sábado, 18 de agosto de 2012

Iugoslávia: Tradição do Basquete nos Bálcãs

Yugoslavia: The Balkans Basketball
Iugoslavia: La tradición en baloncesto de los Balcanes


A Região dos Bálcãs, na Europa, também conhecida como Península Balcânica, está no sudeste do continente, reunindo as repúblicas que formaram no passado a Iugoslávia (Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia, Croácia e Eslovênia), além de Albânia, Romênia, Bulgária, Grécia e a porção européia da Turquia. O termo deriva da palavra turca para montanha, fazendo referência à cordilheira dos Bálcãs, que se estende do leste da Sérvia até o Mar Negro.


Do tamanho destas montanhas é a tradição no esporte que sempre foi associado à altura: o basquete. Um país em especial construiu uma história gloriosa no basquetebol, tradição perpetuada após seu fim nas repúblicas independentes que a formavam: a Iugoslávia.


A história da Iugoslávia foi se formando na complexa rede cultural e política dos Bálcãs. O embrião do que veio a ser a Iugoslávia se formou num reino formado em 1918 (Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos). Em 1929 estas terras passaram a se chamar Reino da Iugoslávia. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, houve a ocupação pelos países do Eixo, passando na divisão política do Pós-Guerra a se tornar um Estado comunista: República Popular Federal da Iugoslávia, de 1946 a 1963, e República Socialista Federativa da Iugoslávia, a partir de abril de 63.

A Iugoslávia existiu como Estado até a dissolução do comunismo. Em 1991, Eslovênia, Croácia, Macedônia e Bósnia deixaram a federação e ficaram independentes. As repúblicas remanescentes, Sérvia e Montenegro, refundaram a República Federal da Iugoslávia, que existiu até 2003, quando o nome Iugoslávia foi oficialmente abolido e o estado transformado numa comunidade pouco sólida chamada Sérvia e Montenegro. Em 2006, por fim, um referendo popular votou a dissolução e criação dos estados independentes de Montenegro e da Sérvia.

O esporte pagou o preço de tanta confusão política, e um dos maiores times de basquete de todos os tempos acabou dividido em 1991. Mas a grande tradição iugoslava vem de bem antes disto. A Iugoslávia começa a emergir como potência no basquete nos anos de 1960.

A tradição começa em 1963, com o Vice-campeonato Mundial. Nas Olimpíadas de 1964, uma tímida 7ª colocação, daí para frente uma seqüência impressionante de grandes resultados, começando por um novo Vice-campeonato no Mundial de 1967. Em Campeonatos Mundiais, foram 8 edições consecutivas entre os 3 primeiros colocados. Vice em 63 e 67, campeã em 70, vice em 74, campeã em 78, 3º lugar nos Mundiais de 82 e 86 e mais uma vez campeã em 90. Em Jogos Olímpicos, nas seis edições entre 1968 e 1988, só não ficou uma vez entre os três medalhistas, com um 5º lugar nas Olimpíadas de 1972. Juntando Mundiais e Olimpíadas entre 1967 e 1990, a Iugoslávia foi 4x 1º lugar, 5x 2º lugar, 3x 3º lugar e 1x 5º lugar. Em 13 torneios internacionais, ficou 12 vezes entre os três primeiros colocados. Um desempenho fantástico!
Fora que ainda foi Tri-Campeã Européia em 1973-1975-1977, e Bi-Campeã em 1989-1991.

Os dois primeiros grandes jogadores a colocar a Iugoslávia em outro patamar no cenário internacional foram o armador Ivo Daneu, que defendeu a sua seleção de 1957 a 1970, e o ala-pivô Radivoj Korac, que defendeu a seleção de 1959 a 1969, ano no qual morreu prematuramente num acidente de carro.


Ivo Daneu
Carreira: 1949-1956 Branik Maribor; e 1956-1970 Unión Olimpia, de Ljubljana.

Radivoj "Zucko" Korac
Carreira: 1955-1969 OKK Belgrado.

No final doa anos 60 e começo dos 70, a seleção da Iugoslávia ficou ainda mais forte, com a ascensão de novos nomes que marcaram época na história basquetebolística do país. Um destes nomes foi Vinko Jelovac, que defendeu a camisa iugoslava de 1969 a 1977, tendo se destacado principalmente no Mundial de 1974, quando foi eleito o melhor jogador do torneio. Mas o principal nome a surgir nesta nova leva de craques foi o pivô Kresimir Cosic, que defendeu a sua seleção de 1967 a 1981. Em 1973, no time que sagrou-se campeão europeu, foram revelados outros dois monstros do basquete iugoslavo, que naquele time ainda eram reservas, mas que não demoraram muito para se tornarem titulares absolutos: Drazen Dalipagic e Dragan Kicanovic. Ia assim se formando o timaço que dominou o basquete mundial entre 1975 e 1980.

Outra peça que completaria a majestosa engrenagem chegou em 1975 à seleção: Mirza Delibasic. Destes três gênios, que juntos com Cosic dominaram o cenário europeu, Delibasic ficaria na equipe até 82 (teve que se aposentar prematuramente após um pequeno acidente vascular cerebral), Kicanovic até 83 e Dalipagic até 84. O timaço iugoslavo do período 76 a 80 teve ainda nomes como Zoran Slavnic, Zeljko Jerkov e Ratko Radovanovic. O quinteto que marcou esta época jogava com Delibasic, Kicanovic, Jerkov, Dalipagic e Cosic. Treinados primeiro por Moiko Novosel e depois por Ranko Zeravica.


Kresimir Cosic
Carreira: 1965-1970 KK Zadar; 1970-1973 Brigham Young University Cougars (EUA); 1973-1976 KK Zadar; 1976-1978 Unión Olimpia, de Ljubljana; 1978-1980 Virtus Bologna (Itália); e 1980-83 KK Cibona Zagreb

Dragan Kicanovic
Carreira: 1973-1981 Partizan Belgrado; 1981-1983 Victoria Libertas Pesaro (Itália); e 1983-1984 Racing Paris (França)

Drazen "Praja" Dalipagic
Carreira: 1970-1980 Partizan Belgrado; 1980-1981 Reyer Venezia (Itália); 1981-1982 Partizan Belgrado; 1982-1983 Real Madrid (Espanha); 1983-1985 Udine (Itália); 1985-1988 Reyer Venezia (Itália); 1988-1990 Scaligera Verona (Itália); e 1990-1991 Estrela Vermelha (Sérvia)

Mirza "Kindje" Delibasic
Carreira: 1968-1972 Sloboda Tuzla; 1972-1980 Bosnia Sarajevo; e 1980-1982 Real Madrid (Espanha). Aposentadoria prematura em 82 após uma hemorragia cerebral.

Esta histórica equipe da Iugoslávia fez história ao superar sucessivamente a União Soviética, que era então 8 vezes seguida campeã européia entre 1957 e 1971. No Campeonato Europeu de Seleções (Eurobasket) a Iugoslávia foi Tri-campeã em 1973, 1975 e 1977. Em 73, na Espanha, os espanhóis derrubaram os soviéticos na semi-final; a Iugoslávia superou a Tchecoslováquia na semi e a Espanha na final e foi a campeã. Em 75 e 77, duas vitórias sobre a URSS na final: em 75 vitória por 90 x 84 em Belgrado, e em 77, jogando na Bélgica, vitória por 74 x 61. Os soviéticos se vingaram em 79, na Itália, quando venceram por 96 x 77 no Hexagonal Final, e em 81, na Tchecoslováquia, quando derrotaram os iugoslavos na final por 84 x 76. Mas a Iugoslávia os superou em Olimpíadas e Mundiais nesse período. Nos Jogos Olímpicos de 76, em Montreal, no Canadá, a Iugoslávia venceu a semi-final por 89 x 84 e eliminou a seleção soviética. No Mundial de 78, nas Filipinas, Iugoslávia 82 x 81 URSS na finalíssima. E nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, dentro da União Soviética, a Iugoslávia venceu a URSS na semi-final por 101 x 91 e conquistou o título sobre a Itália, na final. Entre 1975 e 1980, foram seis partidas decisivas entre iugoslavos e soviéticos, com a Iugoslávia vencendo 5 e perdendo 1.

Depois disto, Estados Unidos e União Soviética retomaram a bipolaridade da Guerra Fria no basquete. Mas ainda durante os anos de 1980 surgiu uma nova geração na Iugoslávia que voltou a marcar história.


E, num mundo novo, em que o Comunismo ia enfraquecendo até colapsar e o Capitalismo dando sinais cada vez maiores de força, os principais nomes desta nova geração iugoslava brilharam também na NBA; um trio fenomenal, com o armador Drazen Petrovic e a dupla de pivôs Toni Kukoc e Vlade Divac. Este time foi Medalha de Prata nas Olimpíadas de 1988, Campeão Mundial em 1990 e Bi-campeão Europeu em 1989 e 1991.


Drazen Petrovic
Carreira: 1979–1983 KK Sibenka; 1984–1988 KK Cibona Zagreb; 1988–1989 Real Madrid (Espanha); 1989–1991 Portland Trail Blazers (NBA); e 1991–1993 New Jersey Nets (NBA).
Petrovic morreu em 1993 num acidente automobilístico e sua camisa no New Jersey Nets, a de número 3, foi aposentada pela franquia.

Toni Kukoc
Carreira: 1985–1991 Yugoplastika; 1991–1993 Benetton Treviso (Itália); 1993–2000 Chicago Bulls (NBA); 2000-2001 Philadelphia 76ers (NBA); 2001–2002 Atlanta Hawks (NBA); e 2002–2006 Milwaukee Bucks (NBA).

Vlade Divac
Carreira: 1983–1986 KK Sloga; 1986–1989 Partizan Belgrado; 1989–1996 Los Angeles Lakers (NBA); 1996–1998 Charlotte Hornets (NBA); 1999 Estrela Vermelha (Sérvia); 1999–2004 Sacramento Kings (NBA); e 2004–2005 Los Angeles Lakers (NBA).
Outro iugoslavo que teve sua camisa aposentada por uma franquia da NBA, o Sacramento Kings aposentou seu número, a camisa 21.

Em 1991 este grande time de basquete foi separado entre as seleções da Croácia e da Sérvia (que conservou o nome Iugoslávia por mais de uma década ainda). O que eles ainda teriam sido capazes de fazer juntos se não fosse essa ruptura? Impossível responder. Em história não existe "se". O fato é que se separaram, e que nos Jogos Olímpicos de 1992, quando os EUA levaram o Dream Team, foi o time da Croácia o que impôs maior resistência a eles, ainda que tenha perdido seus jogos por 30 pontos de diferença.

Divac, do Lakers, contra Petrovic, do Portland

A política que destrói é a mesma que constrói. Dos principais basquetebolistas iugoslavos, Kresimir Cosic, Drazen Petrovic, Dino Radja e Toni Kukoc nasceram na Croácia; Radivoj Korac, Dragan Kicanovic e Vlade Divac nasceram na Sérvia; Ivo Daneu e Vinko Jelovac nasceram na Eslovênia; Mirza Delibasic e Drazen Dalipagic nasceram na Bósnia. Se o Reino da Iugoslávia não houvesse um dia existido, jamais teriam sido vistos os grandes times de basquetes formados por estes geniais jogadores.

Depois da dissolução da antiga Iugoslávia, ainda houve grandes times e craques. Primeiro brilhou a Croácia - com Petrovic, Radja e Kukoc - medalha de prata nas Olimpíadas de 92. Após este grande time croata, que conservava boa parte da força daquela Iugoslávia dissolvida, quem demonstrou força foi outra parte da república partida: a "nova" Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) foi Prata nas Olimpíadas de 1996, Bi-Campeã Mundial em 1998 e 2002 e Campeã Européia de 1995, 1997 e 2001. No time de 95 a 98 as estrelas eram Dejan Bodiroga, Aleksandar Djordjevic e Zeljko Rebraca. No time de 2000 a 2002, destacava-se também Predrag "Peja" Stojakovic. No Mundial de 98 destacou-se também Gregor Fucka, esloveno naturalizado italiano. A tradição dos Bálcãs seguiu forte com o time da Sérvia, vice-campeã européia em 2009, torneio no qual a Eslovênia terminou em 4º lugar, mesma colocação da surpreendente Macedônia no Eurobasket seguinte, em 2011. O destaque na equipe sérvia foi Milos Teodosic, que fez parte do Quinteto Ideal do Mundial de 2010.




Veja mais: As melhores seleções do basquete europeu no século XX


Veja também: E se a Iugoslávia não houvesse se dividido?



5 comentários:

  1. Muito linda a historia da antiga Yugoslavia.

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  2. Timaço de basquete. Vale a pena assistir o documentário "Once Brothers", que narra como pano de fundo a (infelizmente deteriorada pela guerra) amizade entre Vlade Divac (sérvio) e Drazen Petrovic (croata).

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    1. É grande documentário, também já vi! Não tinha ideia da amizade dos dois que depois do incidente da bandeira croata que o Divac atirou fora, na final do europeu , deixaram de o ser e nunca tiveram oportunidade de falar, pois o Petrovic morreu no acidente de automóvel...Bela história do Basquetebol...Grande equipa da Iugoslávia..

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