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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Os Harlem Globetrotters e a popularização mundial do basquete

A origem da equipe Harlem Globetrotters remonta a 1926 no basquete de rua, já que a liga oficial era proibida para atletas negros. Ex-alunos da Escola Wendell Phillips, no sul de Chicago, reuniram-se para formar um time e ingressar na Negro-American Legion League (Liga da Legião Negra Americana). Formou-se o time Giles Post. No mesmo ano de 1926, eles obtiveram um patrocínio de um famoso salão de dança local, o Savoy Ballroom, passando a se chamar Savoy Big Five. Em 1927, insatisfeito com as condições financeiras do time, Tommy Brookings saiu da equipe junto a alguns de seus colegas e formou então os Globetrotters. Apesar do time ser de Chicago, em 1930 foi acrescentado o nome Harlem, bairro negro de Nova Iorque, para enfatizar as raizes na cultura negra, afro-descendente. Os “Globetrotters” eram os “viajantes do mundo” levando a cultura de basquete do Harlem.


O time passou a ser agenciado por Abe Saperstein. As primeiras apresentações aconteciam no Savoy Ballroom, em Chicago, mas depois que o lugar virou ringue de patinação, a saída foi colocar o time na estrada em busca de financiamentos pontuais. Todos viajavam a bordo do Ford Modelo T de Saperstein. Os Estados Unidos viviam sua Apartheid, e a presença de um agente branco abriu portas para a equipe formada apenas por jogadores negros. Assim, passaram a participar de torneios em locais como Wisconsin e Michigan sob o comando de Saperstein, que também fazia o papel de treinador.


A parte cômica que popularizou o Harlem Globetrotters surgiu em 1939, quando, em um jogo por uma liga semi-profissional, os Trotters venciam o adversário por inacreditáveis 112 x 5. Começaram então a fazer brincadeiras e arrancar gargalhadas do público. A estrela destas performances era Inman Jackson, apelidado de “O Príncipe Palhaço”. Inman girava a bola na ponta dos dedos, escondia ela nas costas, levando os torcedores à loucura quando fingia fazer um passe e a bola continuava em sua mão. Saperstein resolveu usar todos os talentos de Jackson e os Trotters passaram a usar toques de humor em seus jogos mais fáceis, depois que o time abria uma grande diferença no placar e não tinha mais que se preocupar com uma possível derrota. No início, os jogadores adversários não gostavam muito das brincadeiras e houve algumas brigas. Mas aos poucos eles conseguiram ir mudando esta aceitação negativa, transformando o jogo num verdadeiro show de entretenimento combinado a um basquete de altíssimo nível, virou um espetáculo, abusando-se de dribles e jogadas inusitadas, fazendo de suas partidas uma mistura de entretenimento, habilidades performáticas e técnica apurada. Assim, o Harlem Globetrotters fez sua estréia internacional em 1939, em Winnipeg, no Canadá. Em 1941, para aprimorar as rotinas cômicas e performáticas, Reece "Goose" Tatum se juntou à equipe para desenvolver ainda mais as jogadas de coordenação conjunta e manipulação hábil da bola de basquete, incluindo números de malabarismo, uso de mais uma bola ao mesmo tempo para enganar os adversários e aprimoramento de tiros difíceis incomuns.


Em 1940, os Globetrotters provaram que podiam fazer mais do que brincadeiras na quadra. A equipe entrou num campeonato profissional jogando sério. Primeiro, venceram ao Kenosha Royals, por 50 x 26. Depois foi a vez do New York Renaissance, por 37 x 36. Os próximos adversários batidos foram os Syracuse Reds, por 34 x 24. A decisão do título foi contra o Chicago Bruins. Os Trotters venceram por 31 x 29, e foram chamados pela imprensa norte-americana de "Campeões do Mundo". Voltaram a provar seu valor quando duelaram contra o Minneapolis Lakers, nos primórdios do basquete profissional norte-americano, numa série de confrontos entre 1948 e 1952. Os dois primeiros duelos terminaram com vitórias do Herlem Globetrotters, 61 x 59 em 1948 e 49 x 45 em 1949. Mas daí para frente os Lakers não perderam mais, obtendo cinco vitórias sobre os Trotters entre 1949 e 1952. Foram raras as derrotas, uma das primeiras foi para o Orabs Sheldon, liderados por William DeKraai, na década de 1940. Em janeiro de 1952, o Harlem Globetrotters perdeu para os Chieftains, equipe da Universidade de Seattle (time que depois passou a ser o Redhawks), sofrendo uma virada no fim e perdendo por 84 x 81. Houve uma derrota para o Washington Generals em 1962, e depois disto o Harlem Globetrotters perdeu apenas três jogos mais nos 50 anos seguintes (em 5.983 jogos disputados). Em 5 de janeiro de 1971, eles perderam em Martin, Tennessee, para o New Jersey Reds por 100 x 99 na prorrogação. Entre 1962 e 1971, o Harlem Globetrotters ficou 2.495 jogos sem perder. Depois de quebrado esse jejum, só reencontraram a derrota em 1995. No período foram 8.829 vitórias. O número é explicado pelo fato da equipe ter mais de um elenco, o que possibilitava que se apresentassem em até 4 países ao mesmo tempo.


A partir de 1947, todos os jogos dos Globetrotters passaram a ser iniciados com a música “Sweet Georgia Brown”. A partir da década de 1950, com a integração de jogadores negros nos principais times dos EUA, o Harlem Globetrotters começou a perder a capacidade de atrair os maiores talentos negros (claro, com algumas exceções, como Wilt Chamberlain em 1958-59). Tornou-se então um time apenas de entretenimento, deixando de lado as competições oficiais. Mas foi exatamente a partir desta década que o time virou um fenômeno mundial, popularizando o basquete. Em 1951, no Estádio Olímpico de Berlim Ocidental, foram vendidos 75 mil ingressos, o maior público do basquete mundial de todos os tempos. Entre os jogadores que estiveram jogando pelo Harlem Globetrotters estão grandes nomes da NBA, além de Wilt Chamberlain, também fizeram parte da equipe nomes como Connie Hawkins, Nat Clifton, Marques Haynes, Meadowlark Lemon, Jerome James e Hubert Ausbie. Outro membro da equipe popular nos anos 1970 e 1980 foi Fred "Curly" Neal, que foi o melhor driblador da história da equipe e era imediatamente reconhecível pela sua cabeça totalmente raspada, algo que à época era incomum.


Desde sua primeira visita ao Brasil, em 1951, os craques do esporte-espetáculo lotaram estádios. A primeira temporada, em 1951, foi prejudicada pelas fortes chuvas que caíram no Rio de Janeiro em maio daquele ano. O jogo de estreia da equipe americana, no Maracanã, foi adiado duas vezes. A trupe enfrentou um combinado Fla-Flu e os All Stars, formado por veteranos do basquete dos Estados Unidos. A partir daí, os Globetrotters estiveram no Brasil em 1952, 1954, 1956, 1957, 1958, 1962, 1967, 1970, 1971, 1976, 1980, 1982, 1987, 1995, 1997 e 2010. Inclui-se nestas passagens um episódio constrangedor, na turnê de 1980 houve a prisão de dois atletas, em São Paulo. Eles foram acusados de posse de drogas e de roubar pertences do hotel onde estavam hospedados. Dois meses depois, foram expulsos do país.

Wilt Chamberlain nos Trotters

Por ser uma equipe de negros, eles sempre estiveram envolvidos em discussões sobre conflitos étnicos, atraindo críticas na Era dos Direitos Civis, ainda mais por ser uma equipe de negros comandada por um empresário e proprietário branco e judeu (Abe Saperstein). Em sua defesa levantou-se a voz do proeminente ativista dos direitos civis Jesse Jackson (que mais tarde seria nomeado um honorário Globetrotter) que afirmou: "Eu acho que eles têm sido uma influência positiva. Eles não mostram negros como estúpidos. Pelo contrário, eles são mostrados como superiores no que fazem". Não foram só neste campo que receberam críticas. Os hábitos circenses de seu espetáculo, jogando baldes de confetes na platéia para lhes assustar como se fosse um banho de água, além do uso de apetrechos que nada tinham a ver com o jogo de basquete, também provocaram alguns comentários negativos de certos críticos. Numa das apresentações, em Portugal, tiveram que ouvir que "eram muito bons ofensivamente, mas não sabiam defender". Decidiram então provar o quanto sabiam. Marcaram nova apresentação e os Globetrotters ficaram o tempo todo trocando bola no meio da quadra e divertindo os torcedores. Mantiveram o placar inalterado o jogo inteiro, e no último segundo fizeram uma cesta para vencer por 2 x 0 – o único 2 x 0 de que se tem notícia na história do basquete!


Os Globetrotters fizeram parte de dois filmes de grande-metragem no cinema. O time inspirou dois filmes: “Os Harlem Globetrotters”, de 1951, e “Go, Man, Go”, de 1954. Foi, no entanto, nos Anos 1970, que a turma mais divertida da história do basquete alcançou o auge de sua popularidade, passando a estrelar uma versão em desenho animado da Hanna Barbera. A primeira série teve apenas 13 episódios.


Eles voltaram em 1979, desta vez como os Super Globetrotters, um desenho animado que mostra um time de basquete formado por jogadores com super poderes que enfrentam times de super vilões na quadra de basquete, sendo que o jogo sempre valia algo importante. Os cinco jogadores entravam em seus armários e no meio do jogo saiam com super poderes. Sempre começavam o jogo com grande desvantagem, mas com os super poderes, ganhavam sempre.


Os heróis desta super equipe eram: Nate Branch, o Homem Líquido (Liquid Man), que tinha o poder de se transformar em água; Freddie "Curly" Neal, o Super Esfera (Super Sphere), que podia encolher os membros na cabeça, quicar e crescer, tendo uma cabeça com o formato de uma bola de basquete; James "Twiggy" Sanders, o Homem Espaguete (Spaghetti Man), que podia usar o corpo se esticando como uma corda ou uma escada; Louis "Sweet Lou" Dunbar, o Homem Variedade (Gizmo), que tinha um imenso penteado afro "black power", e conseguia tirar uma série de bugigangas do cabelo que sempre ajudavam na conjuntura do momento; e, por fim, Hubert "Geese" Ausbie, o Multi-Homem (Multi Man), que podia se multiplicar e surpreender os inimigos. Em 1982, eles ganharam uma estrela na calçada da fama de Hollywood.


Além de suas centenas de jogos de exibição, o Harlem Globetrotters voltou lentamente para o basquetebol competitivo depois de 1993 sob a nova administração, do ex-jogador Mannie Jackson. Em 12 de setembro de 1995, sofreram nova derrota, perdendo por 91 x 85 para o Kareem Abdul-Jabbar All Star Team, em Viena, na Áustria, terminando uma suposta execução de 8.829 vitórias consecutivas que remontavam a 1971. Em 1995, Orlando Antigua tornou-se o primeiro latino-americano e o primeiro jogador que não era negro a fazer parte do Harlem Globetrotters. Mas não havia mais como mudar a marca que estava construída e foi a grande responsável pela popularização mundial do basquete. As pessoas queriam ver o lado circense daquela trupe, admirando a enorme e quase inacreditável habilidade de seus jogadores, mas queriam diversão e não o jogo competitivo. Ainda assim, eles decidiram dar uma última demonstração do que eram tecnicamente capazes.



Em novembro de 2003, o Harlem Globetrotters realizou a Tour No-Nonsense, na qual enfrentou equipes do basquete universitário norte-americano. Não venceu todos os jogos, mas provou do que era capaz. Ainda mais quando sua principal estrela era um veterano de 33 anos, Cedric Ceballos, há muito tempo já distante de seus melhores momentos na NBA. Houve derrotas para as equipes das Universidades de Vanderbilt, de Maryland e para a UTEP, mas os Globetrotters venceram as equipes das Universidades de Michigan, de Massachusetts, e venceu a equipe então campeã da NCAA, o Syracuse Orange (vitória por 83 x 70), uma vitória confortável, na qual a vantagem chegou a ser de 17 pontos no primeiro tempo. Havia a ressalva de que Syracuse estava desfalcado de sua principal estrela, Carmelo Anthony, que havia sido a razão principal pela qual o time venceu o Campeonato Nacional da NCAA no ano anterior. Mas ainda era o campeão e com vários nomes que foram futuras escolhas no Draft da NBA, como Hakim Warrick, Demetris Nichols e Darryl Watkins. Em razão destas derrotas e de suas repercussões negativas, em 2004, a NCAA proibiu jogos de exibição dos Globetrotters contra equipes universitárias.


O Harlem Globetrotters já estava muito distante daquilo que houvera sido nos seus tempos áureos, no qual representavam a nata do basquete negro das ruas que não era aceito nas grandes ligas. No século XXI, era uma equipe de jogadores de basquete reais, mas um plantel composto por jogadores que não haviam conseguido encontrar espaço nem NBA nem nas equipes mais fortes do basquete europeu. Durante muitos anos foi válido o questionamento do que seria de um confronto entre os Globetrotters e uma equipe profissional da NBA. O questionamento tinha lá sua validade até os Anos 1970, 1980, mas depois disto, o salto de profissionalização da liga profissional norte-americana, e o caráter dos Trotters já muito distante daquilo que fora em seus tempos áureos, não davam mais razão a tal questionamento. Ainda assim, quando venceu o Campeão da NCAA, eles ainda provaram o quão competitivos eram quando jogavam para valer. Eternamente mitos!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

New York Renaissance: o basquete em meio a conflitos étnicos

Em meados da década de 1920 apareceu no coração do Harlem (bairro negro de Nova Iorque) um time que assombrou a primeira metade do século XX: o NY Renaissance ou Renaissance Big Five ou apenas Rens. Foi o primeiro time profissional dos EUA em que o dono, o técnico e os jogadores eram todos negros.

Criado em 1922 por Bob Douglas, um afro-americano que emigrara do Caribe, o Rens nasceu no meio do movimento cultural conhecido como Harlem Renaissance. Este movimento estava intimamente ligado à Grande Migração de negros americanos, que fugiam das leis segregacionistas dos estados do Sul em direção às cidades do Norte e do Centro-Oeste. Com a chegada desse mundaréu de gente, o Harlem passou por uma efervescência cultural sem tamanho. Surgiram escritores, artistas plásticos e músicos, representantes de uma expressão cultural que buscava ser genuinamente negra e se propunha a discutir temas relacionados à condição do negro na sociedade americana.

Bob Douglas

Mas, curiosamente, o nome do time não surgiu devido a uma identificação – pelo menos não diretamente – com o movimento Harlem Renaissance. Bob Douglas fez um acordo com o dono afro-americano de um cassino chamado, vejam só, Renaissance: o time adotaria o nome do cassino e, em troca, jogaria suas partidas na pista de dança do estabelecimento. As partidas do Rens no cassino foram um sucesso, as pessoas se amontoavam nas sacadas para assistir os jogos e após o apito final o público descia para dançar ao som de Fletcher Henderson, Count Basie, Duke Ellington ou Ella Fitzgerald. Há um senso comum que associa o jazz com o basquete nos EUA (pelo menos em sua origem), de uma forma muito parecida que há entre o samba e o futebol no Brasil. A capacidade de improvisação, o ritmo, a dança...

Naqueles anos, com algumas poucas exceções, era negado o acesso dos times de negros às principais ligas dos EUA. Para poder jogar, o Rens adotou uma prática comum na época, tornou-se um time itinerante que ia de cidade em cidade para disputar partidas contra os times locais; tais times itinerantes eram conhecidos como Barnstoming Teams. Mesmo sem competir em ligas oficiais, o NY Renaissance jogava de 4 a 5 jogos por semana.


A primeira metade do século XX foi marcada pela segregação racial nos EUA. Neste contexto, quando jogavam no Norte, usavam Chicago como base, viajavam até as cidades próximas e retornavam para Chicago, pois eram proibidos de alugar um quarto de hotel. Quando iam para o Sul, a ampla maioria dos seus adversários eram times de negros. Sofriam para encontrar hotéis, banheiros e lugares para comer. Quando ocorria um jogo contra um time de brancos, a tensão racial era ferrenha. Eram rotineiramente insultados durante os jogos (o público xingava, atirava objetos, derrubava os jogadores quando próximos da arquibancada). Mas a melhor resposta era dada dentro de quadra: qual não é a melhor forma, ainda que simbólica, de se levantar contra esta situação do que bater o time de brancos local? Ainda mais jogando contra mais de cinco adversários: cinco jogadores em quadra, os juízes e o público.

Mas e o basquete? Os jogadores que passaram pelo Renaissance, como John Isaacs, “Tarzan” Cooper, Fats Jenkins, “Puggy” Bell, “Shag” Burnett, “Pop” Gates, Zack Clayton, “Wee Willy” Smith, Eyre Saitch, segundo os relatos de quem presenciou aquele time em quadra, tinham um jogo maravilhoso! Coisa única na época! Pouco espaço para o individualismo, marcação forte e uma linha de passe frenética e irresistível. Para se ter uma idéia, durante a temporada de 1932-1933 o Rens ganhou 88 partidas seguidas. Na temporada inteira foram 120 vitórias contra apenas 8 derrotas.

NY Rens de 1933, com Bob Douglas no detalhe. Da esquerda para direita: Clarence ‘Fats’ Jenkins, Bill Yancey, John Holt, James ‘Pappy’ Ricks, Eiyre Saitch, Charles ‘Tarzan’ Cooper, William ‘Wee Willie’ Smith

Certamente o Harlem Globetrotters ficou mais famoso do que o NY Renaissance. Teve uma origem diferente quando comparada com o Rens, o Globetrotters foi fundado em 1927 por Abe Saperstein, um imigrante branco inglês. Apesar de conter “Harlem” em seu nome, o time era de Chicago. Saperstein adotou o nome do bairro de NY para deixar claro que o Globetrotters se tratava de um time apenas de negros.

Assim como o Rens, o Globetrotters também se transformou em um time itinerante e passava pelos mesmos problemas pelos quais qualquer time de negros passou na época. No entanto, a proposta de jogo do Globetrotters, mais acrobática e fantasiosa, era mais acessível ao público, principalmente aos brancos. Há diversas lendas sobre o desenvolvimento do estilo de jogo do Globetrotters, uma delas diz que o time era obrigado a enrolar durante a partida por ser muito superior que os times locais e abrir uma larga vantagem significava perder contratos para partidas futuras. Independente da origem, foi esse estilo que fez o Globetrotters se sobressair e, também, foi um dos alvos das críticas mais severas.

Muita gente afirma que o Globetrotters representava uma “Harlem mais agradável”, um show de negros exóticos para uma audiência de brancos, de negros mais condizentes com o que um branco esperaria de um negro. Talvez seguindo a tradição de um tipo de apresentação teatral horrorosa que fez muito sucesso no século XIX, conhecido como Blackface minstrelsy, no qual atores brancos pintavam o rosto de preto para interpretar negros. O Blackface minstrelsy foi um dos responsáveis por propagar uma série de estereótipos racistas. Simbolicamente, palhaçadas em quadra, um jogador driblar o time inteiro enquanto os outros jogam dados, ou jogadores fazendo caretas durante a partida não seriam mais do que variações de estereótipos do negro como infantil ou preguiçoso. Connie Hawkins, ex-jogador do Globetrotters, chegou a afirmar que a popularidade do time só veio porque os jogadores eram instruídos a atuar como “Uncle Toms”, um termo pejorativo que denota um negro subserviente que busca constantemente a aprovação dos brancos.

É uma posição oposta ao Renaissance. Enquanto o Rens representava um time que entrava para ganhar, apresentando uma forma revolucionária e efetiva de se jogar e era capaz de competir de igual para igual, inclusive, contra os principais times de brancos da época, o Globetrotters resgatava uma imagem de negro para entreter e fazer rir, a competição importava menos do que divertir a audiência, reforçando uma série de imagens preconceituosas que os brancos carregavam em relação aos negros. Enfim, em uma sociedade capitalista ainda fortemente vinculada à tradição escravista, uma mensagem como “sim, nós negros podemos competir em igualdade contra vocês” do Rens era impactante, tanto para a auto-estima dos negros americanos, quanto como era percebida como uma ameaça à hegemonia econômica, social e esportiva dos brancos na época.

Entretanto, tecnicamente o Globetrotters não era um time limitado, pois, era possível perceber o quanto seus jogadores eram bons quando a partida era para valer e o time deixava o entretenimento lúdico de lado para jogar a sério. Atualmente alguns estudiosos atribuem ao estilo de jogo do Globetrotters algumas jogadas espetaculares que ocorrem pelas quadras da NBA. Durante toda sua história, o Globetrotters contou com alguns fantásticos jogadores, como Marques Haynes, Reece “Goose” Tatum (credita-se a Goose a invenção do gancho), Fred “Curly” Neal e, o mais famoso de todos, Wilt Chamberlain.

Um dos adversários mais memoráveis do Rens foi o New York Celtics (que não tem parentesco com o Boston Celtics) composto apenas por brancos e reconhecido posteriormente como Original Celtics. Era uma das principais forças da época e na década de 1920 contava com jogadores como Dutch Dehnert, Nat Holman e Joe Lapchick. Enfrentando o Rens de Frank Forbes, Harold “Fat” Jenkins, Leon Monde, “Wee” Willis Smith e o grandalhão craque do time Chuck “Tarzan” Cooper, os jogos envolviam o que de melhor havia em quadra e muita tensão nas arquibancadas. Um jogo entre dois ótimos times de basquete já atraia muita gente, agora adicione o componente racial para se ter partidas com mais de 15.000 pessoas presentes. Relata-se que a violência literalmente explodia fora das quatro linhas, no entanto, há de ressaltar que ocorria justamente o contrário entre os jogadores. Joe Lapchick se tornou um grande amigo de Bob Douglas, além de ser um admirador inconteste de “Tarzan” Cooper. Lapchick, considerado um dos primeiros grandes pivôs da história, costumava dizer que Cooper poderia jogar de igual para igual contra ele no um contra um. Em 1925 a American Basketball League (primeira tentativa de se criar uma grande liga de basquete nos EUA) não admitiu a participação do Rens na competição, o Original Celtics, em solidariedade, recusou-se a entrar na Liga e não disputou o campeonato daquele ano. Segundo Richard Lapchick, filho de Joe Lapchick, quando alguém dizia a seu pai que o Original Celtics foi o melhor time que já vira jogar, Joe Lapchick corrigia: “O Rens era tão bom quanto a gente quando começaram, e melhor do que nós no final”.

O Rens e o Globetrotters foram convidados em 1939 a integrar o World Professional Basketball Tournament, campeonato organizado pelo jornal Chicago Herald American em formato de torneio – quem perdesse era eliminado. Foi a primeira competição que permitiu a participação de jogadores negros e brancos juntos. Estendeu-se de 1939 até 1948 (a NBA seria fundada no ano seguinte) e, ao longo dos anos, o fino do basquete norte-americano desfilou pelas quadras: Haynes Oshkosh All-Stars, Indianapolis Kautskys, Fort Wayne Pistons, Minneapolis Lakers, Sheboygan Redskins, Original Celtics e outros.

Na primeira edição, em 1939, deu NY Renaissance. O Rens bateu o Globetrotters na semi-final por 27 a 23. Na final enfrentou o poderoso Oshkosh All-Stars, que na temporada de 1938-1939 havia sido vice-campeão da National Basketball League (uma das ligas pré-NBA) e seria finalista da NBL por 5 anos consecutivos, entre as temporadas de 1937-38 e 1941-42. O Renaissance venceu por 34 a 25, sendo declarado o primeiro campeão do World Professional Basketball Tournament. Puggy Bell, do NY Rens, foi eleito MVP do campeonato.

Em 1940 o Globetrotters deu o troco, em um jogo equilibradíssimo, venceu ao Rens nas quartas de final por 37 a 36. Na semi-final venceu ao Syracuse Reds por 34 a 25 e bateu ao Chicago Bruins na final por 31 a 29. Sonny Boswell, do Globetrotters, foi declarado MVP do campeonato.

O time do Globetrotters de 1940, campeão do World Professional Basketball Tournament, da esquerda para direita: secretário Chuck Jones, Babe Pressley, Sonny Boswell, Hillary Brown, Inman Jackson, Ted Strong e Bernie Price

Em 1948 ocorreu a última edição do World Professional Basketball Tournament, com o Renaissance chegando à final novamente, agora contra o Minneapolis Lakers, de George Mikan (considerado o melhor jogador da primeira metade do século XX). O Lakers derrotou o Rens por 75 a 71. Mas, mesmo com essa final, o Rens foi perdendo espaço. Em contrapartida, o Globetrotters, contando com Marques Haynes e Reece “Goose” Tatum, tornou-se dominante na década de 1940, batendo inclusive ao Lakers duas vezes, em 1948 e em 1949. Em 1949 Bob Douglas, em virtude de dificuldades financeiras, vendeu o NY Renaissance para Saperstein.

A partir da década e 1950, com a integração de jogadores negros e brancos nos principais times dos EUA, o Globetrotters começou a perder a capacidade de atrair os maiores talentos negros (claro, com algumas exceções, como Wilt Chamberlain em 1958-59), e tornou-se um time apenas de entretenimento, deixando de lado as competições oficiais. Foi a partir desta década que o time virou um fenômeno mundial. Tornaram-se constantes as excursões internacionais, aparições em programas de TV, desenhos animados, filmes e outros.

Pode ser creditada ao Globetrotters e a Saperstein parte da criatividade e do show presente no DNA do jogador norte-americano, mas houve sim um preço a se pagar. Sem dúvida, Saperstein tinha um tino marqueteiro apurado, mas nenhuma responsabilidade com a situação do negro. O perfil de homem de negócios de Saperstein era diferente do perfil de Bob Douglas. Um primeiro ponto a se ressaltar é que Bob Douglas dividia igualitariamente a renda gerada nos jogos com os jogadores, prática que Saperstein até adotou no início, mas após um tempo resolveu estabelecer um valor fixo a ser pago para cada um que, invariavelmente, significava pagar menos aos jogadores e lucrar mais. Saperstein soube captar o que o branco pagaria para ver, o branco norte-americano daquela época queria o "Uncle Tom", queria o ator com o rosto pintado de preto. Bob Douglas, pouco antes de morrer, em 1979, disse: “Abe Saperstein morreu milionário porque deu aos brancos o que eles queriam ver. Quando eu morrer, irei sem um centavo no bolso, mas com a consciência tranquila”.

Ao longo da história, reivindicar direitos só foi possível com uma boa dose de enfrentamento. Não foi sem luta que os trabalhadores conseguiram expandir seus direitos trabalhistas, que atualmente os homossexuais brigam para ter reconhecidos todos os seus direitos civis e que os negros norte-americanos combateram a segregação racial. O Rens foi um representante importante desta luta. Mesmo sem ter um discurso pronto, o NY Renaissance significou uma tomada de posição no campo esportivo, um discurso político traduzido na forma de jogar dentro das quatro linhas. Poderia-se exprimir sua posição como: “Sim, somos negros e podemos bater qualquer time. Jogamos para ganhar. Enfrentamos o seu time, o seu público, seus xingamentos. O negro comum vai ter seus próprios heróis em quem se espelhar. E estes heróis somos nós”.

Kareem Abdul-Jabbar foi um dos responsáveis por um ótimo documentário sobre o NY Renaissance, chamado On The Shoulders of Giants. É possível encontrar na Baía dos Piratas.

Spike Lee, aquele mesmo torcedor fanático do Knicks, fez um filme que tem o Blackface minstrelsy como tema, chamado “A Hora do Show” (Bamboozled).

Fonte: site Draft Brasil