar os oponentes à sua submissão. Na temporada 1961-62, os Royals começaram batendo o St. Louis Hawks fora de casa, Robertson levou os Royals à vitória com 35 pontos e 15 rebotes e ajudou a alçar Twyman a 39 pontos na partida. Estava dada a largada para a histórica temporada de triplos-duplos dele. Pouco mais de uma semana depois, em casa, em Cincinnati, o "Big O" liderou novamente seu time ao ataque, numa vitória sobre o Syracuse Nats por 139 x 132. Era o indício de que um fenômeno estava por se materializar. E assim foi. Ele não mudou o ritmo e no final da temporada conseguiu fazer 41 triplos-duplos, uma marca que levaria mais de meio século para ser superada.

Oscar Robertson era um dos companheiros de equipe mais exigentes que a NBA já viu. E estava funcionando. Conforme a temporada avançava, ficava claro que os Royals estavam em ascensão, com Bob Boozer, Wayne Embry e Bucky Bockhorn completando o quinteto titular ao lado de Robertson e Twyman.

Durante sua carreira, ele construiu uma quantidade impressionante de triplos duplos. A sua marca de 41 na temporada regular de 1961-62 levou 55 anos para ser superada. O dono deste feito foi outro armador, Russell Westbrook, do Oklahoma City Thunder, que terminou a temporada 2016-17 com 42 triplos duplos.


É complicado fazer comparações, porque as realidades de basquete no qual estes dois jogadores obtiveram estas extraordinárias marcas era muito diferente. Oscar Robertson, como já descrito, chegou na NBA para mudar o jogo para sempre. Seus números, desde sua largada na NBA, mostram o retrato de uma revolução dentro de quadra: agressivo para pontuar, explosivo para conseguir rebotes na luta acirrada por eles embaixo do aro, e a inteligência na perfeita distribuição de jogo, para encontrar o passe preciso que dava ao companheiro de equipe a perfeita condição de pontuar.

Russell Westbrook sempre teve a agressividade para pontuar e a inteligência para reger a equipe e encontrar as melhores condições de assistência, mas só passou a ser grande nos rebotes por uma situação tática, da estratégia coletiva do time, que lhe permitia o rebote defensivo muitas vezes quase só embaixo do aro. Por isto seus números iniciais de triplos duplos foram baixos, e de repente explodiram. O fator determinante, no entanto, é que quando chegou à NBA, o dono do time dentro de quadra era Kevin Durant, para quem eram desenhadas todas as estratégias para decidir. Quando Durant trocou o Oklahoma City Thunder pelo Golden State Warriors, na temporada 2016-17, os números de Westbrook ascenderam definitivamente.


Vendo-se os números de maior quantidade de triplos duplos em um temporada regular, pode-se perceber claramente o quanto Oscar Robertson foi impactante com o Cincinnati Royals. Ele detém quatro dos sete maiores desempenhos históricos. Até o fim da temporada 2015-16, eram quatro de seis, dois terços. E só Wilt Chamberlain havia chegado cerca de números similares. A temporada 2016-17 de Russell Westbrook colocou-o no meio deste bolo.


Por tantas temporadas obtendo tantos triplos duplos, ele detém uma larga margem de vantagem no total de triplos duplos obtidos em temporadas regulares. Uma marca impressionante. Após décadas, ninguém, nenhum outro gênio do basquete, conseguiu chegar sequer cerca.


Russell Westbrook, ao fim da temporada 2016-17, entrou no seleto grupo de cinco maiores obtedores de triplos duplos em temporadas regulares na história da NBA. Um grupo que além dele e de Oscar Robertson, tinha Wilt Chamberlain, Magic Johnson e Jason Kidd. Quatro dos cinco membros deste grupo eram armadores, a exceção é o pivô Wilt Chamberlain, que é um caso a parte na história do basquete.

Comparando-se o desempenho na carreira destes quatro armadores, especialmente quanto às suas médias de rebotes e assistências a cada temporada, o que se pode ver são trajetórias muito distintas.

Em termos de rebotes, Oscar Robertson e Magic Johnson chegaram à NBA com médias avassaladoras. Robertson era magro e ágil nas suas primeiras temporadas, depois se tornou um jogador mais forte e mais pesado, perdendo a capacidade de pegar rebotes como fazia quando chegou à NBA. Magic Johnson chegou com médias fortes, elas caíram, mas chegaram a subir novamente. Sua carreira, porém, foi abreviada pela contração do vírus HIV. Já Jason Kidd foi ascendendo gradativamente sua média de rebotes por temporada até sua 13ª temporada, após ela suas médias caíram. E ele foi o que teve carreira mais longa. Russell Westbrook, ao fim de sua 9ª temporada na NBA (2016-17) recém havia ascendido seus números de rebotes, mas ainda tinha muitos anos de carreira pela frente.


Em termos de assistências, Magic Johnson reinou frente aos demais. Oscar Robertson teve a mesma queda de desempenho ao longo da carreira, que o fizeram diminuir sua quantidade de triplos duplos. Kidd teve um desempenho relativamente linear, e Westbrook também ascendeu seus números durante suas nove primeiras temporadas.


Curiosamente, no entanto, quando chegava a hora decisiva dos play-offs, os números tanto de Oscar Robertson quanto de Russell Westbrook não eram tão dominantes. Ambos não fizeram de equipes fortes o suficiente para irem várias vezes à final de Conferência ou à final da NBA.

Em obtenção de triplos duplos em play-offs, a soberania, apesar da carreira abreviada pela contaminação pelo vírus da Aids, foi de Magic Johnson. Porém, LeBron James, que ao fim da temporada 2016-17 tinha disputado sua 14ª temporada na carreira, e ainda teria mais algumas oportunidades para diminuir a diferença, ele que não tinha números de triplos duplos tão expressivos quanto Robertson, Chamberlain, Johnson, Kidd e Westbrook em temporadas regulares, mas também tinha uma quantidade expressiva em playoffs.


Na hora decisiva, foram eles dois - Magic Johnson e LeBron James - os que mais se destacaram na história da NBA em termos de triplos duplos. Assim como dominavam a quantidade destes em play-offs, dentro deste cenário, quando se tratava dos números obtidos especificamente em Finais da NBA, os dois tinham larga vantagem frente a todos os demais. Certamente mostra o quão competitivos eram estes dois homens em termos de espírito, para chamar a responsabilidade na hora de decidir.


A pergunta que ficar e nunca poderá ser respondida, porque na história não existe "se", é: e se Oscar Robertson e Russell Westbrook tivessem jogados em franquias com grande competitividade para levá-los com maior constância à Final da NBA, eles teriam chegado perto destes espetaculares números de Magic e James?



Veja também: Como Russell Westbrook se tornou uma máquina de triplos-duplos?



Nenhum comentário:

Postar um comentário